Cultura

Fogo de artifício austríaco na abertura de novo ano da Casa da Música

A Casa da Música terá pela segunda vez, a partir desta sexta-feira e até final do ano, a Áustria como país-tema

Lucília Monteiro

No regresso à Áustria como país-tema, 2018 será, a partir desta noite, um imperdível ano de viagem ao universo de algumas das melhores obras e dos melhores compositores de sempre do mundo ocidental

Um pequeno país capaz de apresentar no seu histórico um leque de compositores tão variado, tão rico e tão poderoso, seja pela qualidade, seja pelos novos caminhos rasgados no mundo da música, como Mozart, Haydn, Shcubert, Bruckner, Mahler, Shoenberg, Franz Schreker, Weber ou o contemporâneo e muito aclamado Friedrich Haas, não é apenas um país. É uma constelação capaz de enfeitiçar o mais empedernido ouvido.

Para os melómanos, o Ano Áustria será uma verdadeira peregrinação ao paraíso. Com abertura oficial marcada para as 21h desta sexta-feira, na Sala Suggia da Casa da Música, o programa é preenchido com a interpretação da Sinfonia n.º 7 de Anton Bruckner pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida por um dos grandes maestros da atualidade, o também violoncelista alemão Michael Sanderling (50 anos).

Compositor tardio, Bruckner um dos grandes organistas do seu tempo, já completara 40 anos quando compôs a sua primeira sinfonia. A sétima, que inaugura esta noite a interpretação da integral das nove sinfonias do compositor, é considerada por muitos especialistas a sua grande obra-prima. Após um início em “Alegro moderato”, prossegue com um “Adagio” marcado por uma indizível tristeza. Escrito quando Bruckner soube da morte de Wagner, terá de ser lido, ou ouvido, como um dos mais sensíveis e extraordinários elogios fúnebres musicais alguma vez concebidos.

Esta primeira fase do Ano Áustria é preenchida por sete dias de concertos, com cinco dias de casa aberta. É um momento sempre com grande recetividade do público, que tem assim a oportunidade de conhecer de outra forma espaços da Casa nem sempre acessíveis.

Um outro Mozart

Se Bruckner terá a integral das sinfonias, Mozart terá a integral dos seus cinco concertos para violino e orquestra. O contraste não podia ser maior. Por oposição a Bruckner, Mozart, o genial Mozart, começou muito cedo a espantar a Europa com as suas composições. De tal ordem que não tinha ainda 20 anos e já possuía no seu alforge os cinco concertos para violino e orquestra. Não por acaso, os dois primeiros têm uma estrutura conceptual mais ligada à tradição barroca. Razão pela qual será a Orquestra Barroca da Casa da Música a inaugurar esta integral no próximo dia 21, às 18h. Sob a direção de Paul McCreesh, e com o britânico Huw Daniel no violino, o programa reúne ainda o Coro Casa da Música na interpretação de outras obras de Mozart, bem como a Sinfonia n.º 49 de Haydn.

Schubert, tido como o grande mestre do “Lied” romântico, é outro dos grandes nomes escolhidos para a abertura do Ano Áustria. No próximo domingo será apresentado o ciclo de canções “A Viagem de Inverno”, escrito originalmente para a voz de tenor e composto por 24 canções. A interpretação será de João Terleira, com Luís Duarte ao piano.

Num fim de semana recheado de propostas, este sábado, a partir das 18h, a Sala Suggia recebe o programa “Ecos de Viena”. Dirigido por Paul Hiller, o Coro da Casa da Música apresenta uma seleção de grandes canções corais compostas por Schubert, Bruckner e duas referências da segunda escola de Viena, como o são Arnold Schoenberg e Anton Webern.

Destaque, ainda este mês, para “uma das primeiras grandes obras-primas do século XXI”, como a classificou o maestro Simon Ratle. Referia-se a “In Vain”, de George Friedrerich Haas, este ano compositor residente da Casa da Música, que será apresentada pelo Remix, em estreia nacional, no dia 20.

Um inquérito promovido pela revista “Classic Voice” junto de 100 personalidades ligadas à música europeia considerou Haas o melhor compositor em atividade. “In Vain surge como resposta ao surgimento na Áustria do Partido da Liberdade, de extrema-direita, e confirma o compositor como uma voz capaz de assumir uma crítica acutilante à estranha aliança que atualmente partilha o poder no seu país. A Sinfónica interpretará no dia anterior “Dark Dreams”. Seguem-se outras obras e, ao longo do ano, dois seminários para estudantes de composição.

Os diferentes ciclos incluídos na programação da Casa da Música preveem a possibilidade de compra de assinaturas que asseguram, a preços mais acessíveis, a garantia de lugar em todos os concertos incluídos na série.

A agenda detalhada com toda a programação da Casa da Música para 2018, em todas as áreas musicais e serviço educativo, pode ser consultada aqui.