Cultura

Paddington regressa em boa hora

O urso mais acarinhado pelos britânicos volta para uma derradeira aventura

d.r.

Meses antes de morrer, em junho, Michael Bond publicou o 15.º e último livro original sobre o urso encontrado na estação de comboios de Paddington

Já há algum tempo que não recomendava um livro infantil, mas o vício está sempre cá, tanto graças à prole (que vai quase em quatro) como ao gosto nunca perdido pelos encantos deste género literário. Daí que a Estante de hoje siga em jeito de homenagem a um dos mais criativos e produtivos autores de literatura para crianças, recentemente desaparecido, e a uma das melhores personagens de sempre.

Michael Bond morreu a 27 de junho último, com 91 anos. Fica para a história como o criador do urso Paddington, cujo último livro de aventuras saiu em abril passado, com o título “Paddington’s Finest Hour” (A melhor hora de Paddington). Em tempos de nacionalismo e xenofobia, é quase comovente pensar no acolhimento caloroso que merece, há 59 anos, esta personagem vinda “das profundezas do Peru” e chegada, sabe-se lá como, à estação de comboios de Paddington, de onde o seu nome.

Foi em 1958 que os britânicos travaram conhecimento com “A Bear Called Paddington” [Um urso chamado Paddington], hoje omnipresente em papel (27 livros, entre 15 originais e subsequentes compilações), em peluche (mais de 25 milhões de exemplares vendidos) ou mesmo no grande ecrã. “Paddington 2”, com atores da craveira de Hugh Bonneville, Julie Walters, Imelda Staunton, Jim Broadbent, Sally Hawkins ou Hugh Grant, tem estreia marcada para novembro, depois do êxito da primeira adaptação em 2014.

Quando Bond morreu, a estátua de Paddington na estação ferroviária homónima foi palco de homenagens

Quando Bond morreu, a estátua de Paddington na estação ferroviária homónima foi palco de homenagens

Foto SIMEON

Enquanto esperamos, porque não folhear, tenhamos a idade que tivermos, a mais recente coletânea de contos do malogrado Bond? “O nosso imigrante ficcional mais adorado resiste a um hipnotizador em palco, redesenha as cadeiras de um vizinho e tem um encontro com a polícia”, desvenda a “New Statesman”, que incluiu a obra nas suas recomendações infanto-juvenis para este verão.

Numa entrevista dada por ocasião do lançamento do livro, Bond disse a esta revista londrina que para si Paddington era tão real como o pão com doce de laranja que a mulher lhe prepara e que é um dos alimentos favoritos quer do autor, quer da criação. Os traços de personalidade deste urso são baseados, aliás, em gente que existiu, nomeadamente o pai de Bond, Norman, a quem também foi buscar o característico chapéu.

Se a origem da personagem reside num gesto carinhoso (Bond comprou certa vez um urso de peluche para a mulher, o último de uma prateleira dos londrinos armazéns Selfridge’s), a situação frágil do imigrante recém-chegado inspira-se numa dura realidade: a dos deslocados e refugiados da Segunda Guerra Mundial.

Bond conta que ficava “terrivelmente triste” ao ver nos noticiários do cinema, em miúdo, “pessoas que empurravam carrinhos com todos os seus pertences por uma estrada rural” e que a sua família chegou a acolher. “Por favor tome conta deste urso. Obrigado”, diz uma etiqueta no casaco de Paddington. O tema é impressionantemente atual e máscaras do urso têm sido usadas em manifestações a favor do acolhimento de refugiados.

A segunda adaptação cinematográfica estreia em novembro

A segunda adaptação cinematográfica estreia em novembro

d.r.

Enquanto esperamos, porque não folhear, tenhamos a idade que tivermos, a mais recente coletânea de contos do malogrado Bond? “O nosso imigrante ficcional mais adorado resiste a um hipnotizador em palco, redesenha as cadeiras de um vizinho e tem um encontro com a polícia”, desvenda a “New Statesman”, que incluiu a obra nas suas recomendações infanto-juvenis para este verão.

Numa entrevista dada por ocasião do lançamento do livro, Bond disse a esta revista londrina que para si Paddington era tão real como o pão com doce de laranja que a mulher lhe prepara e que é um dos alimentos favoritos quer do autor, quer da criação. Os traços de personalidade deste urso são baseados, aliás, em gente que existiu, nomeadamente o pai de Bond, Norman, a quem também foi buscar o característico chapéu.

Se a origem da personagem reside num gesto carinhoso (Bond comprou certa vez um urso de peluche para a mulher, o último de uma prateleira dos londrinos armazéns Selfridge’s), a situação frágil do imigrante recém-chegado inspira-se numa dura realidade: a dos deslocados e refugiados da Segunda Guerra Mundial.

“Paddington’s Finest Hour”, Michael Bond (ilustrações de Peggy Fortnum e R.W. Alley, Editora: Harper Collins; Páginas: 144 páginas; Preço: £6,99 (7,72€) (Amazon)

“Paddington’s Finest Hour”, Michael Bond (ilustrações de Peggy Fortnum e R.W. Alley, Editora: Harper Collins; Páginas: 144 páginas; Preço: £6,99 (7,72€) (Amazon)

Bond conta que ficava “terrivelmente triste” ao ver nos noticiários do cinema, em miúdo, “pessoas que empurravam carrinhos com todos os seus pertences por uma estrada rural” e que a sua família chegou a acolher. “Por favor tome conta deste urso. Obrigado”, diz uma etiqueta no casaco de Paddington. O tema é impressionantemente atual e máscaras do urso têm sido usadas em manifestações a favor do acolhimento de refugiados.

“Acho que provavelmente não são tão bem tratados como deviam”, dizia o escritor em abril. Talvez em sinal de integração, o urso peruano é, afinal, aflitivamente inglês nas suas idiossincrasias e foi, inclusive, o primeiro objeto passado através do túnel construído sob o Canal da Mancha.

Isso foi há mais de 20 anos. Agora, Paddington regressa num livro com sete contos que o “Financial Times” considera “um deleite” e que é ilustrado por R.W. Alley, autor dos desenhos da série desde 1997. Antecederam-no Peggy Fortnum, Ivor Wood, Fred Banbery, David McKee e Barry Macey, que o urso é longevo.

Se há quem considere a personagem algo datada (as referências são do pós-guerra), é suficientemente moderno para participar num concurso culinário televisivo, tão na moda entre nós, sem perder a ingenuidade geradora dos mal-entendidos permanentes que tanta gargalhada suscitam. Vou mandar vir um exemplar para as minhas filhas, amigas de Paddington. Mas cheira-me que não vou resistir a lê-lo antes delas…