Crónica

Manuel de Seabra, Um homem do mundo

Manuel de Seabra, à direita, durante a homenagem que lhe foi feita pelo Governo Catalão. Seabra faleceu em maio de 2017

D.R.

Manuel de Seabra vai ser homenageado esta quarta-feira em Lisboa. Um merecido tributo a um dos grandes intelectuais portugueses que deixou a sua marca sem algazarra, em campos como a escrita, a tradução e o jornalismo. E na rara arte de construir amizades

Manuel de Seabra – escritor, jornalista e tradutor emérito – faleceu em meados deste ano, na cidade de Barcelona, localidade que amava como o seu próprio país, português de origem lisboeta que era. Mas para revelar toda a verdade sobre este intelectual incomum, a sua pátria era o mundo. A sua mundividência responde por essa atitude que ele nunca descorou: homem de muitas pátrias e de uma imensa curiosidade que o fez ser trota mundos com menor sofrimento possível, aguentando desta feita as perseguições salazaristas que o obrigaram ao exílio.

Seabra tinha uma queda rara para línguas, que dominava em catadupa, entre as quais o castelhano, o francês, o catalão, o russo, o chinês, entre outros. Até esperanto… e que sei eu mais… Dessa inelutável aptidão, cedo nele apreciada, fez com que fosse um dos tradutores mais prolíficos do nosso país.

Conheci-o quando privámos no projecto de obras completas do poeta russo Maiakovski, um atrevimento logo nos anos posteriores à revolução portuguesa que infelizmente se ficou, então, pela edição do primeiro volume… Depois fomos falando casualmente, entre eléctricos, meio de locomoção que utilizava amiúde, entre umas bicas que se prolongavam em conversatas amenas. Possuía uma cultura imensa, muito para além da mera curiosidade, sobretudo referência dos seus interesses e dos seus estudos.

Quando regressou das suas andanças pela Suécia, União Soviética, Brasil, França, Inglaterra – onde foi jornalista da BBC – regressou à sua terra, e numa curta temporada em 1970, em dois anos publicou 26 livros, entre livros seus, edições por ele traduzidas que foram best sellers, dicionários como o Português-Catalão e o Catalão-Português, de preparou em conjunto com a sua companheira, Vimala Devi, e ainda as famosas antologias, mormente de poesia estrangeira, essenciais num Portugal recém saído da ditadura e de mordaça apertada que castrava tais devaneios.

Falar de Seabra merece a escrita de um livro biográfico. A sua vasta obra de ficção, ela própria, é por si mesma digna de realce. Deu ‘cartas’ num procedimento que urgia mas que tardava a criar-se, no conhecimento das obras de portugueses e catalãs em cada um dos territórios. A título de exemplos, destaquemos Fèlix Cucurrull, Pera Calders, Salvador Espriu ou Vítor Mora Pujadas, de um lado, e Torga e Saramago de outro.

Em 2001 a Generalitat de Catalunya, o governo da pátria catalã, atribuiu a Creu de Sant Jordi, uma condecoração maior como reconhecimento ao seu contributo na difusão da cultura catalã. Agora, depois de o seu passamento ter passado quase ignorado ao tempo do falecimento no passado maio, é tempo de uma homenagem lisboeta, organizada pelo delegado do governo da Catalunha em Portugal, Ramon Fon, ao insigne português que amava a vida, o mundo … e Barcelona!

A sessão de homenagem decorre esta quarta-feira, 6 de setembro, na numa sessão na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada. Participam Ramon Font, delegado do Governo da Catalunha, o escritor Joaquim Murale, o poeta Fernando Pinto do Amaral, Pere Ferré, vice-reitor da Universidade do Algarve e Manuel Forcano, director do Institut Ramon Llull.