Economia

Retórica de guerra no Pacífico provoca rombo de 1 bilião nas bolsas

O índice mundial recuou 1,62% esta semana. As maiores quedas registaram-se na Europa e nos mercados emergentes. Índice de pânico financeiro disparou. PSI 20 perde quase 1%. Madrid tem a pior semana em 10 meses. Metais preciosos valorizam

Jorge Nascimento Rodrigues

As bolsas mundiais registaram uma queda de 1,62% esta semana, segundo o índice MSCI global. Com a capitalização mundial em quase 78 biliões de dólares (cerca de €66 biliões), segundo os dados mais recentes da World Federation of Exchanges, esta semana vermelha de agosto equivaleu a uma perda de valorização de 1260 mil milhões de dólares (1 bilião de euros). Um pouco mais do que o PIB de Espanha, a 14ª economia do mundo.

Ironia da história, este rombo registou-se na semana em que o início da mais recente crise financeira global fez dez anos. Não por causa do tóxico subprime norte-americano que, a 9 de agosto de 2007, levou o banco francês BNP Paribas a suspender três fundos de alto risco, mas por causa da geopolítica na Ásia Pacífico.

Como sublinhou, este sábado, Doug Noland, editor do "Credit Bubble Bulletim", "esta crise geopolítica iluminou um tipo de risco principal que tem sido menosprezado pelos mercados financeiros".

Europa e mercados emergentes com maiores quedas semanais

As maiores quedas semanais registaram-se na Europa e nos mercados emergentes. Os índices MSCI recuaram 2,39% para a Europa – 2,35% no caso da zona euro – e 2,29% para o grupo dos emergentes. Nos Estados Unidos, a queda semanal foi de 1,46% e no caso da Ásia Pacífico o índice para a ‘região’ perdeu 1,22%.

Na bolsa de Lisboa, o PSI 20 seguiu a tendência europeia, mas registou uma perda semanal inferior a 1%, muito menos do que a queda do índice para a zona euro. O pior desempenho na Europa registou-se na bolsa de Madrid, com o índice Ibex 35 a recuar 3,5% durante a semana, o pior resultado desde o final de outubro de 2016.

Os piores desempenhos esta semana à escala mundial verificaram-se nas bolsas de Telavive, Mumbai, Madrid, Zurique e Seul, com os principais índices a recuarem mais de 2%. Os melhores desempenhos semanais ocorreram nas bolsas da Dinamarca, Nigéria e Mongólia, com ganhos entre 1% e 9%.

Pânico financeiro disparou

O pânico financeiro disparou, particularmente no dia 10 de agosto, quando subiu 26% nos mercados da zona euro e 44,4% em Wall Street. Medido pelos índices VIX, a semana saldou-se por uma subida de quase 55% no índice associado ao índice S&P 500 de Wall Street e de quase 48% no índice relacionado com o Eurostoxx 50, das cinquenta principais cotadas da zona euro.

Na zona euro, o índice subiu de 13, a 7 de agosto, para um pico de 24 durante a manhã da sessão de sexta-feira, fechando em 19,31. No caso dos Estados Unidos, o VIX subiu de 9,93 a 7 de agosto para um máximo do ano de 17,28 durante a sessão de sexta-feira, fechando em 15,51.

Na zona euro, o máximo do ano verificou-se a 18 de abril, com o VIX a fechar em 26, quando Theresa May anunciou eleições legislativas antecipadas para junho, e as sondagens não davam, ainda, uma vitória clara de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições presidenciais em França. No dia anterior, o vice-presidente norte-americano, Mike Spence, afirmara que "a era da paciência estratégica dos EUA terminou" em relação à Coreia do Norte.

Preço da prata sobe 5%

O rombo semanal poderia ter sido maior se a bolsa de Tóquio não tivesse estado fechada na sexta-feira devido a feriado no Japão – dia da Montanha - e a trajetória descendente não tivesse sido travada em Nova Iorque no último dia da semana em virtude de os investidores estarem convencidos que a Reserva Federal norte-americana, o banco central, irá atrasar uma decisão de nova subida das taxas de juro. O facto de a inflação em julho ter subida apenas para 1,7%, abaixo das previsões, motivou esse ‘sentimento’.

Os metais preciosos registaram uma semana de subida nos preços. São encarados como ativos-refúgio em períodos de incerteza e pânico financeiros. A prata liderou a subida, com o preço da onça a subir 5%. Seguiram-se o ouro (subida de 2,4%), paládio (2,2%) e a platina (2%).

Retórica de guerra

Os mercados financeiros foram abalados pela escalada da retórica de guerra nuclear no Pacífico com a troca de declarações do presidente norte-americano Donald Trump – algumas delas, uma vez mais, via diplomacia do tweet - e Pyongyang, que ameaçou com uma operação “envolvente” ao largo da ilha de Guam, território norte-americano no Pacífico, base estratégica militar.

A intensificação de retórica bélica levou 63% dos norte-americanos a achar que “provavelmente os Estados Unidos agirão contra a Coreia do Norte nos próximos seis meses”, segundo a sondagem realizada pela Rasmussen Reports. O jornal chinês ‘Global Times’ avisou para o risco de “erros de cálculo e de guerra estratégica” por parte de Washington e Pyongyang. Já este sábado, o presidente chinês Xi Jinping pediu, num telefonema a Trump, para evitar “palavras e atos” que provoquem a "exacerbação” da tensão geopolítica na região.

"O que é preocupante é que ambos [os dois oponentes, Donald Trump e Kim Jong-un] poderão escalar para um ponto sem retorno", avisa Steven Brams, professor do Departamento de Política da Universidade de Nova Iorque ao jornal digital norte-americano "The Fiscal Times".

O período de 21 a 31 de agosto entrou no radar dos investidores em virtude de estarem agendados os habituais exercícios militares conjuntos entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul.

O Fundo Monetário Internacional considerou, na sua atualização de projeções no mês passado, que a recuperação económica mundial está "sólida" e a Organização Mundial do Comércio anunciou esta semana que o comércio internacional deverá acelerar no terceiro trimestre do ano, com o seu indicador de previsão no nível mais elevado desde abril de 2011. A geopolítica pode abalar este otimismo.