Economia

Novo hotel de cinco estrelas em Lisboa vai expor as peças arqueológicas descobertas na obra

Um troço com 32 metros de muralha fernandina foi descoberto na construção do hotel no Largo do Corpo Santo

Foto Mário João

A construção do hotel Corpo Santo, que vai abrir este mês no Cais do Sodré, foi marcada por achados arqueológicos valiosos, que serão parte integrante da sua oferta turística

A construção está na reta final, e a obra foi acompanhada a tempo inteiro por um arqueólogo, que ficou surpreendido com a quantidade de peças históricas de valor que iam sendo sucessivamente descobertas, perfazendo um espólio que encheu 110 contentores. Estes achados arqueológicos, que incluíram 32 metros de muralha fernandina posta a descoberto, vão ser parte integrante do Hotel Corpo Santo, o novo hotel de cinco estrelas que vai abrir em Lisboa em finais de agosto.

Ocupando praticamente um quarteirão inteiro na zona do Cais do Sodré, o Hotel Corpo Santo envolveu a reabilitação de três edifícios inteiro e tem entradas para Rua do Arsenal, o Largo do Corpo Santo (em frente à igreja do Corpo Santo) e a Travessa do Cotovelo.

Pedro Pinto, diretor do Hotel Corpo Santo, a acompanhar a obra, que envolveu a reabilitação de três edifícios no Cais do Sodré

Pedro Pinto, diretor do Hotel Corpo Santo, a acompanhar a obra, que envolveu a reabilitação de três edifícios no Cais do Sodré

Foto Mário João

A obra, iniciada em abril de 2015, tem sido condicionada pelos sucessivos achados arqueológicos e a sua localização numa zona sensível no centro histórico da cidade.
“Encontrámos tanta peça e com tanto valor, e isto vai-nos diferenciar entre os hotéis de cinco estrelas, pois queremos passar aos nossos hóspedes esta parte importante da nossa história que estava escondida”, salienta Pedro Pinto, diretor do Hotel Corpo Santo, cargo que assumiu após ter saído em maio do Altis Belém, onde exercia idênticas funções.

Tirar uma 'selfie' junto à muralha fernandina

“Como arqueólogo, para mim é fantástico trabalhar numa obra destas, em que se descobriu um espólio arqueológico extraordinário”, enfatiza António Valongo, o arqueólogo que acompanhou a construção do Hotel Corpo Santo, um procedimento obrigatório nesta zona da cidade.

O hotel de cinco estrelas na Rua do Arsenal tem 79 quartos e são todos diferentes, dadas as características do edifício

O hotel de cinco estrelas na Rua do Arsenal tem 79 quartos e são todos diferentes, dadas as características do edifício

“Toda esta área sofreu bastante com o terramoto de 1755. Identificámos aqui elementos extraordinários e muito bem preservados que foram abandonados no terramoto. Encontrámos parte das casas nobres do infante D. Pedro, temos um excelente conjunto de cerâmica dos séc. XV e XVI, cachimbos de produção inglesa ou holandesa, eu próprio não tinha noção da quantidade e do valor das peças que aqui se podiam encontrar”, descreve o arquiteto.

O 'ex-libris' entre estes achados foi a descoberta de um troço de 32 metros de muralha fernandina, “que condicionou bastante o projeto uma vez que se trata de um monumento nacional”.

Mas o que à partida era uma condicionante da construção acabou por tornar-se numa mais-valia do próprio projeto hoteleiro: os achados arqueológicos da obra vão passar a estar em exposição, como numa espécie de 'museu' numa sala polivalente do hotel, que funcionará como área de lazer ou de reuniões, onde se destacará a muralha fernandina, que foi recuperada.

Todos os quartos do hotel têm banho ou duche com cromoterapia

Todos os quartos do hotel têm banho ou duche com cromoterapia

“Este espaço vai corresponder às expectativas do lado do rigor científico. Mas isto não é um museu, é um espaço vivo para partilhar a história da cidade e para ser usufruído pelas pessoas, por exemplo as que querem tirar uma 'selfie' junto à muralha fernandina”, refere o diretor do hotel Corpo Santo.

Inicialmente, há mais de 70 peças arqueológicas identificadas para estar em exposição no hotel, “mas o espólio é tanto que vamos ter sempre algo de novo para mostrar”, salienta Pedro Pinto.

O Hotel Corpo Santo envolveu investimentos privados, de uma família portuguesa, que atingiram 20 milhões de euros. Está equipado com um Spa e tem 79 quartos, dos quais dois são suítes, instaladas no topo e com vista aberta para o Cais do Sodré e o rio Tejo. Todos os quartos são diferentes, devido às características do edifício, e têm banho ou duche com cromoterapia, com base em alternância de cores.

As duas suítes estão instaladas no topo do edifício e têm vista para o Tejo

As duas suítes estão instaladas no topo do edifício e têm vista para o Tejo

Cada um dos cinco pisos do hotel é dedicado a uma área geográfica de expansão portuguesa pelo mundo (designadamente Norte e África, África central, Ásia e América do sul, além de Lisboa propriamente dita) e tem um cheiro próprio associado a essas regiões (desde o aroma dos cafés a canela ou outras especiarias).

“Fomos a esse detalhe, de desenvolver um cheiro próprio para cada um dos pisos, que correspondem a zonas onde estiveram os portugueses”, faz notar Pedro Pinto, lembrando que a entrada do hotel será marcada por um mural pintado à mão, numa alusão à história da cidade e a sua ligação ao rio.

Outra mais valia do hotel será o restaurante, com entrada pela Rua do Arsenal, que se vai chamar 'Porta' e vai estar aberto todo o dia. “Não queremos que seja associado a um restaurante de hotel, mas que também seja frequentado pelos residentes e as pessoas que trabalham aqui à volta”, salienta Pedro Pinto. “A nossa ideia nesta rua é sermos mais que um hotel, mas uma unidade vivida por todos na cidade, sejam turistas ou residentes”.

O diretor do hotel no espaço em que ficará a sala polivalente onde vão estar em exposição os achados arqueológicos da obra

O diretor do hotel no espaço em que ficará a sala polivalente onde vão estar em exposição os achados arqueológicos da obra

Foto Mário João

“Somos um hotel descomplexado relativamente aos tradicionais hotéis de cinco estrelas”, frisa Pedro Pinto. “Queremos dar serviço, mas também que o cliente se sinta bem, e tão à vontade como em sua casa”.

Chamando a atenção para a localização central, em frente à igreja do Corpo Santo no Cais do Sodré, “tendo ao lado o mercado da Ribeira e a Praça do Comércio, e a caminho da Baixa ou do Chiado”, o diretor do Hotel Corpo Santo conclui que “este é um hotel que vai permitir aos turistas uma vivência própria e única de Lisboa como cidade, também pelos achados arqueológicos, e é isto que nos irá diferenciar”.