Crónica

A rica vida de um refugiado (ou como é preciso ter dinheiro para fugir)

Campo de refugiados na Grécia

Louisa Gouliamaki/AFP/Getty Images

Conheci-o poucos dias antes de a primavera chegar. Uma chamada por FaceTime transportou-me para a clandestinidade dele. Os defeitos da imagem não me impediram de lhe detetar uns olhos mortiços, umas contraídas linhas de rosto, a impaciência dos gestos. E sobretudo o desespero.

A milhares de quilómetros, Aslam era então um proscrito, um acossado. Tinha perdido o trabalho em outubro de 2016. A mulher, assustada, abandonara-o, apesar de lhes ter nascido um filho apenas quatro meses antes. O pai, um professor da escola secundária, fora preso, e o tio fugira para a Alemanha, país onde pedira asilo político.

No seu quarto sombrio, Aslam fingia (sobretudo para si próprio) ler “A Náusea”, de Jean-Paul Sartre, atordoado pela rápida evolução dos acontecimentos desde que há anos assistira, na fronteira turco-síria, ao transporte de armas em camiões destinados às milícias jiadistas.

O ex-polícia de 29 anos, um dos cerca de nove mil efetivos que Erdogan terá condenado ao desemprego – no âmbito de uma purga muito mais vasta que afetou mais de 100 mil funcionários públicos –, tornara-se um fugitivo de um dia para o outro.

Fechado em casa de amigos, depois de ter sido procurado em três moradas diferentes, Aslam evitava fazer parte de outras histórias. Recusava-se a ser mais um a engrossar as fileiras de um exército que estaria a ser despejado, sem armas nem munições, junto à fronteira com a Síria ou um dos detidos e torturados nas prisões turcas, desde que Erdogan neutralizou o alegado golpe de estado a 15 de julho de 2016.

O isolamento de Aslam era quebrado apenas pelos contactos via FaceTime com o irmão, Berkay, a viver em Portugal.

Chegaram os primeiros dias de outono. Aslam está de novo sentado à minha frente, no mesmo café, no centro de Lisboa, onde nos conhecemos. Não há FaceTime. É como se ele tivesse saído de dentro de um daqueles telefones que temos sobre a mesa.

Entre a primavera e o outono, percorreu milhares de quilómetros. Primeiro, nas mãos das máfias. Depois, em autocarros, camiões, e até à ‘boleia’ de BlaBlaCar  (plataforma europeia que reúne pessoas que partilham viagens), sem nada para carregar a não ser um monte de papéis que agora tem sobre a mesa.

Contei-os. São 48 folhas. Foram agrafadas em três montinhos. Três processos judiciais que Aslam interpôs na Turquia para recuperar o seu posto de trabalho. O último foi dirigido ao Supremo Tribunal, que se limitou a responder que não havia razões para reabrir o processo.

Ao lado, estão os papéis do Serviço de Estrangeiros e Fronteira (SEF), prova de que iniciou o pedido de asilo político a Portugal e, da boca dele e do irmão, conta-se uma história que soma muitos euros e alguns segredos sobre a fuga que não querem partilhar publicamente.

Cinco mil e quatrocentos euros gastos entre máfias, turcas e gregas, dos quais mil e quatrocentos foram emprestados por outro refugiado que rumou à Alemanha. “Pouco...”, dizem, quando comparados com os dez mil euros que um amigo terá de pagar para trazer a mulher e o filho, e que, no final, com juros incluídos, chegarão aos dezassete mil. O dobro, portanto, porque as crianças choram e facilmente denunciam os refugiados e os passadores. E é por isso que as transportam sobretudo em barcos, onde mais dificilmente serão detetadas, adormecidas por umas boas colheres de Atarax.

Ao lado de Aslam continua Berkay, que agora já não tem medo de me dizer que há uns meses temia que o irmão se suicidasse, não fosse a família ter dinheiro para lhes proporcionar a fuga.

Berkay anda agora por Lisboa a mostrar-lhe as vistas, mas Aslam não se alegra. “Não é um turista”, acrescenta o irmão. Levou-o ao Arco da Rua Augusta, aos Pastéis de Belém, comprou-lhe roupas novas no Colombo.

As feridas da sarna que Aslam contraiu ao longo da viagem sararam, mas os olhos, que agora vejo serem verde-água, não brilham. Continuam mortiços, como se ainda não tivessem tido tempo de perceber que conquistaram a liberdade.