Economia

As empresas portuguesas têm de mudar de mentalidade

Nuno Fernandes, diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics, apresentou uma análise sobre o sector empresarial

José Caria

A sexta conferência Próximo Nível decorreu esta quinta-feira e debateu os desafios que as empresas vão ter de enfrentar em 2018, mas nenhum estava relacionado com o Orçamento do Estado

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

A economia portuguesa está em retoma e o próximo ano tem tudo para correr bem: o desemprego está a cair, a mão de obra qualificada está de regresso e o PIB deve 2,3% em 2018, segundo um estudo da Católica Lisbon School of Business & Economics. Mas nem por isso isso significa que as empresas, principalmente as PME, vão ter a sua vida mais facilitada. Aliás, têm inúmeros desafios pela frente e em grande parte por causa de uma má gestão e uma mentalidade antiquada.

Esta foi uma das conclusões da sexta conferência Próximo Nível, organizada pelo Expresso e pelo Banco Popular na sede do banco em Lisboa e que tinha como tema os desafios das empresas para 2018.

“As empresas portuguesas são pouco eficientes face aos standards internacionais, têm uma baixa adaptabilidade às novas realidades e a maior parte das exportações são de muito baixo valor acrescentado. Podemos dizer que o problema é do Governo, mas o Governo não gere as empresas. Temos uma má gestão nas empresas”, disse o diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics.

Melhorar a gestão das empresas é, portanto, o primeiro desafio para 2018 e para o futuro, e isso passa inevitavelmente “por mudar a mentalidade”, disse Ricardo Gonçalves Pereira, CEO da Yunit Consulting e outro dos oradores do debate desta quinta-feira.

“O típico empresário português prefere ter uma pizza pequena toda para si do que uma fatia da pizza grande, ou seja, para ter a pizza toda significa que é o único accionista e tem, por isso, poucos oportunidades de crescimento”, explicou Nuno Fernandes, acrescentando que com um único accionista as empresas tendem a recorrer mais ao financiamento bancário.

Ora, este tipo de financiamento obriga as empresas a endividarem-se e a colocarem em risco a sua operação e o seu crescimento, porque têm de pagar o empréstimo. Ou seja, não só ficam expostas às novas exigências dos bancos como estão expostas às oscilações das taxas de juro que, muitas vezes, variam consoante o rating do país.

É precisamente por isso que, segundo Nuno Fernandes Thomaz, um dos sócios fundadores da Core Capital e da Capital Restart, outro dos grandes desafios das empresas passa por recorrer a outras fontes de financiamento que não a típica banca.

Apostar na formação pode ajudar a mudar esta mentalidade mais antiquada e a tornar a gestão das empresas mais adaptável e versátil, duas qualidades que são cada vez mas importantes num mundo cada vez mais digital e em mudança constante, quase ao segundo. Mas dar estímulos e incentivos aos trabalhadores é também relevante, porque “quem faz as empresas são as pessoas”, comentou Ricardo Gonçalves Pereira.

E, foi consensual no painel do debate: as empresas portuguesas não aproveitam bem os recursos humanos que têm. “Somos do melhor que há e temos de usar bem esses recursos, mas muitos deles estão no sector público” onde não são bem aproveitados, comentou Luís Filipe Pereira, presidente da Fórum dos Administradores e Gestores de Empresas (FAE).

“Não há nada mais corrosivo que não distinguir os que fazem dos que não fazem”, rematou o ex-ministro da Saúde dos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes.