Economia

O turismo made in China

Em julho, começa um voo direto entre Lisboa e Hangzhou, com escala em Pequim. A secretária de Estado do Turismo passou uma semana no Oriente a vender férias e à procura de investimento

Ricardo Marques

Ricardo Marques

em Pequim

Jornalista

No Museu da Ciência da Universidade de Coimbra repousa há muitos anos um estranho objeto que parece ser tudo menos aquilo que realmente é. À primeira vista não é difícil tomá-lo por uma escrivaninha antiga, com um candeeiro suspenso e uma espécie de cinzeiro na base. Mais de perto, assemelha-se a uma velha mesa de máquina de costura, mas sem a máquina — e com uma taça em vez dela. Nada mais errado. Na verdade, o mais interessante da estrutura não está à mostra. Nem é sequer a história de séculos que encerra — afinal, para ali chegar, atravessou dois oceanos, resistiu a um naufrágio e a um terramoto devastador.

Há duas semanas, cinco chineses ficaram deliciados a olhar para uma fotografia tosca do estranho objeto projetada, por breves segundos, num enorme ecrã branco. “Esta foi uma prenda do imperador chinês para o rei de Portugal e está em Coimbra”, legendou Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, sem se alongar em mais explicações para os mais altos responsáveis da C-Trip, o maior operador turístico chinês, com cerca de 300 milhões de utilizadores registados e vendas diárias a rondar os 64 milhões de euros. Ficou assim por dizer que a tal peça exposta em Coimbra é, na verdade, um raro bloco de magnetite, de dimensões nunca antes vistas na Europa da altura, enviado pelo imperador Kangxi ao rei D. João V, algures no século XVIII.

Pedro Casaleiro, o curador do museu, explica ao Expresso que se trata de um poderoso imane, colocado numa estrutura de madeira com roldanas ocultas, capaz de atrair objetos com uma massa de até 60 quilos. E também alguma ironia histórica — ou não tivesse a imagem sido projetada numa enorme sala de aspeto futurista de um edifício ultramoderno em Xangai por uma comitiva portuguesa de visita à China com o único objetivo de atrair mais chineses para Portugal. “Temos muito mais para oferecer do que aquilo que os chineses conhecem”, garantiu Ana Mendes Godinho. “Este é o momento certo para trabalharmos juntos.” Os chineses sorriram, mais uma vez, e depois perguntaram por Cristiano Ronaldo.

Sinal de uma sabedoria milenar, ou mera coincidência, a notícia desse dia em Portugal (menos oito horas) era a inauguração do busto do jogador português no Aeroporto do Funchal (em breve Aeroporto Cristiano Ronaldo). Os chineses entusiasmam-se com a notícia e a conversa avança como se fosse um contra-ataque rápido. “Ele devia ser o embaixador do turismo português”, sugere o vice-presidente da C-Trip, Fan Min. “Isso, isso”, reforça uma das administradoras. “Ele já tem dois hotéis em Portugal”, atira Luís Araújo, o presidente do Turismo de Portugal, “decidiu investir nesta área”. “O ideal”, responde o chinês, “seria ele ter conta nas nossas redes sociais, porque ia dar uma grande exposição a Portugal”. “Mas já tem”, diz um dos portugueses. “Essa conta não é oficial”, avalia Fan Min, de telemóvel na mão. “OK, mas esta é.” “Ahhhhh”, que soa igual em português e em chinês. Ronaldo não é chinês, não estava na comitiva portuguesa, mas, no futebol e nas questões de marketing, não costuma desperdiçar oportunidades tão flagrantes.

Portugal está na luta por um lugar na grande área do turismo chinês, e com uma frente de ataque preenchida. Se o turismo é Cristiano Ronaldo, a linha avançada que está em jogo inclui também património (através do programa Revive), congressos e eventos internacionais (ou encontros de empresas), filmes (vender o país pelas imagens que aparecem nos filmes) e um posicionamento estratégico especial (ou acesso ao mercado lusófono). E depois há um número 10, capaz de distribuir jogo, que só chega em julho: um voo direto entre Lisboa e a China. O tal imane que pode ajudar a concretizar uma verdadeira invasão chinesa já a partir do verão.

Durante seis dias, na última semana de março, a secretária de Estado de Turismo acumulou milhas e quilómetros nas principais cidades chinesas, com dezenas de reuniões e almoços e jantares oficiais pelo meio. Ana Mendes Godinho foi uma espécie de capitã de equipa e o rosto mais visível da ofensiva portuguesa na China. Quando aterrou em Hong Kong (mesmo a tempo de se encontrar com os responsáveis da Art Basel, uma das principais feiras de arte do mundo, para os tentar convencer a deslocalizar para Lisboa), já o jogo ia na segunda parte — a equipa do Turismo de Portugal somava já vários workshops com empresas portuguesas e chinesas, de modo a estabelecer laços e contactos. Tudo para que o contador de turistas chineses à entrada de Portugal continue a contar.

