Crónica

A casa da minha amiga Teresa ardeu

Luís Barra

“Safei-me, mas a casa de Meruge foi com o fogo” — a frase ouvi-a esta segunda-feira às 9h58, quando atendi o telefone. Tinha a cabeça e o coração em Vouzela e Oliveira de Frades, e não fui capaz de ouvir a Teresa com a atenção que a amizade que nos liga exigia. Não fui capaz porque os meus dedos e o meu coração estavam ocupados a ligar sem parar para números de telefone que não funcionavam na zona de Vouzela e Oliveira de Frades.

Acordei com a rádio a falar nos mortos de Ventosa, uma aldeia próxima daquela de onde vem a metade materna dos meus genes. Os mortos dessa aldeia são pessoas que nunca conheci; mas essas pessoas passaram a fazer parte da minha família no momento em que ouvi falar na sua morte, porque foi o acaso, a sorte, e uma resistência estóica das populações da zona que protegeu a minha tia Zé, o meu tio Walter, a Luísa, a Lurdes, o Gil e toda a muita família que tenho na região.

A tia Zé tem 77 anos, vive sozinha na aldeia, e é uma das heroínas da minha infância; esta mulher valente festejou os 74 anos num hostel do Vietname, e está preparada para enfrentar quase todos os perigos do mundo. Todos menos o fogo que surge como um ataque terrorista: “Só fiz asneiras, devia ter ficado com a Guarda em vez de ter saído de carro a meio da noite com uns amigos e parentes, e termos ido a Ventosa buscar o pai do condutor”, disse esta manhã quando o telefone funcionou.

“Foram dezenas de fogos a começar quase ao mesmo tempo, separados por um tempo que parecia cronometrado, longe uns dos outros”, continuou: “É um círculo que começa longe e vai-se aproximando e fechando”. O relato da Teresa, que estava a muitos quilómetros de distância, no concelho de Oliveira de Hospital, tinha sido igual: um círculo de fogo.

Ao contrário de mim, que nasci e cresci na cidade, quem vive nas faldas destas serras conhece o fogo. Conheceu o fogo que noutros tempos vinha com as fagulhas do comboio do Vale do Vouga, conhece o fogo das queimadas mal feitas, dos raios, dos cigarros mal apagados. O fogo de 15 de outubro era outro fogo: um fogo de ameaça que parecia pensada.

Por ironia do destino, muitas das pessoas que vivem nestas aldeias são retornados que já recomeçaram a vida do zero uma vez, há mais de 40 anos, quando tinham outra idade, outra força e outra energia. Têm uma resistência estóica e é essa resistência que os fará ficar no lugar a que pertencem. Apesar das cinzas, do cheiro a fumo, da falta de luz, e das centenas de postos de trabalho que arderam com a destruição de várias áreas industriais como aconteceu em Oliveira de Frades.

E eu, que nasci e cresci na cidade, agradeço-lhes que plantem e semeiem para que o ar volte a ser respirável e todos juntos consigamos acabar com esta praga que chega pela mão do homem, seja de forma dolosa ou criminosa. Os tempos que aí vêm exigem a união de todos e um pacto de regime no combate, na prevenção, na defesa da vida das pessoas, animais e ambiente. O resto são conversas que só servem a quem lucra com a tragédia alheia.