Cultura

Robert de Niro recebeu uma ovação nos Tony. E só precisou de dizer uma frase

Kevin Mazur/Getty

Numa noite marcada por algumas vitórias inesperadas, como a do musical “The Band's Visit”, que apesar de não ser uma grande produção recebeu dez das onze estatuetas, foi Robert De Niro que agarrou as manchetes lançando um enervado “Fuck Trump” para a audiência que o aplaudiu de pé

Ana França

Ana França

Jornalista

Uma vez “raging bull” (touro indomável), para sempre “raging bull”. Robert De Niro está naquele ponto em que já não tem que se calar, nem pensar no que diz. Vivem-se dias em que não há palco para onde subam artistas para receber prémios que não se torne um púlpito contra Donald Trump.

O Presidente dos Estados Unidos não é querido no mundo das artes, seja pela sua postura contra a aceitação de imigrantes e refugiados, seja pela forma como trata os jornalistas, seja pelo seu legado duvidoso - ou nada duvidoso - no que diz respeito ao (des)respeito pelas mulheres.

Mas no domingo à noite, durante a entrega dos prémios Tony, os mais importantes do mundo do teatro, Robert De Niro subiu ao palco e não fez um grande discurso, não elencou os tropeções diplomáticos do Presidente, não chamou à atenção para a situação dos milhares de jovens que chegaram aos Estados Unidos com os seus pais ilegalmente, sem disso terem consciência e que correm o risco de serem deportados. Não falou mas de certo pensou porque do peito explodiu-lhe um “Que se foda o Trump!”.

A cadeia televisiva CBS exerceu os seus poderes de censura de palavrões e, em casa, não se conseguiu ouvir o que Robert de Niro disse. Esta segunda-feira, contudo, já está em todo o lado. Ao crescendo de palmas e berros de apoio - “Yeah!” - vindos da audiência seguiu-se uma ovação de pé às palavras de De Niro. De punhos cerrados e em riste, De Niro insistiu: “É que não é abaixo Trump, é mesmo que se foda Trump!”

De Niro estava em palco para apresentar a atuação de um outro boss, Springsteen, a quem pediu isto: “Bruce, tu abalas públicos como ninguém. E mais importante ainda nestes tempos perigosos, é que abales o voto. Sempre a lutar, usando as tuas próprias palavras, pela verdade, transparência, integridade na governação. E bem precisamos disso agora”.

Mas esta também foi uma noite especial para a equipa por trás de “The Band’s Visit”, o musical de David Yazbek inspirado no filme homónimo de 2017, realizado por Eran Kolirin. A peça conta a história da orquestra da polícia egípcia retida em Israel, numa cidade onde só há um restaurante, e das pessoas que os acolhem e nunca foi uma grande produção tendo apenas passado para um teatro da Broadway já este ano. Também premiado foi “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, com guião de Jack Thorne baseado na história original de J.K. Rowling, e “Anjos na América”, um relato pungente sobre a epidemia da SIDA na Nova Iorque dos anos 80.

Andrew Garfield levou para casa a estatueta de melhor ator pelo seu papel na peça mas não saiu do palco sem deixar mais um recado a Trump. “Vivemos num momento político em que a comunidade LGBTQ teve que voltar a lutar pelos seus direitos com mais intensidade do que nos últimos 25 anos, desde a crise da SIDA”, disse Garfield que classificou a sua obra como “uma antítese” à governação de Trump.

Logo a seguir, a actriz Glenda Jackson recebeu o Tony pelo seu papel em “Three Tall Women”. Agradeceu aos atores negros o seu contributo para o teatro e sublinhou que “a América é sempre grande” e que “não faz falta alguém que lhe queira devolver um esplendor que sempre teve”.

A cerimónia ficou ainda marcada pelo discurso do ator de origem árabe Arie’el Stachel, que recebeu o Tony para melhor ator em “The Band’s Visit”, onde reconheceu as suas origens mas admitiu que nem sempre o tinha feito. “Os meus pais estão aqui esta noite e eu tenho evitado ir com eles a muitos eventos porque tentei não ser reconhecido como alguém do Médio Oriente. O pós-11 de Setembro foi muito difícil para mim, escondi-me e perdi imensos eventos com eles”, disse Stachel.

Dois anos depois do tiroteio em Orlando ter sido assinalado nos Tony, desta vez foi palco para as vítimas de Parkland mostrarem a sua revolta - mais uma vez com Trump no olho do furacão por continuar a recusar falar de uma lei mais controlada para o acesso às armas. Alguns alunos da escola interpretaram “Seasons of Love” do musical “Rent”.