Turismo. De acordo com o Banco de Portugal, as receitas geradas pela China, em 2015, chegaram aos 62 milhões de euros

Turismo. De acordo com o Banco de Portugal, as receitas geradas pela China, em 2015, chegaram aos 62 milhões de euros

foto Qilai Shen/Bloomberg/Getty Images

Não é difícil perceber porquê. No ano passado, o número de hóspedes chineses em Portugal rondou os 180 mil, mais 30 mil do que no ano anterior — e nesse ano, o de 2015, de acordo com o Banco de Portugal, as receitas turísticas geradas pela China chegaram aos 62 milhões de euros. Ora, como é fácil de perceber quando se caminha por cidades como Pequim (18 milhões de habitantes) ou Xangai (25 milhões), 180 mil pessoas representam uma pequena parte de uma pequena parte de um quarteirão. Ou, de outra forma, na sede da C-Trip, onde a conversa rolou até aos pés de Ronaldo, trabalham 10 mil pessoas. Metade das 20 mil que, por exemplo, preenchem os edifícios do Fliggy, o portal de viagens do gigante Alibaba, na cidade de Hangzhou (oito milhões de habitantes). Falta lembrar que, todos os anos, 86 milhões de chineses fazem férias no estrangeiro e, de repente, a matemática torna-se mais simples.

“A China não é o mercado mais importante, mas não há dúvidas de que o futuro do mercado global de turismo passa pela China e é essencial que Portugal esteja no road map dos turistas chineses como país a visitar. Temos feito uma grande aposta na promoção de Portugal, não só como país a visitar, mas também como destino para estudar, investir e viver”, concretiza a secretária de Estado. Em 2017, a promoção de Portugal na China vai custar cerca de 1,7 milhões de euros, mais 700 mil euros do que no ano anterior. O trânsito, mais uma vez, está parado. Ana Mendes Godinho olha pela janela. “Repare que no ano novo chinês, em fevereiro, há mais de seis milhões de chineses a viajar para o exterior. Queremos que a China entre para o nosso top 10 de países de origem de turistas e creio que com ações táticas inteligentes podemos alcançar resultados estratégicos.” Sun Tzu, o general chinês que escreveu “A Arte da Guerra” não teria dito melhor.

Há uma anedota, contada em Xangai, que ilustra bem a dimensão dos dois mercados. Um português encontra-se com um chinês em Pequim e, orgulhoso, diz-lhe: “Somos um povo de dez milhões de pessoas”. O chinês sorri e pergunta-lhe: “E em que hotel estão alojados?”. Pequenas mudanças, grandes efeitos. “A verdade é que qualquer crescimento, qualquer nicho que conquistemos na China, permitir-nos-á alcançar os nossos objetivos”, explica Ana Mendes Godinho. Todos os anos, cerca de 86 milhões de chineses fazem férias no estrangeiro. Destes, 180 mil visitaram Portugal. “Houve um crescimento de 20% em relação ao ano anterior, mas ainda é um número baixo tendo em conta o mercado.” Ao mesmo tempo, foram lançados programas específicos para preparar a chegada de novos turistas do Oriente e procura-se agora forma de envolver empresários chineses já radicados em Portugal nesta nova vaga.

Por muito grande que seja (e é), por muitos turistas que tenha (e tem), por mais promissor que pareça (e parece mesmo), a verdade é que a China é ainda uma hipótese, uma variável na grande guerra turística que Portugal vai travar na próxima década. Se tudo correr como previsto, e de acordo com a estratégia a dez anos definida pelo Governo, Portugal terá em 2027 cerca de 80 milhões de dormidas (48,9 milhões em 2015), receitas a rondar os 26 mil milhões de euros (11,5 milhões em 2015) e o índice de sazonalidade mais baixo de sempre — ou seja, mais turistas, mais dispersos por todos os meses de ano. Além de uma maior dispersão geográfica: atualmente, o Algarve e as grandes cidades estão na linha frente, o resto do litoral vem depois e o interior é um deserto.

Não sendo um mercado estratégico — como são a Espanha, o Reino Unido, a Alemanha a França ou o Brasil, entre outros — a China é uma das apostas de mercado mais importantes. Mas é preciso perceber o que os faz gastar dinheiro numa viagem. Afinal, o que interessa aos chineses? Gostam de fazer compras, de tirar selfies e de colecionar países — qualquer coisa como visitar sete países numa semana. Mas acima de tudo, por estes dias, gostam é de algo tão simples como um céu azul. Em cidades como Pequim, com um problema sério de poluição devido aos milhões de carros e a outras tantas fábricas, o cinzento é a cor mais frequente. “Até as árvores têm uma cor estranha, meio acastanhada”, comenta alguém na comitiva portuguesa.

O carro da secretária de Estado está novamente parado, desta vez nos arredores de Pequim. À direita, por baixo de um viaduto, duas dezenas de pessoas cavam buracos que servirão para plantar árvores. Mais à frente, à entrada de um dos bairros de habitação, um homem em tronco nu pontapeia com precisão o tronco de uma árvore. Uma espécie de corpo são em cidade poluída. Luís Araújo, o presidente do Turismo de Portugal, ouviu várias vezes a mesma frase durante as reuniões: “É tão azul”.

