Diário

Na linha da vida surgiu-lhes Portugal

Ilustração Tiago Pereira Santos

Entre os 30 migrantes do navio humanitário Lifeline que Portugal vai acolher está o herói acidental da missão, o homem que convenceu o capitão a não entregá-los à guarda costeira líbia. Natural do Bangladesh, chega dentro de dias a Lisboa, juntamente com mais 29 pessoas da Costa do Marfim, Eritreia, Etiópia, Mali, Guiné, Somália e Serra Leoa. Um deles é um bebé de três meses, o passageiro mais novo da embarcação

Diz-se que o desespero não vale de nada, mas a ele abriu-lhe as portas da Europa, afastando-o mais e mais da costa líbia, de onde partiu num bote de borracha, já vindo do Bangladesh natal. No dia 21 de junho, horas depois de ter iniciado o trajeto com destino a Itália, a embarcação começou a não aguentar o peso excessivo dos passageiros, muito para lá da lotação. O navio humanitário Lifeline estava próximo e iniciou o salvamento no meio do Mediterrâneo, pedindo apoio a Itália e a navios mercantes que navegassem na área. Mas foi a Guarda Costeira da Líbia que apareceu. O relato é feito pelo capitão Claus-Peter Reisch ao jornal Times of Malta: “Os líbios aproximaram-se no nosso barco em águas internacionais, a exigir que lhes entregasse as pessoas que salváramos. Mas quando ia encontrar-me com eles, um homem do Bangladesh pôs-se de joelhos e agarrou-me as pernas. Este homem adulto estava a chorar e a tremer, a implorar-me que não o mandasse de volta. Ele disse que se matava antes disso”.

Reisch acreditou nele. Em salvamentos anteriores tinha assistido atónico a vários homens a atirarem-se ao mar quando viram aproximar-se um barco que pensavam ser líbio. Entre a Líbia e a morte escolhem a segunda. “Já estiveram lá em campos de detenção, onde não lhes é dada comida ou água, onde são agredidos, onde violam as mulheres. Voltar não é opção”, explica o comandante. De Dhaka até à Líbia, via Dubai ou Turquia, os traficantes cobram até €10 mil euros. É uma viagem sem regresso e cheia de perigos no caminho. A Organização Internacional para as Migrações soma relatos de redes organizadas de tráfico humano, de escravatura, exploração sexual e laboral e homicídios.

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