Cultura

Luís Sequeira: “Estar nomeado é simplesmente surreal”

Todd Korol/Toronto Star via Getty Images

O lusodescendente está na corrida ao Óscar de Melhor Guarda-Roupa por “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro. A inspiração para cada trabalho vem do guião, mas não esquece a influência da mãe na sua vida e na sua carreira

Como recebeu a notícia de que estava nomeado para um Óscar por “A Forma da Água”?
Tinha trabalhado até muito tarde na noite anterior, então fui para a cama com a certeza de que não iria acordar cedo para ver em direto. Logo via quando acordasse, pensei, mas acabou por não acontecer assim. O meu telefone começou a vibrar sem parar, com mensagens e e-mails enquanto dormia. Foi aí que liguei a televisão e vi que estava realmente nomeado.

Qual é a sensação de se ver o trabalho reconhecido desta maneira pela Academia? Ganhar o Óscar é um sonho?
Estou muito emocionado por ser distinguido pela Academia. Sempre me dediquei ao meu trabalho com muito amor. Claro que desejava um dia ser reconhecido com uma indicação, mas estar nomeado é simplesmente surreal.

Já desenhou o guarda-roupa de filmes como “Carrie” ou “A Coisa”, mas foi na série “The Strain” que se cruzou com Guillermo del Toro. Foi aí que surgiram os primeiros contactos para “A Forma da Água”?
Na verdade, o primeiro projeto em que eu e o Guillermo trabalhámos juntos foi em “Mamã”, realizado pelo incrível Andrès Muschietti, de “It”. O Guillermo era produtor-executivo do filme e foi a partir daí que fui convidado para a série “The Strain” (FOX), da qual ele realizou o episódio-piloto e onde voltou a ser produtor-executivo. Fiz três temporadas da série e foi perto do final da terceira que o Guillermo me sondou, dizendo que queria que eu fizesse o seu próximo filme. Lembro-me tão bem desse dia, de como fiquei felicíssimo com o convite.

Como é que se preparou para criar o guarda-roupa do filme?
Como este filme se passa nos anos 60, houve muita pesquisa com referências de imagens e tecidos. Assisti a vários filmes feitos nesse tempo e também comprei roupas e acessórios de época, que tinham pormenores interessantes e únicos e que também serviram de inspiração.

Pelo que sei, a ideia inicial de “A Forma da Água” era um pouco diferente. O que fez Del Toro abandonar a ideia de um filme a preto e branco? Essa decisão influenciou muito o seu trabalho?
O preto e branco era o conceito original. No entanto, e tal como o Guillermo já mencionou, ele falou com os responsáveis pelos estúdios [da Fox Searchlight] e eles disseram que se filmasse a cores lhe dariam mais 3,5 milhões [de dólares] para a produção e então ele decidiu filmar a cores. Embora o preto e branco fosse muito interessante e desafiador, agora que o projeto está completo não consigo imaginá-lo sem cor, algo que é tão importante para a imagem deste filme.

O que é que “A Forma da Água” teve de diferente perante outros projetos?
Criar o mundo de “A Forma da Água” foi muito desafiador. Por causa da natureza do roteiro tive de construir muitos elementos para o nosso elenco principal. Para os homens criámos uniformes, fatos, camisas, gravatas, sobretudos, chapéus e sapatos, e para as mulheres uniformes, sutiãs e roupa interior, mas também vestidos, roupa de dormir, casacos, sapatos e todo tipo de acessórios. Depois tivemos de envelhecer as peças, dando um ar de desgaste a quase tudo e em alguns casos tivemos de fazer mais de 12 exemplares [de cada modelo]. Tudo isto com um orçamento apertado.

Onde vai buscar a inspiração para cada novo trabalho?
A minha inspiração começa sempre com o argumento. Ao lê-lo, começo também a imaginar as personagens com a roupa, o ambiente e o arco da narrativa. Um bom guião é aquele em que estas ideias começam a fluir de um modo incontrolável. Se isso acontecer, fico com a certeza de que tenho de fazer parte dele. Foi este o caso.

Já está a criar o guarda-roupa para algum novo projeto?
Estou a trabalhar num filme para a Netflix com a 1492 Pictures, intitulado “12/24”. É um filme de Natal, com o Kurt Russell como Pai Natal. É divertido e diferente de “A Forma da Água”… É sempre bom manteres a variedade de géneros no teu trabalho.

Qual a influência da sua mãe, e dos vestidos de noiva que criava, na carreira que o Luís construiu?
Dizer que a carreira dela não me influenciou seria mentira, uma vez que as minhas primeiras lembranças são de estar a brincar com os pés enquanto a minha mãe pedalava na sua velha máquina de costura. Depois, um pouco mais tarde, comecei a mexer nas caixas de contas e misturava tudo. Não era muito útil. A minha mãe teve uma grande influência em mim e admiro-a muito. Uma mãe solteira da década de 60, a viver sozinha num país estrangeiro, a criar-me sozinha. Sempre foi uma mulher valente e honrada.

Quando é que percebeu que o seu lugar não era na moda mas sim no entretenimento?
Entrei na indústria da moda pelo glamour, mas rapidamente aprendi que estava num mundo em que havia muito pouco glamour. Foi um tempo árduo e solitário para um jovem designer de moda em início de carreira. Alcançar o êxito no Canadá é altamente improvável. Depois de cerca de seis anos, abandonei a moda e comecei a trabalhar em cinema e na televisão. Sempre gostei do cinema e do conceito de ter uma página de um guião e criar um mundo, um tempo e um lugar a partir do nada. Aqui juntam-se todos os talentos e funcionamos como uma família, que compartilha a alegria do esforço de todos. Quando [o trabalho] está pronto, é tudo mandado abaixo e ficamos com o filme ou com a série como prova do que fizemos. Para mim, isso é muito mais interessante do que a moda.

Ao olhar para trás, sente que fez a escolha certa?
Sem dúvida alguma. Não podia estar mais feliz com a decisão que tomei. Nunca olhei para trás com qualquer tipo de arrependimento.