O apertado protocolo chinês impede que os jornalistas assistam a reuniões em que participem entidades oficiais, mas nada diz sobre a descrição que delas faz a secretária de Estado. “Sempre que o Luís apresentava os slides, a primeira coisa em que reparavam era na cor do céu. É uma imagem impactante aqui e é também uma oportunidade para promovermos produtos competitivos como o turismo de natureza, de saúde e bem-estar, o golfe... “O caso do golfe é muito estranho. Nos três últimos anos, recebemos o prémio de melhor destino de golfe e na China não somos conhecidos por isso”, lamenta Ana Mendes Godinho. “No segmento mais alto, o que nos interessa atingir, há muita gente que joga golfe e que não pensa em Portugal.” Nada que não se resolva e, em pelo menos três reuniões, Luís Araújo fez convites diretos a responsáveis de topo de empresas chinesas para se deslocarem a Portugal, para o Pro Am Masters que se realiza em setembro em Vilamoura, no Algarve.

Antes, porém, uma pequena (grande) parte de Portugal veio à China. No domingo, dia 26 de março, com pompa e circunstância, discursos e beberete (onde não faltaram os pastéis de nata de que o chineses tanto gostam), foi inaugurado na Praça Bauhaus, em pleno 798 (o Art District de Pequim, onde se discute a criação de um centro cultural português), um enorme galo de Barcelos. A escultura interativa, da autoria de Joana Vasconcelos, tem 10 metros de altura, 17 mil azulejos pintados e mão e 15 mil luzes led — e permite que quem passa possa escolher de que cor quer ver o galo. À cor mais votada na aplicação de telemóvel corresponde também uma música, e tocaram várias perante o olhar divertido do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral (acabado de chegar do Fórum Asiático Boao, em Hainan, e com viagem marcada para Lisboa nessa mesma noite), da secretária de Estado do Turismo e do embaixador de Portugal, Jorge Torres-Pereira. “É um ícone de aproximação cultural, ainda mais significativo porque na China é o ano do Galo”, explica Ana Mendes Godinho. A peça chama-se Pop Galo, mas não há como negar que é um verdadeiro galo de Troia.

Os telemóveis são a pequena peça que permite rodar a fechadura da China atual, muito diferente do país que Ana Mendes Godinho encontrou em 2009. O mundo mudou, e a China também. “Nessa altura não faziam ideia do que era Portugal. Era muito associado a Espanha, havia alguma reminiscência histórica portuguesa, muito ligada a Macau, mas não era claramente um país de destino de viagem”, esclarece a secretária de Estado, numa conversa em andamento após a reunião na C-Trip e a caminho da reunião seguinte. Hoje, além de Ronaldo, que todos conhecem e de quem todos falam sempre que encontram um português, o futebol é uma força na China (e muitos portugueses treinam e jogam em equipas chinesas) e os telemóveis são mesmo as pequenas peças que fazem andar o país.

Basta olhar pela janela do carro em cidades como Pequim ou Xangai para perceber que, por vezes, as maiores mudanças começam com pequenas coisas. Há pouco mais de um ano surgiram na rua umas bicicletas coloridas com um sensor colocado por cima da roda de trás. Nada de extraordinário: afinal, bicicletas para alugar existem em todo o mundo. A diferença, a pequena diferença, é que a versão chinesa não obriga a que a bicicleta fique estacionada num local específico. Podem ser largadas em qualquer lugar e em qualquer lugar é possível encontrá-las. Basta apontar o telemóvel, ler o código QR e seguir. Treze cêntimos por hora. Num ápice, voltou a haver milhões de chineses a pedalar na estrada, por entre o trânsito caótico das grandes cidades. E essa imagem de um passado recuperado pelo futuro a atravessar os cruzamentos do presente é o melhor retrato da China.

Os responsáveis do Turismo de Portugal perceberam também que a tecnologia é a melhor porta de entrada no enorme mercado chinês e a presença nas maiores redes sociais chinesas (Wechat e Taobao) está a crescer a um ritmo acelerado. Durante os sete dias de visita oficial, foram assinados vários acordos com empresas chinesas. “A entrada no Alibaba [600 milhões de consumidores registados] é uma verdadeira lança na Ásia. Trabalhamos também com operadores como a Caissa, do grupo HNA, e com a C-Trip, que é somente o maior operador turístico chinês online. O desafio, para nós, é conseguir produzir conteúdos apelativos, para que as pessoas se interessem e cliquem”, resume. Daí a comprarem um bilhete, esperam os responsáveis portugueses, será um salto. Um penálti, diria Ronaldo, ou um putt fácil a um palmo do buraco 18.

