Mercados sem risco à vista?

Os mercados internacionais ganharam vida própria e movem-se contra tudo e contra todos. As bolsas europeias valorizaram ontem pela sexta sessão consecutiva, registando a maior série de ganhos em um ano, comparando com 10 de Março de 2017, dia em que as acções completaram nove dias de subidas.

Os juros da dívida desceram na generalidade dos países do euro, tendo a taxa de juro implícita da dívida portuguesa no mercado a dez anos descido 3,9 pontos para 1,824% e os da dívida espanhola descido 3,1 pontos para 1,405%. Em Itália, os juros no mesmo prazo de referência desceram 0,7 pontos para 2,003%, enquanto na Alemanha desceram 1,5 pontos para 0,632%.

Na passada semana, o índice mundial dos mercados de ações subiu 2,8%, registando o conjunto da zona euro e Nova Iorque os ganhos mais elevados. Surpreendentemente, a Bolsa italiana liderou as subidas na zona euro.

A falta de sensibilidade dos mercados ao risco atingiu mínimos históricos. O risco dos mercados passou a ser um conceito difuso no tempo, disperso pelo espaço que é hoje a globalização, num sistema de vasos comunicantes onde os riscos são facilmente compensados por qualquer boa notícia de qualquer variável exógena ao risco identificado.

A simples promessa de um encontro entre os dois mais instáveis líderes mundiais, dos EUA e da Coreia do Norte, serve para alimentar as expectativas dos optimistas mercados mundiais, pseudo-mitigando o risco da potencial guerra comercial com o reforço da política protecionista ameaçada por Trump, que ninguém parece querer valorizar.

Na Europa, o mercado contenta-se com muito pouco... O terramoto político em Itália do passado dia 4, a terceira maior economia europeia, causado pelo voto maioritario dos italianos em partidos eurocépticos, está a ser completamente desvalorizado pelos mercados apenas por uma questão temporal, pois a expectável demora na negociação de uma coligação de governo parece ser suficiente para os mercados continuarem alguns meses como se nada tivesse acontecido. O risco político já não é o que era...

No entanto, talvez valha a pena recordar que Itália continua a ser o quarto maior devedor do mundo, tendo que refinanciar €240 bi em 2018, num total superior a €2.000bi de dívida pública. Deste montante, terá que refinanciar anualmente dívida equivalente a cerca de 16% do seu PIB nos próximos sete anos, a taxa mais alta da zona euro.

Para além da Grécia, Itália é o único país da zona euro que regista um PIB per capita em 2017, ajustado pela inflação, inferior ao registado em 1999, quando o Euro foi criado.

Considerando que os partidos mais votados prometeram menos impostos e mais rendimento na forma de rendimento básico universal, desequilíbrios orçamentais deveriam ser expectáveis, colocando ainda mais pressão na discussão dos eurocépticos sobre o Euro e aumentando a tensão entre Itália e o resto da Europa.

De facto, os riscos existem e estão aí para quem os quiser ver... Pois o mundo está cada vez mais perigoso e o BCE não aguenta muito mais tempo a segurar esta Europa. E quando cair vai fazer mais estrondo do que em 2008.