Economia

Portugal perdeu 354 mil trabalhadores em seis anos

A parcela dos trabalhadores mais velhos na população ativa está a aumentar

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Balanço Entre 2011 e 2017, a população ativa potencial (ativos mais inativos entre 15 e 64 anos) encolheu 4,8%

Menos pessoas e mais velhas. É este o retrato da evolução da força de trabalho em Portugal nos últimos anos. Os dados são claros. Apesar de a recuperação no último ano — mais 59,9 mil pessoas entre o segundo trimestre de 2016 e o mesmo período de 2017, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) — atingindo os 5,2218 milhões de indivíduos, a população ativa em Portugal continua abaixo do patamar de 2014 (menos 21,7 mil pessoas). Mais ainda, entre o segundo trimestre de 2011 (ano em que começa a atual série do INE) e a mesma altura de 2017, a população ativa (que contabiliza os trabalhadores no mercado de trabalho, seja como empregados ou desempregados, segundo a definição do INE) encolheu em 236 mil pessoas.

Os números podiam ser ainda mais graves. Mas a recuperação do mercado de trabalho traduziu-se num aumento da população empregada no último ano (mais 157,9 mil pessoas) bem acima da redução da população desempregada (menos 97,9 mil pessoas). O que sinaliza que se foi buscar pessoas à inatividade e à emigração.

Perder 236 mil trabalhadores em seis anos é grave. Mas o problema é ainda maior. Se à população ativa somarmos o número de inativos entre os 15 anos e os 64 anos (que traduz, grosso modo, os inativos em idade para fazerem parte da força de trabalho), chegamos à população ativa potencial. E esta encolheu em 353,8 mil trabalhadores, para 6,9293 milhões (menos 4,8%) nos últimos seis anos.

Envelhecimento e crise

O envelhecimento populacional é estrutural na redução da população ativa. “A cada ano que passa há menos gente a entrar no mercado de trabalho”, alerta Francisco Madelino, professor do ISCTE e ex-presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Há pouco mais de uma década “entravam por ano cerca de 130 mil jovens no mercado de trabalho em Portugal. Agora, são cerca de 80 mil”, concretiza. Isto significa que, à medida que os trabalhadores mais velhos se vão reformando, não há substituição de gerações.

E é um fator que se está a agravar. No segundo trimestre de 2011, 58,4% da população ativa tinha entre 15 anos e 44 anos. Em 2017, este valor caiu para 53,8%. São menos 4,6 pontos percentuais. Em sentido inverso, a proporção de trabalhadores com idades a partir dos 45 anos aumentou de 41,6%, para 46,2%. Mais ainda, os trabalhadores com 55 anos e mais passaram de 18,4% do total, para 21,1%.

A crise económica grave, que marcou os anos do resgate a Portugal (2011 a 2014), acentuou o problema. O desemprego disparou, levando muitos jovens a emigrar e muitos desempregados a desistir de procurar um posto de trabalho, deixando de contar para os números do desemprego e também da população ativa.

Sinal disso, a população inativa entre os 15 anos e os 64 anos (que traduz, grosso modo, os inativos em idade para fazerem parte da força de trabalho) aumentou entre 2011 e 2013, atingindo um pico de 1,8757 milhões de pessoas no primeiro trimestre desse ano, altura em que a economia portuguesa bateu no fundo. Mas desde então esta população tem estado em queda. No último ano (entre o segundo trimestre de 2016 e o mesmo período de 2017), encolheu em 74,8 mil pessoas, e, nos últimos dois anos, em 95,3 mil pessoas. A redução entre 2011 e 2017 atingiu 117,5 mil pessoas.

Tudo somado, a população ativa potencial diminuiu 14,9 mil pessoas no espaço de um ano, 74,7 mil pessoas em dois anos e 353,8 mil pessoas entre o segundo trimestre de 2011 e o mesmo período de 2017.

Isto significa que mesmo que aumente a taxa de atividade da população em idade ativa (15 anos e mais), que está nos 59% — um cenário plausível, já que nas mulheres (54,1%) ainda é muito inferior aos homens (64,6%) — será muito difícil a recuperação da população ativa para os níveis de 2011.

“Será muito difícil a população ativa regressar ao patamar de antes da crise”, alerta João Cerejeira, professor da Universidade do Minho. Mesmo com a recuperação da economia, “o saldo migratório, deixando de ser negativo, deve tender para nulo. Num contexto em que a evolução demográfica natural não ajuda — as camadas jovens não são suficientes para substituir os que se vão reformando — o crescimento da população ativa vai estar limitado”, remata João Cerejeira.