A China podia ser um campo de golfe, com os seus greens imaculados, mas também com zonas de areia, lagos e parcelas de mato cerrado onde é impossível encontrar a bola. A verdade é que o golfe já viu melhores dias a Oriente. Na semana passada, num breve artigo de antecipação do encontro entre o Presidente chinês, Xi Jinping, e Donald Trump, o jornalista Evan Osnos previa, na “The New Yorker”, que era altamente improvável que os dois homens mais poderosos do mundo fizessem alguns buracos no campo de Mar-a-Lago, em Palm Beach, e lembrava a relação difícil de Xi com o jogo. “Quando Jinping assumiu o controlo do Partido Comunista, em 2012, o golfe era um passatempo popular para os abastados homens de negócios. Num esforço para restaurar a imagem dos funcionários públicos, que tinha sido beliscada por vários casos de corrupção, Xi fechou centenas de campos e proibiu os membros do partido de jogarem golfe usando dinheiros públicos.”

China. Em 2017, a promoção de Portugal na China vai custar cerca de 1,7 milhões de euros, mais 700 mil euros do que no ano anterior

China. Em 2017, a promoção de Portugal na China vai custar cerca de 1,7 milhões de euros, mais 700 mil euros do que no ano anterior

FOTo ANTHONY WALLACE/AFP/Getty Images

Evan Osnos, que viveu e trabalhou oito anos em Pequim, escreveu um livro onde conta a sua experiência na China do final dos anos 90. O capitalismo, ou uma versão oriental dele, tinha tomado conta do país e as diferenças, no espaço de dois anos, eram abissais. “Na altura em que cheguei, a mais urgente prioridade de toda a gente era consumir”, escreve. Num ápice, a semana de trabalho tinha sido reduzida, havia três semanas de férias e um novo slogan do Governo: ‘Pede dinheiro emprestado para realizares os teus sonhos’. “O Governo estava a oferecer um negócio ao seu povo: prosperidade em troca de lealdade”, resume Osnos em “Age of Ambition: Chasing Fortune, Truth, and Faith in the new China”. A vertigem do consumo não desapareceu, e deu até lugar a outro tipo de consumo, de grande escala e envolvendo ativos económicos, a que se pode chamar investimento.

Portugal já está no radar da economia chinesa. Entre 2010 e 2014, foi o país europeu em que a China mais investiu. Os exemplos mais sonantes são a Fosun — que comprou a Fidelidade, a maior seguradora portuguesa, e depois entrou na Luz Saúde, tornou-se acionista maioritário no BCP e controla 5% da Rede Elétrica Nacional, além de diversos investimentos no sector imobiliário — e a China Three Gorges — que com um investimento de 2,7 milhões de euros passou a controlar a EDP. Na edição deste mês da revista “Exame”, Guo Guangchang, líder da Fosun e número 22 da lista dos chineses mais ricos, revela que não tem vontade de parar. Turismo, lazer e o sector farmacêutico estão no topo das prioridades do gigante chinês.

“A par das reuniões específicas do sector turístico, reunimos também com vários grupos de investimento, apresentando o programa Revive”, adianta Ana Mendes Godinho, resumindo algumas dos encontros vedados a jornalistas. “O entusiasmo foi enorme. Olham para o programa como uma oportunidade de investimento em património, ficando associado à questão cultural”, precisou. O programa Revive prevê a abertura de património público ao investimento privado para fins turísticos e inclui três dezenas de imóveis, em vários pontos do país: desde fortes, a quartéis, passando por conventos e mosteiros. O projeto de recuperação de património é uma iniciativa conjunta dos Ministérios da Economia, Cultura e Finanças e tem uma meta de investimento de 150 milhões de euros.

Por outro lado, associada ao investimento está também a atribuição de vistos gold, que permitem a livre circulação no espaço Schengen. Desde que foi criado o programa, em 2012, os chineses lideram a lista de nacionalidades: dois em cada três vistos são para chineses. “Há claramente um interesse em que Portugal seja um parceiro para a entrada dos chineses na Europa, nomeadamente em termos de investimento, mas também que seja um hub intercontinental que permita a ligação com África e América”, explica a secretária de Estado, que referiu várias vezes que o mercado da lusofonia tem mais de 200 milhões de pessoas. Vamos deixar de ser a placa giratória para nos tornarmos a porta de entrada? “Somos porta de entrada e de saída, e isso cria a placa giratória. Duzentos milhões não é um número por aí além na China, mas é interessante porque pode acrescer ao que já existe.”

De acordo com a ‘Hurun Report Inc’, uma espécie de “Forbes” chinesa, um em cada mil chineses é milionário, ou seja, tem mais de um milhão de dólares. Contas feitas, num país com cerca de 1,4 mil milhões de habitantes, há mais de um milhão de milionários. Dez por cento de toda a riqueza produzida no mundo estão na China. “A China conseguiu retirar mais de 700 milhões de pessoas da pobreza”, afirmou, em setembro do ano passado, Xi Jiping, durante a cimeira do G20 em Hangzhou, que os chineses consideram uma das mais belas cidades do país. Ainda assim, segundo o Banco Mundial, há mais de 200 milhões de chineses a viver na miséria (com menos de 3,10 dólares por dia) e verificam-se grandes assimetrias no nível médio de vida entre habitantes de cidades como Pequim e Xangai e outras zonas da China.

