A vida de saltos altos

Não, a menstruação não é um líquido azul

“Ao contrário da crença popular, as mulheres não sangram um líquido azul, sangram sangue. Ter o período é normal. Mostrá-lo também deveria ser”. Palavras da nova publicidade de uma marca inglesa de produtos de higiene íntima feminina, que se atreve finalmente a fazer aquilo que, regra geral, não acontece: mostrar a realidade, ou seja, que o nosso fluxo menstrual é vermelho e não azul ou verde como tantas vezes surge na televisão ou em revistas. E que isto – o sangue que nos sai mensalmente pela vagina – é somente algo normal.

Mas afinal o que é que importa isto da cor? É simples: Usar líquidos azuis para representar o sangue do período é tratar este tema como algo digno de ferir suscetibilidades e não como um processo biológico perfeitamente normal de metade da população do planeta. E quando optamos por alterar a cor para representar algo tão normal quanto o da menstruação, estamos a alimentar um tabu em relação a esse mesmo processo. A reforçar a ideia de que o período é algo muito sujo e que devemos esconder, acima de tudo, porque sai pela vagina.

Sejamos francos: uma ferida a sangrar num braço pode deixar-nos incomodados, mas quando se pensa em sangue menstrual, as reações roçam sempre a palavra “nojo”. Isto, obviamente, tem um impacto na forma como depois as pessoas que levam com esse dito “nojo” todos os meses lidem com ele como se realmente fosse algo que deve ser mantido em segredo dos deuses e não como algo totalmente normal, por mais desconfortável que seja. Basicamente, continuamos a olhar para o período como um bicho papão que todos nós sabemos que existe mas sobre o qual poucos falam abertamente (a não ser para fazer piadinhas corriqueiras sobre as mulheres e as suas alterações hormonais, algo que, pelos vistos, serve de arma de arremesso quando não há mais argumentos). Até mesmo a própria palavra período – que, já agora, durante muitos anos nem sequer era permitida em anúncios televisivos – ainda é dita em jeito de sussurro no espaço público, como se fosse uma vergonha estamos menstruadas. Enfim.

Lembro-me sempre daquele caso da artista Rupi Kaur, que há uns anos decidiu fazer a experiência de colocar uma foto sua no Instagram em que surgia deitada de costa, com uma pequena mancha de sangue nas calças, entre as pernas. A ideia era perceber que reações a imagem de algo tão simples provocaria nos demais. "Que porca!" ou "É grotesco!" foram respostas que não se fizeram esperar. E a própria rede social alinhou na censura, acabando por banir a imagem. "Ninguém se choca que as mulheres apareçam constantemente nuas ou com pouca roupa, como meros objetos sexualizados. Parece que a 'pornificação' da imagem feminina é mais cómoda que a menstruação”, disse a artista na altura. Não podia estar mais de acordo com esta análise.

Foto que foi banida do Instagram

Foto que foi banida do Instagram

Créditos Rupi Kaur

Além da utilização de um líquido vermelho para representar a absorção de fluxo menstrual no penso higiénico, este spot publicitário tem ainda outras mensagens envolvidas que são altamente válidas e importantes para desfazer tabus em relação ao período. Por exemplo, um homem que surge a comprar pensos higiénicos como se estivesse a comprar qualquer outro produto de supermercado (ainda há quem tenha vergonha disto). Uma mulher a desfrutar de uma piscina tranquilamente, outra a tomar banho e um fiozinho de sangue a escorrer-lhe pela perna, outra com umas cuecas brancas e um bordado vermelho em jeito de metáfora (sim, nós sujamos as cuecas à vezes, e então?), uma festa de carnaval em que alguém surge mascarado de penso higiénico com sangue. “O sangue é normal” portanto “vive sem medo”, passa esta campanha como mensagem final.

Como diria uma utilizadora do YouTube em resposta ao vídeo: “Tenho 50 anos e nunca pensei que um dia fosse ver o período representado com líquido vermelho. Esta geração está a dar passos em frente”. Pequenos passos para as mulheres, grande passos para o caminho da desconstrução de mitos, tabus e formas subliminares de discriminação na humanidade. A mudança de mentalidades também se faz com coisas supostamente pequenas como esta.