Cultura

Conhece a BNL?

A partir do seu gosto por romances policiais, Mónica Garnel encena uma peça cujo alcance é a própria vida

Os alegres convidados da “Swimming Pool Party”

Os alegres convidados da “Swimming Pool Party”

FOTO Vitorino Coragem

Mas o que é a BNL? A Biblioteca Nacional da Lituânia? Nada disso. O Bloco da Nova Liberdade? Ainda menos. “É o mesmo que a Bossa Nova Normal, mas normalmente em inglês… e com uma pitada de eletrónico”; é Bossa Nova Lounge! Ah, as festas na piscina, aquilo que se aprende se estivermos de ouvidos atentos, coração aberto e mente recetiva! “Swimming Pool Party”, SPP; voilà; eis!

Passam-se geralmente no verão, estas parties são ao ar livre. As pessoas conversam, as pessoas tomam banho, as pessoas bebem, dormem, convivem, vivem, enfim. Basta atentar nos verbos e expressões utilizados logo no início, na apresentação, para termos uma ideia do mundo com que estamos a lidar: viver (ao máximo), fazer (tudo), partir, voar, beber, nadar (entre predadores), curtir; tocar no cume, chegar mais alto, olhar para baixo (claro!); fechar negócios, agendar partidas, acertar (em tudo). O tempo é diferente, também, trata-se de viver “dois dias de cada vez”, pois “não há tempo a perder” — nestes meios só se ganha, aliás.

E quem são eles? Judi, anfitriã, cheia de graça e leve sabedoria. “Traquinas. Pirulito. Banda-gástrica. Que deleite de vocábulos”, exclama ela, com refinamento e fluência; “uma mulher quando chega a uma certa idade sente que já não tem nada a perder”, diz com cintilante experiência, enquanto recebe e distribui sorrisos. Eduardo, outro anfitrião, é por vezes mais prosaico, “o que seria das nossas parties se os nossos convidados não fossem gente culta?”, pergunta com arriscada candura; mas enumera com pertinência as vantagens dos cães sobre os elefantes. Lavínia, uma das mais bombásticas convidadas, surpreende sempre: as pinturas do Renascimento são um dos seus fracos, “já viram como caem os tecidos às virgens?”, interroga com argúcia, antes de largar um “a minha mãe era costureira” que deixa os outros convidados de cara à banda. E o Embaixador? O encanto dos negócios estrangeiros e o savoir-faire da diplomacia não chegam para caracterizar tão fina personagem — “imagina o preço daqueles pomares de caxemira em Caxemira?”, pergunta ele, antes de se lançar na história apaixonante do ferrolho de madeira, desde o Egito das Pirâmides. Existem ainda um Alex, uma Emily, uma Enfermeira e uma Maria de Lourdes, mas o espaço (aqui) não chega para a exuberância dos pormenores.

“The Swimming Pool Party” é um projeto de Mónica Garnel, que encena também o espetáculo, e que começa por vir do seu gosto por romances e histórias policiais. Agatha Christie é uma das suas favoritas, claro, e o romance “Anúncio de um Crime” foi outra fonte de inspiração: as personagens leem num jornal que devem dirigir-se a um certo local, pelas 18h30, pois aí irá cometer-se um crime. Assim fazem, e essa estratégia de comunicação pareceu ideal a Mónica Garnel para organizar um espetáculo onde o público poderá assistir, também, a um crime. Numa feliz conjunção de sensibilidades, também Ricardo Neves-Neves partilhou do entusiasmo pela ideia, e escreveu um texto onde não faltam os ‘onde’, ‘como’, ‘quando’, ‘quem’ e ‘porquê?’ de todo o policial que se preza. Mais o humor e o ambiente de festa, na história e, quiçá, mesmo fora dela.

A interpretação é de Monica Calle, Mónica Garnel, Álvaro Correia, Rute Cardoso, Inês Vaz, Tiago Vieira, Ana Água e José Miguel Vitorino. A música e sonoplastia são de Sofia Vitória. E, como diria a incontornável Judi: “o chantilly nunca desilude”.