Não é o caso de Hangzhou, oito milhões de habitantes, capital de uma das províncias mais ricas da China, a cerca de duas horas de carro de Xangai. Além de ter recebido a cimeira do G20, será a cidade dos Asian Games em 2022. Acima de tudo, será o ponto de partida, e chegada, para o voo de 220 lugares que vai ligar Portugal à China, a partir de julho, quatro vezes por semana, operado pela Beijing Capital Airlines. “O voo direto é crucial e esta visita é-o também no sentido de preparar esse momento”, explica a secretária de Estado, que recebeu da companhia aérea um modelo da aeronave.

Ana Mendes Godinho passeia pelo Templo do Céu, em Pequim, caminhando por entre milhares de chineses de visita a um dos locais de eleição da cidade capital. Fala de surf, de hotéis, de turistas. Não parece cansada, mas está. Homens e mulheres ali ao lado jogam cartas. “O voo destina-se claramente aos chineses, mas servirá também para dinamizar as relações comerciais entre os dois países”, esclarece, lembrando que a maior parte da comunidade chinesa residente em Portugal tem raízes precisamente em Hangzhou. Para tornar tudo ainda mais fácil, Ana Mendes Godinho e Luís Araújo inauguraram o novo centro de vistos de Portugal naquela cidade.

O voo direto entre Lisboa-Pequim-Hangzhou surge em pleno período de turbulência geoestratégica. Ao mesmo tempo que se assiste a uma tendência crescente de isolacionismo por parte dos Estados Unidos da América, os chineses tendem a aprofundar a ligação à Europa. Uma ligação ferroviária, imaginada há décadas, e que se tornou realidade há pouco mais de um mês quando chegou a Londres um comboio com mercadoria vinda da China. Os analistas internacionais chamam-lhe a Nova Rota da Seda. “É uma grande aposta chinesa e foi muito interessante perceber, nas reuniões com os organismos oficiais, que este voo está a ser encarado como o relançamento da rota da seda marítima.”

Outra questão interessante acerca das reuniões, e que remete diretamente para o passado, é a presença de um intérprete. “É muito importante. Muitos chineses já começam a falar inglês, mas nas questões culturais o intérprete é fundamental para estabelecer pontes, identificar os sinais, ler as atitudes e saber o que significam”, reconhece a secretária de Estado. No caso concreto, o tradutor de serviço é um perfeito desconhecido que toda a gente já viu. Chama-se Miguel Fialho, português, professor na Universidade de Bath, no Reino Unido, tradutor habitualmente requisitado pelo Governo português e por várias instituições da Comissão Europeia. Basta dar uma volta pela internet para o descobrir em dezenas de fotografias, é o tipo alto e discreto sempre em segundo plano, atrás das mais diversas personalidades. Em novembro do ano passado, acompanhou António Costa na visita à China, depois de já ter feito o mesmo com Cavaco Silva, em 2012.

Mais de cinco séculos após a primeira visita de um embaixador português à China, a língua é ainda a grande barreira. Em 1513, Tomé Pires chegou à costa de um enorme país desconhecido. O português era o feitor das drogas e na sua “Súmula Oriental” foi o primeiro europeu a descrever o hábito de comer com pauzinhos, que observara aos chineses residentes em Malaca, como escreve Paulo Jorge de Sousa Pinto em “A China pelos Olhos de Malaca...”. À chegada a Cantão, contam os investigadores Jin Guo Ping e Wu Zhiliang (“Uma embaixada com dois embaixadores — novos dados orientais sobre Tomé Pires e Hoja Yasan”), os portugueses fizeram o que sempre costumavam fazer: dispararam uma salva de canhão em jeito de saudação. Foi apenas o primeiro equívoco de uma história rocambolesca, de protocolos impossíveis, mudanças de poder e atrasos de anos a fio, em que o próprio intérprete chegou a ser confundido com o verdadeiro embaixador.

Anos mais tarde, notam os investigadores, Fernão Mendes Pinto alude na “Peregrinação” a um mandarim, “o qual estava em cima de um cavalo, com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um tal Tomé Pires, que El-Rei D. Manuel da gloriosa memória mandara à China, na nau de Fernão Peres de Andrade”. Se algum dia for feito um filme sobre a história da primeira embaixada, os chineses serão bem-vindos para filmar em Portugal — esse ou outro filme qualquer, como explicaram Luís Araújo e Ana Mendes Godinho a uma dezena de produtores de cinema chineses durante um encontro no Consulado de Portugal em Xangai. Foi a última reunião do último dia de trabalho.

À noite, a comitiva portuguesa subiu ao bar no Vue Bar, no Hyat on the Bund Hotel, para ver de cima, e de perto, a skyline de Xangai. Chovia, e o nevoeiro caía depressa sobre os enormes arranha-céus da megametrópole. Tão depressa que, em dez minutos, grande parte dos 468 metros da Torre Pérola Oriental desapareceram, ficando à vista apenas a esfera maior e parte das três colunas que sobem rumo ao céu. Ninguém deu por nada, mas naquele instante a torre ficou mais parecida do que nunca com o magnete do museu de Coimbra.

