Cultura

Bernardo Pinto de Almeida: "Pomar foi o grande pintor do corpo no século XX português"

Para o crítico e historiador de arte Bernardo Pinto de Almeida, autor de uma recente e monumental obra intitulada “Arte Portuguesa no Século XX”, Júlio Pomar é “o grande pintor do corpo”

Isso, prossegue, “dá-lhe uma estatura muito alta, porque não temos uma pintura dos corpos. No Almada são silhuetas. O Júlio Resende por vezes tem uma presença corporal forte, mas há sempre uma certa neblina sobre as figuras”.

De resto, acentua Bernardo Pinto de Almeida, “na pintura portuguesa do século XX os corpos são sempre figuras tímidas, ou apagadas, ou tristes. São corpos que têm a ver com uma certa opressão que o país sofreu pelo século fora, com o fascismo”. Pelo contrário, em Pomar “há a coragem de mostrar o corpo tal como ele é. Com as suas vicissitudes. Com as suas asperezas, com a sua violência física. Ninguém até ele tinha pintado os corpos das mulheres como nos quadros eróticos dos anos sessenta. Nem o Eduardo Viana foi tão longe”.

Por variadas razões, o crítico e historiador considera Júlio Pomar “um artista incontornável para compreender a história da arte portuguesa a partir do momento em que aparece, na década de quarenta”. Para se justificar, apresenta três razões principais. A primeira resulta do facto de se tratar do “único artista ligado ao neorrealismo que realmente tinha tamanho suficiente para dar uma grandeza qualquer ao movimento em Portugal, que em geral foi fraco”.

Depois, “porque foi um pensador e teórico da arte e das relações entre arte e política, por discutíveis que possam ser as posições e por discordâncias que possa haver”. Por fim, “porque, rompeu com a gramática neorrealista, enveredou por uma carreira singular, afastado de grupos, onde realizou alguma obra da maior importância a partir da década de sessenta, e por aí fora, ajudando a preparar a transformação profunda da arte portuguesa nessa década”.

O homem que foi sempre um pintor figurativo e nada quis com a abstração provoca uma grande volta na sua pintura a partir dos anos de 1960, “quando abandona qualquer compromisso formal ou ideológico com o neorrealismo. Faz, com uma leveza extraordinária e surpreendente, uma pintura que trouxe uma grande novidade à pintura portuguesa, como acontece nas séries “Corridas de cavalos”, ou do “Rugby””.

Ao reafirmar que “nenhum artista na mesma geração da arte portuguesa soube tratar o corpo com a inteligência que Pomar teve”, Bernardo Pinto de Almeida refere o facto de ter tido “uma grande inteligência do que são os corpos em movimento”. Depois, naquela que é a série favorita do crítico, a erótica, aparecem “uns quadros únicos na arte portuguesa. Ninguém tinha tido a coragem de fazer aquilo. Por os corpos completamente à vista, despudoradamente”.