Cultura

As pessoas mais ou menos

Twentieth Century Fox Film Corporation

O que é que fica depois da perda que não se sabe quem a causou? O vazio. O ódio. A culpa

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

Todos nós vivemos com o peso do que perdemos ou ganhámos e “Três Cartazes à Beira da Estrada” fala sobre o que fica depois das perdas. Embora possa parecer o contrário, aqui não há espaço para os bons e os vilões e isso lembra-me o que uma vez me disseram numa saída à noite e que não tornei a esquecer: não existem pessoas boas nem más, só as mais ou menos. E este filme conta a história dessas pessoas, as que lutam e tentam tornar o mundo um bocadinho melhor, mesmo que isso signifique fazer o mais errado.

E aqui cabe Mildred Hayes, interpretada pela fantástica Frances McDormand - que ganhou o globo de ouro de melhor atriz por este filme e que está nomeada para o óscar de melhor atriz-, uma das mulheres mais fortes que já vimos em filmes deste género. Ela é a mãe de Robbie e Angela Hayes, que morreu numa noite em que regressava a casa sozinha. Foi violada, espancada e queimada viva. Mildred está revoltada, amargurada. Desconsolada por nada se fazer devido à incompetência da polícia, que “está mais empenhada em torturar negros”. Ela, que personifica na perfeição a tão conhecida Rosie the Riveter, o símbolo do feminismo nos anos 50 nos EUA, com o seu lenço na cabeça e o fato azul com que anda sempre vestido, vai mostrar a todos o motivo dessa revolta com a sua força inquebrável.

Twentieth Century Fox Film Corporation

Mildred é a pessoa que usa um tom de comédia e ironia para mascarar a dor - há uma cena em que ela tenta fazer as pazes com o filho e atira-lhe cereais para o rosto e este responde: “sua cabra velha”. “Eu não sou velha, Robbie”, ouvimo-la. E aqui entendemos a intenção dela com o sarcasmo que emprega. Mildred é aquela pessoa que bate em miúdos porque atiram sumo para o carro dela. Que desafia todos. Que tem no olhar a tristeza de quem perdeu o mundo. Que se culpa pela morte da filha - e aqui há um flashback comovente que nos explica o porquê: no dia em que morreu, Mildred obrigou-a a ir a uma festa a pé e a filha disse-lhe que, como castigo, era “bem feito se fosse violada”, ao qual Mildred responde: “Espero que sejas violada”.

Estas mortes precisam de um culpado

Ao longo do filme vamos adotar os amores e os ódios de Mildred porque vamos entrar na pele dela. Ela precisa de lutar e é por isso que a protagonista vai relembrar o que ninguém pode esquecer numa rua da cidade com três cartazes com letras garrafais pretas num vermelho garrido que dizem: “assassinada enquanto era violada”, “e nenhuma detenção?”, “como assim, chefe Willoughby?”. Passaram sete meses e ainda não existe um suspeito para a morte da filha. Mas estas mortes precisam sempre de um culpado.

E é aqui que percebemos que Ebbing, no Missouri, é uma cidade onde a justiça não existe porque a polícia abusa do poder para próprio benefício. Vamos perceber que o realizador Martin McDonagh pinta uma América rural - e aqui sentimos que entramos no universo dos irmãos Coen, em que tudo acontece e tudo se faz sem consequências e que existem temas sociais que causam fraturas, como racismo, homofobia, violência doméstica. É um filme - nomeado para sete óscares - que se inspira na vida e que não tenta mostrar quem é bom ou mau mas sim o que acontece a uma comunidade quando três cartazes que acusam a polícia são colocados na rua.

Foto: Twentieth Century Fox Film Corporation

A ideia, contou o realizador, nasceu-lhe “há 17 anos, durante uma viagem de autocarro entre os estados de Georgia, Florida e Alabama”, em que viu cartazes a pedirem justiça. Os protagonistas, a narrativa e o resto chegaram com o tempo.

A vida, tal como ela é

Neste sítio, no sul, que parece ter as próprias leis, a polícia é defendida pelos habitantes, que estão contra Mildred em relação aos cartazes. Ela está sozinha e sabe disso mas não desiste. Nem quando o polícia Dixon - interpretado por Sam Rockwell, vencedor de um globo de ouro pela sua perfomance nesta filme - tenta demovê-la ao atacar os mais próximos dela. Mas este polícia, “menino da mãmã”, “bêbedo homofóbico” e “xenófobo”, que goza com o “anão” do filme - que é protagonizado por Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de “Guerra dos Tronos” -, vai comover-nos depois de acharmos que é o grande vilão, porque vai haver uma carta que o vai mudar - não passa a ser bom, apenas diferente.

Haveremos depois de nos emocionar com o chefe da polícia, Willoughby, interpretado pelo inconfundível Woody Harrelson, que nos aparece como um vilão e que nos comove depois com a sua decadência: Mildred está a ser interrogada por Willoughby e ambos atiram acusações um ao outro; no momento em que o polícia se prepara para fazer um ultimato a Mildred, tosse sangue para o rosto dela - ele tem cancro no pâncreas em fase terminal, restam-lhes poucos meses de vida, e aqui há embaraço, comoção, vergonha e compaixão, porque deixam de ser rivais para serem, antes de mais, as tais pessoas mais ou menos. “Eu tossi sangue, Mildred”, diz-lhe, assustado. “Eu sei, amor. Vou ajudar-te”, responde, como se nunca tivessem discutido.

  • É sobre todas nós

    O texto que há de ler pode resumir-se assim: “Não conheço uma única mulher que não tenha a mais complicada, louca e bonita relação com a mãe”