“Sem Mulheres, Não”, exigem os académicos espanhóis

Investigadores, professores, politólogos, juristas, economistas: ao todo são 56 os académicos espanhóis que se comprometeram publicamente, e por iniciativa própria, a não participar em nenhum evento onde não haja pelo menos uma mulher convidada na qualidade de especialista. Porquê? Porque reconhecem que as mulheres continuam a ser desvalorizadas também no meio académico. E porque percebem que podem ter um papel proactivo no movimento de mudança de paradigma.

O movimento chama-se “No Sin Mujeres” e convida todos os académicos espanhóis da área das ciências sociais a juntarem-se pelo fim da discriminação latente sobre as profissionais do sexo feminino em debates, mesas redondas, congressos ou conferências. Depois das recentes manifestações em massa impulsionadas por mulheres em prol da luta pela igualdade de género no país, este manifesto público surge como “uma demonstração de entendimento quanto a uma exigência bastante óbvia, e uma forma de deixar um aviso claro aos organizadores de eventos académicos”. Se em Espanha há discriminação na hora de escolher especialistas para debates e demais eventos, por cá a realidade é semelhante?

Vamos aos últimos meses: Conferência “Educação, Que Futuro?”, 4 oradores, 0 mulheres. Conferência: “Os desafios da União Europeia / A comunicação reforçar a União Europeia?”, 11 oradores, 1 mulher. Debate “Os Universalistas: de maio de 68 a abril de 74”, 4 oradores, 0 mulheres. Conferência “Variedades de Democracia na Europa do Sul”, 11 oradores, 0 mulheres. Estes são apenas alguns exemplos recentes de eventos a decorrer em Portugal onde é notória a diminuta ou nula participação feminina entre os convidados dos painéis. A página “Mulher Não Entra” tem feito um verdadeiro serviço público ao analisar e partilhar diariamente esta informação, com a relação entre o número convidados/oradores de ambos os sexos. Uma chamada de atenção pertinente, e bastante demonstrativa do menosprezo instituído no que diz respeito às especialistas do sexo feminino nas mais variadas matérias levadas a debate.

Não questionar a equidade é perpetuar o problema

Muito se tem discutido em torno da necessidade de leis como a da paridade (que, passo a passo, lá nos vai trazendo mais presença feminina no poder político) ou das quotas de género, que tenta regular uma desigualdade histórica no acesso aos órgãos de administração e de fiscalização nas empresas públicas e nas cotadas em bolsa. Medidas que foram implementadas porque a autorregulação não tem funcionado no nosso país – nem nada indicava que viria a funcionar efetivamente num futuro próximo. Seja no que toca ao acesso a cargos de liderança, seja na participação em debates e conferências, volto a perguntar: São as mulheres menos capazes, eficientes ou qualificadas, mesmo que os índices de formação académica nos mostrem precisamente o contrário? Ou será que, independentemente do seu mérito individual, têm simplesmente mais dificuldade em chegar a cargos de decisão, tal como a serem consideradas em situações de debate e inerente visibilidade pública?

É muito fácil que as instituições e empresas que organizam eventos académicos (tal como noutros âmbitos) se refugiem na eterna desculpa de que a escolha dos seus painéis é baseada apenas na qualidade e pertinência do trabalho desenvolvido pelos convidados em determinadas matérias. Ou então recorrer ao chavão de que as suas escolhas não fazem discriminação positiva, nem negativa, e que o género dos convidados não interessa para nada. A questão é que vivemos num país onde a desigualdade de oportunidades e de reconhecimento do mérito entre homens e mulheres ainda é uma realidade bastante presente. E se olharmos para os exemplos de eventos recentes percebemos isso automaticamente. Neste contexto, não se questionar a equidade é simplesmente perpetuar a situação. E fazer ativamente parte dela. Basicamente, não reconhecer que invariavelmente também existem mulheres com a tal qualidade e pertinência no trabalho desenvolvido.

Não é começar a convidar mulheres só porque são mulheres

Há uns dias alguém me dizia que se as mulheres querem que isto mude têm de parar de se queixar e apontar o dedo aos homens, e convidá-los a fazer parte da discussão. Ora bem, a mim parece-me que está na altura de tirarmos essa responsabilidade adicional dos ombros das mulheres, e de seguirmos o exemplo deste grupo de académicos espanhóis (que não precisaram do convite de ninguém para tomarem uma posição). Não são as mulheres que têm de puxar a carroça e convidar os homens a ajudarem-nas no processo, como se isto de puxar a carroça fosse uma responsabilidade delas uma vez que são elas as mais prejudicadas (mais ou menos como a questão da partilha das tarefas domésticas/familiares – ou o tal trabalho reprodutivo que Irene mencionava no seu cartaz). Ou seja, está na altura de percebermos que qualquer cidadão, independentemente de ser homem ou mulher, tem a responsabilidade de participar espontaneamente no movimento de mudança da nossa sociedade nas matérias de igualdade.

Como diria um deste homens espanhóis ao "El País", "é óbvio que estamos num país que discrimina as mulheres e somos a favor de novos mecanismos que facilitem a sua ascensão". Mecanismos que, como este grupo de importantes académicos vem demonstrar, podem ser impulsionados por todos nós, e das mais variadas formas. Corrigir uma discriminação histórica pode passar por pensarmos duas vezes quando fazemos convites para uma conferência, por exemplo. E isso não significa que estamos a discriminar os homens, atenção. Significa que se calhar estamos só a tentar quebrar o hábito e a repensar as nossas escolhas automáticas, que muitas vezes estão viciadas. Não é começar a convidar mulheres só porque são mulheres. É simplesmente parar para pensar se não há também mulheres que reúnam uma série de critérios que as tornam válidas enquanto oradoras de determinado evento, com base nas suas capacidades profissionais, qualificações e experiência. Basicamente, é mudar o paradigma nos processos de seleção, tal como acontece nos cargos de liderança. Este movimento No Sin Mujeres é sobre isto.