O Expresso viajou a convite 
da Secretaria de Estado do Turismo

Matemos o exotismo

Texto de Henrique Raposo

Texto de Henrique Raposo

Os casinos da Avenida Cotai na Taipa (Macau) formam um cenário surreal. Andei por ali diversas vezes e nunca senti que estava palmilhando uma rua real, senti sempre que estava num cenário postiço, talvez num estúdio de cinema onde se filmam distopias sobre o futuro do capitalismo. Imaginem castelos de Cinderela desenhados por um Walt Disney bêbado ou por um Tomás Taveira chinês. O Parisian e o Venetian, entre outros casinos, são assim: monumentais no tamanho, no kitsch, no pastiche luxuoso, parecem legos de crianças megalómanas. Confesso que me inquietam tanto como o palácio de Ceausescu: há ali qualquer coisa de sinistro e desumano naquela monumentalidade infantil. Para quê a réplica da Torre Eiffel às portas do Parisian? Quando se entra lá dentro, sobretudo nas galerias comerciais recheadas com as marcas mais luxuosas do Ocidente, este ambiente surreal continua presente, embora adquira um traço concreto, humanizado e até comovente ou grotesco — depende da perceção. Por exemplo, vi várias vezes uma cena que é preciso ver para crer, uma cena que dá um colorido diferente a uma expressão que ouvimos todos os dias há vinte e cinco anos, “a ascendente classe média chinesa”. Que cena é esta? Nestas lojas de luxo, diversas famílias camponesas e operárias compram joias e roupas como se estivessem na feira de Carcavelos; se eu usasse uma linguagem snobe, diria que os “saloios” ou “gunas” da China continental fazem excursões até Macau para jogar nos casinos e para comprar roupa na Prada e joias na Cartier. Imaginem que a Dona Graciete, a senhora que vos lava a escada do prédio aqui em Lisboa, entrava nas lojas da Avenida da Liberdade para comprar colares ou vestidos lado a lado com as princesas do MPLA. É um cenário impossível em Portugal (e na Europa), mas as Donas Gracietes da China entram na Prada e na Cartier não para ver mas para comprar. Ao contrário das meninas sofisticadas e ocidentalizadas de Hong Kong ou mesmo de Macau, estas mulheres têm o ar desengonçado e brusco das camponesas, têm a pele curtida pelo sol ou pela fábrica e são boçais, mas compram aquilo que a classe média europeia não pode comprar. É o resultado de um país que está a crescer a 10% ao ano há mais de uma geração. A ascensão social que no Ocidente demora duas ou três gerações, é feita na China numa única geração, numa única pessoa; queimando várias etapas, o chinês médio salta diretamente da indigência dos campos de arroz para o fausto da Prada. Há quem veja nesta cena um arrivismo grotesco, mas também há quem veja ali um sinal libertador de ascensão social. Confesso que não sei qual é a via mais próxima da verdade. Sei apenas que, à porta de uma Cartier cheia destes excursionistas, troquei sorrisos com o segurança filipino. O meu sorriso foi de estupefação. O sorriso dele foi de bonomia; encolheu os ombros como que a dizer “não és o primeiro ocidental a ficar de queixo caído”.

Longe do tumulto consumista da Taipa, a praia de Coloane (Macau) é pacata, normal, castiça, até tem rulotes de bifanas. Apesar do péssimo tempo (nevoeiro cerrado), um menino chinês estava sozinho a brincar na areia, dois ou três metros ao lado da mãe sentada numa toalha. Eram as únicas pessoas no areal inteiro. Lembrei-me da minha mulher e das minhas filhas, que vão para a praia faça chuva ou faça vento; também são capazes de ficar sozinhas no areal. A cena comoveu-me. Apesar de estarem separados por 13 mil quilómetros geográficos e por 130 mil quilómetros culturais, aquele menino chinês e as minhas filhas partilham a mesma ideia de felicidade: ser feliz é estar de rabo para o ar enchendo baldes de areia com pás fluorescentes. A cena tocou-me, porque são estes pormenores que nos recordam aquela mensagem do Evangelho que muitas vezes parece uma quimera: somos todos irmãos.

Chão comum

Estas duas cenas (a do casino e a da praia) resumem bem a minha visita a Macau para participar no festival literário Rota das Letras (liderado por Hélder Beja) e para palestrar no Instituto de Estudos Europeus da Universidade de Macau (a convite do meu velho amigo Rui Flores). Se pensarem bem, estas duas cenas nada têm de exótico, são cenas que não revelam diferenças mas sim semelhanças entre chineses e ocidentais. No bem e no mal, somos mais semelhantes do que pensamos à partida. A similitude da cena balnear fala por si. Mas a cena consumista do casino também apela a algo que é universal: o arrivismo não é exclusivo da China.

