Cultura

“Pomar já estava muito frágil, mas estava com um ar tão doce...”

Num depoimento emocionado, a pintora Graça Morais recorda a última vez que jantou em casa de Júlio Pomar e evoca o exemplo de um homem sempre inconformado com a sua própria obra e em luta contra as regras, por ser um rebelde

Graça Morais atende-nos o telefone ainda sob grande emoção e uma enorme tensão. Tinha estado a recusar prestar qualquer depoimento, por não conseguir segurar as lágrimas. Era amiga de casa de Júlio Pomar. Com o seu marido, Pedro, jantava por vezes com Pomar e sua mulher, Teresa. Recorda o último desses jantares com a voz embargada. O pintor já estava muito frágil, mas, diz, “estava com um ar tão doce...”

Ainda tem dificuldade em acreditar que Júlio já não está entre nós. Consola-a a ideia de que fica a obra. O que sente como artista é que “Pomar é um grande exemplo. Sempre convivi muito de perto com ele. Conheci-o nos anos de 1980 quando expunha na Galeria 111, que era a galeria dele, da Paula Rego, da Menez, do António da Costa. Tive o privilégio de conviver com todos”.

Sublinha a circunstância de se tratar de um pintor “que quando reconhecia valor noutro artista, apoiava-o. Para mim foi sempre um exemplo como artista. Além de ter um enorme talento, é o grande pintor do século XX” .

Pomar, é sabido, falava pouco. Porém, salienta Graça Morais, “pensava muito no que dizia. Às vezes falava com muito humor. Com uma inteligência extraordinária. Era muito culto. Sempre atento a tudo o que se passava no mundo e sempre insatisfeito com a sua arte”.

Toda a obra de Pomar, se for bem observada, bem estudada, é, constata a pintora, “a de uma pessoa insatisfeita, que nunca cede à facilidade. Quando íamos lá jantar a casa, e ele, já com 90 anos, tinha estado todo o dia a pintar, perguntava-lhe como é que ainda tinha força para às sete da manhã já estar no ateliê. Era um exemplo de trabalho. Vivia simplesmente dedicado à sua arte”.

Evoca-o como “um grande desenhador”, que “deixa ao mundo, mas sobretudo ao nosso país, um legado importantíssimo. O Júlio teve fases muito diferentes ao longo da sua vida. O desenho era sempre uma constante. Uma foça. Tenho aqui dois desenhos em minha casa, estou a olhar para eles, e são muito diferentes. Nunca se repetia”.

Se os desenhos a fascinam, Graça Morais não esquece a pintura e fala em particular “da fase em que fez grandes telas no Brasil, sobre os índios, que são de uma força extraordinária. Mas também a fase mais abstrata, as colagens”. Por tudo isso, é uma referencia para os artistas, “e uma referencia para o nosso país como cidadão. Foi um homem que enfrentou a política com uma grande coragem e uma grande coerência”.

Visto como alguém “ muito especial, de muita qualidade”, Graça Morais sublinha a importância do casal constituído por Júlio e Teresa. “São pessoas que quando estamos junto deles enriquecemo-nos sempre. Aprendemos sempre. Apesar de Pomar lutar contra as regras. Era um rebelde. Não era uma pessoa muito bem comportada, como se costuma dizer”.

Agora, no momento da partida, a pintora reconhece sermos “herdeiros de uma grande obra. Temos que ver, visitar e revisitar. No nosso país as televisões e a imprensa falam demasiado de futebol e de escândalos, e as obras que são extraordinárias, feitas numa grande solidão, mas também num grande reconhecimento”, permanecem esquecidas.

Graça Morais não conclui sem acentuar a importância da decisão da “Câmara de Lisboa, que construiu aquele ateliê-museu que é um exemplo de coerência e trabalho na relação dele com os mais jovens ou até com artistas da minha idade”.