Cinema

Cinema português quatro vezes no palmarés de Locarno

A realizadora romena Cristina Hanes

Sailas Vanetti/Locarno Festival

O realizador chinês Wang Bing venceu este sábado à tarde com “Mrs. Fang” a 70ª edição do Festival de Locarno, que chamou o cinema português quatro vezes ao palmarés. O documentário “António e Catarina”, da romena Cristina Hanes, produção portuguesa da Terratreme rodada no nosso país, é o novo Pardino d'Oro para melhor curta-metragem

A realizadora romena Cristina Hanes, de 26 anos, venceu este sábado em Locarno o prémio máximo atribuído às curtas-metragens com “António e Catarina”, documentário em torno do encontro e da troca de ideias entre uma jovem mulher (que a cineasta interpreta sob outro nome) e um homem 45 anos mais velho do que ela: no fundo, esta é a história da construção de uma relação humana que o filme decide partilhar connosco. Produzido pela Terratreme, o filme de 40 minutos foi realizado ao longo de três anos no âmbito de um mestrado do programa transeuropeu DocNomads e nasceu do encontro acidental em Lisboa entre a realizadora e Augusto Martinho, um transmontano de 70 anos, homem misterioso, e que assumiu o nome de António no filme. Falam ambos da vida e da morte, do amor e do desejo, testam intimidades e distâncias apesar da idade, da língua e das experiências de vida que os separam.

Cristina Hanes volta a trazer para o cinema português um Leopardo de Ouro sete anos depois da vitória de Gabriel Abrantes em Locarno (com “A History of Mutual Respect”, de 2010), e poucos meses após o triunfo de “Cidade Pequena”, de Diogo Costa Amarante, em Berlim, onde conquistou um Urso de Ouro para a mesma categoria. É o segundo ano consecutivo que o cinema português sai premiado da Suiça depois do prémio a João Pedro Rodrigues no ano passado, por “O Ornitólogo”.

O realizador francês F. J. Ossang

O realizador francês F. J. Ossang

Portugal esteve também representado nos prémios deste ano por F. J. Ossang, vencedor do Leopardo de Melhor Realização: a nova obra do francês, “9 Doigts”, é uma co-produção portuguesa (com uma participação minoritária da O Som e a Fúria) e foi parcialmente rodada nos Açores.

O realizador português Pedro Cabeleira

O realizador português Pedro Cabeleira

Pedro Cabeleira, o autor de “Verão Danado”, não foi esquecido pelo júri da secção Cineastas do Presente, que atribuiu ao filme uma menção especial. “Milla”, segunda longa-metragem da francesa Valérie Massadian (com pós-produção da Terratreme concluída em Lisboa), recebeu o Prémio Especial do Júri da mesma secção. E também “Era Uma Vez Brasília”, de Adirley Queirós, outro filme coproduzido pela Terratreme, recebeu (sexta-feira) uma menção especial do júri da secção Signs of Life. O vencedor desta foi “Cocote”, de Nelson Carlo de Los Santos Arias, um dos filmes destacados este sábado na Revista do Expresso.

O filme "Mrs. Fang", de Wang Bing

O filme "Mrs. Fang", de Wang Bing

WANG BING DE OURO

“Mrs. Fang”, novo documentário de Wang Bing e Leopardo de Ouro desta 70ª. edição, também é um filme de intimidades e distâncias. O realizador chinês, que está neste momento a ultimar um grande projecto no qual trabalha há 12 anos sobre um período histórico do seu país (estará pronto em 2018, e Bing já afirmou que terá nove horas de duração), conheceu por acaso, em 2014, a filha de uma camponesa da região de Zhejiang durante as suas pesquisas.

O brilho dos olhos da senhora Fang, doente de Alzheimer, impressionou-o. Bing decidiu fazer um filme com ela, mas só em 2016 voltou a visitá-la, já muito debilitada, poucos dias antes da sua morte. “Mrs. Fang” fixa o fim dessa matriarca, rodeada pela sua numerosa família. É um filme em que a morte se contempla, sem dramas nem subterfúgios, como uma etapa mais da vida.

Paralelamente, a câmara segue a atividade de alguns familiares da senhora, em particular a delirante pesca com canas eletrificadas a que alguns se dedicam no local, onde o peixe escasseia. Explicou-nos Wang Bing que aquela região de rios e lagos estéreis, outrora uma das mais férteis e prósperas da China, está hoje ao abandono, fruto da deslocação massiva de mão de obra para as grandes cidades. No fundo, é uma região que também está a morrer, como a senhora do título.

“Mrs. Fang” é o filme de um rosto que se torna universal. Tem uma dignidade a toda à prova e é tão cru e tão humano como a realidade à sua frente. Exigiu a Wang Bing menos trabalho e paciência do que aquilo a que ele nos habituou nos seus trabalhos mais amplos, mas isso bastou para convencer o júri presidido por Olivier Assayas, e composto pela atriz alemã Birgit Minichmayr, os cineastas Miguel Gomes e Jean-Stéphane Bron e o produtor grego Christos V. Konstantakopoulos.

Juliana Rojas e Marco Dutra, os realizadores de "As Boas Maneiras"

Juliana Rojas e Marco Dutra, os realizadores de "As Boas Maneiras"

“As Boas Maneiras”, de Marco Dutra e Juliana Rojas, ficou com o Prémio Especial do Júri, o segundo mais importante do festival: é uma entrada inesperada do cinema brasileiro atual no género fantástico, ou “o filme do lobisomem” — assim foi batizado nos bastidores do festival. “Madame Hyde”, um dos melhores a concurso, do francês Serge Bozon, chegou ao palmarés pela extraordinária Isabelle Huppert, que ficou com o Leopardo para a melhor interpretação feminina. A masculina coube a Elliott Crosset Hove por “Winter Brothers”, de Hlynur Pálmason, uma produção dinamarco-islandesa.

A secção Cineastas do Presente foi ganha por outro filme de nível descoberto a meio do festival, o búlgaro “Three Quarters”, de Ilian Metev, estreia na longa-metragem. A Melhor Primeira Obra foi “Scary Mother”, da cineasta georgiana Ana Urushadze.