Quando estamos perante uma civilização tão distinta da nossa, a tentação é procurar a diferença, a incomunicabilidade, o exótico. A meu ver, esta tentação é um luxo que não podemos continuar a fomentar. Os nacionalistas à direita e os multiculturalistas à esquerda estão interessados em fomentar fossos culturais e relativistas, fossos que negam uma humanidade partilhada. Neste momento histórico, perdemos o luxo de invocar o exótico, porque o outro lado do exotismo é o ódio. Desarmar o ódio não passa por sacralizar o exótico e o diferente, passa por encontrar o que não é exótico nas outras culturas, passa por humanizar o outro através da normalidade. Ou seja, temos o dever moral e intelectual de procurar o chão comum que partilhamos com os orientais. No fundo, temos de recuperar o espírito dos primeiros ocidentais que escreveram sobre a China: os padres portugueses Gaspar da Cruz (dominicano) e Francisco Pimentel (jesuíta). Cruz e Pimentel tinham curiosidade em relação à diferença exótica, mas estavam conscientes de que partilhavam com os chineses a mesma humanidade — para o bem e para o mal.

No pecado e na bondade, este chão comum foi visível no meu dia a dia em Macau e Hong Kong. Assim que saía do quarto, levava encontrões ou empurrões logo no elevador; a cena repetia-se em qualquer tipo de fila, passavam-me à frente como se eu fosse invisível. Senti-me muitas vezes uma criada de quarto: estava ali mas eles não me queriam ver, estava no ângulo morto da sua visão moral das coisas, mesmo quando me mostrava aflito. Por exemplo, perdi-me várias vezes e por várias vezes pedi ajuda, mas nunca ninguém foi capaz de me ajudar. Numa dessas ocasiões, estava mesmo aflito porque estava atrasado para uma entrevista numa rádio portuguesa; abordei à vontade dez pessoas, mas ninguém me ajudou, a maioria nem sequer me queria ouvir, alguns até me enxotaram com gestos que prometiam um rotativo à Bruce Lee. Mais tarde, uma jornalista portuguesa tentou explicar-me o contexto desta rudeza: eles, os chineses, só revelam alguma simpatia quando percebem que o “outro” se esforça por falar mandarim ou cantonês. Mas como é que um visitante ocasional pode aprender a falar mandarim? Só serei merecedor da cordialidade chinesa se devotar parte da minha vida ao estudo do mandarim? Aliás, só serei merecedor de simpatia chinesa se devotar a minha vida à China? A expressão “império do meio” não veio do nada. É evidente que existe um clima nacionalista na sociedade chinesa. Não é cosmopolita ou integradora. Numa semana inteira em Macau apenas um chinês sorriu para mim: o croupier de uma das mesas do Parisien. Sucede que este contacto pessoal com chineses não me pareceu muito diferente do contacto pessoal com bávaros (Alemanha). Ao longo de meio ano na Baviera, também nunca vi um sorriso alemão. Curiosamente, os alemães partilham com os chineses a arrogância linguística, também acham que a sua língua é o centro do mundo. O nacionalismo é uma idolatria comum a todos os homens; a tendência reacionária para se olhar para trás (para a tradição relativa) em vez de se olhar para cima (para a transcendência universal) é comum a todas as culturas.

Depois dos primeiros encontrões e antipatias no hotel, na rua, nos restaurantes, nos cafés, eu passava sempre (de manhã ou à tarde) por um jardim onde grupos de pessoas faziam exercícios de tai chi. Não esquecerei tão cedo o primeiro contacto com este jardim, que parecia uma bolha de verdade espiritual no meio desta enorme pós-verdade que se chama capitalismo chinês. Foi logo na primeira manhã; ainda estava meio grogue devido ao jet lag, o que terá alimentado a minha cara de pau: aproximei-me em demasia de um grupo que fazia tai chi, invadi o seu perímetro de meditação, mas de imediato compensei o atrevimento porque comecei a rezar. Sentei-me num banco, fechei os olhos, abri a oração, orei durante uns minutos. Quando acabei a oração, abri os olhos e, mesmo à minha frente, um homem estava olhando para mim num misto de curiosidade e respeito. Sorrimos um para o outro, isto é, percebemos que estávamos a fazer o mesmo de maneiras diferentes, percebemos que, apesar de tudo, tínhamos acabado de passar alguns minutos num chão comum.

Iguais no pecado e na virtude

De manhã ou de tarde, antes ou depois das atividades agendadas pelo Hélder Beja no festival ou pelo Rui Flores na universidade, eu saía deste jardim e reentrava na agitação consumista e na evidente idolatria do dinheiro: sente-se uma pressa em gastar dinheiro nos casinos mirabolantes, nos centros comerciais e nas ourivesarias gigantescas que ostentam peças de um inconcebível mau gosto (ex.: capas de telemóvel em ouro e com baixos relevos com a forma da Hello Kitty). Há ali um arrivismo empedernido? Claro. Mas nós também temos ou tivemos os nossos patos bravos e Eugènes de Rastignac. Já ninguém se recorda da mulher do construtor civil que vestia vison quando ainda tinha terra debaixo das unhas? Já ninguém se recorda dos beirões que durante a febre do volfrâmio compravam eletrodomésticos para casas que não tinham eletricidade e que só comiam o “pão dos ricos” (pão de ló)? Além disso, a megalomania dos casinos de Macau não deve ser muito diferente da loucura de Las Vegas. Tal como a idolatria nacionalista, a idolatria do dinheiro é comum a todos os homens e a todas as culturas. E, se quisermos ver este tema ao contrário, podemos dizer que o desejo de ascensão social é a condição natural de todos os homens. O que me leva àquela que é porventura a personagem mais interessante desta viagem, uma jornalista filipina com sotaque de Los Angeles que me entrevistou para a TDM (Teledifusão de Macau) de língua inglesa. Quando acabámos a entrevista, perguntei-lhe “então como é isso de ser jornalista filipina em Macau?”. Ela reagiu mal, sentiu-se ofendida. Por uns segundos, não compreendi porquê. Estava só a fazer conversa mole a partir de uma pergunta óbvia: como é reportar todos os dias uma realidade estranha? Como é que alguém de formação católica e de influência americana reporta a cultura chinesa todos os dias? Depois é que me ocorreu: eu tinha violado uma alínea do politicamente correto local. Em Macau e Hong Kong, “filipina” é sinónimo de “criada”. Os filipinos e filipinas fazem aquilo que os chineses já não querem fazer, trabalham nas obras, lavam pratos, fazem todo o tipo de trabalho doméstico; não é expectável que entrem na rota da ascensão social. De manhã, antes do trabalho, ou à noite, depois do trabalho, estas pessoas ainda fazem trabalhos extra. Por exemplo, vão lavar carros nos parques de estacionamentos dos gigantescos arranha-céus. Há uma evidente separação entre senhores chineses e criados filipinos, são dois mundos que não se tocam. A divisão social também é a divisão racial. Mas aqui na Europa não se passam coisas parecidas? Em Portugal, qual é o emprego expectável das negras? Quantas jornalistas negras existem em Portugal? E deputadas? E juízas? Há ascensão social nas muçulmanas em França? Aliás, há ascensão social das portuguesas em França ou ainda se espera que elas sejam apenas porteiras?

O exotismo é o ovo da serpente

Poderia continuar o resto do dia a registar exemplos desta humanidade partilhada no bem e no mal. O ponto porém já está feito. Há que evitar o culto do exótico. Atrás do biombo glamoroso do exotismo, esconde-se o ódio do nacionalismo de direita e do multiculturalismo de esquerda. Uma cultura obcecada com o exotismo do “outro” acaba por se transformar numa cultura centrado no ódio contra o “outro”. Sim, é claro que no Oriente existem marcas exóticas fascinantes. Por exemplo, excetuando os croupiers dos casinos, porque é que os chineses e sobretudo as chinesas nunca nos olham nos olhos? Porque é que o contacto visual parece ser uma invasão total da privacidade? Porque é que o contacto visual para uma chinesa parece ser equivalente ao contacto corporal? E porque é que os chineses colocam o “bom nome” (“não perder a face”) à frente da verdade ou razão, destruindo assim qualquer conceção de direito? Como facilmente se entende, também poderia passar o resto do dia a registar as diferenças que vi e senti, mas isso contribuiria para fomentar uma visão da humanidade dividida em segmentos estanques. Se caminharmos por essa via romântica, culturalista e exótica, os choques culturais ou civilizacionais tornar-se-ão demasiado tentadores, tornar-se-ão tão óbvios e naturais como os choques entre placas tectónicas na geologia ou como os choques entre espécies animais na zoologia. É urgente encontrar uma visão que privilegie as semelhanças e uma noção de irmandade pauliana entre homens — ou não existissem em Macau as ruínas de São Paulo. Não me refiro às semelhanças exteriores geradas pela globalização. Em 1958, Arnold J. Toynbee, em “East to West”, escreveu algo que depois seria copiado milhões de vezes até hoje: o Oriente está a ficar parecido ao Ocidente na urbanização, todas as cidades do Oriente caminham para a ocidentalização. É verdade. Em Macau e Hong Kong, os casais de namorados são iguais aos casais de namorados ocidentais nas demonstrações de afeto, na roupa, na obsessão com o telemóvel; o próprio rosto das chinesas mais sofisticadas foi ocidentalizado através de inúmeras operações plásticas. Mas não é disto que estou a falar. Estas semelhança são materiais e estão situadas a jusante. Temos de olhar para montante, para a fonte, para a essência de uma humanidade partilhada, para a ideia de que somos irmãos na virtude e no pecado, no ódio e no desejo de espiritualidade, no arrivismo desenfreado e na felicidade que é encher um balde de areia numa praia deserta. Somos irmãos. Matemos o exotismo antes que exotismo nos mate a todos.