Economia

Altice. A crise de um império construído em cima de 50 mil milhões de dívida

Drahi e Armando Pereira. Agora têm menos razões para sorrir

Rui Duarte Silva

O império Altice (SFR e PT/MEO e muitas outras empresas) foi construído a crédito. Seduziu meio mundo, mas agora está em queda abrupta na Bolsa devido ao peso da dívida de 50 mil milhões de euros

Naquela altura, o Sol brilhava para os negócios da Altice e parecia correr tudo muito bem. Em março de 2015, durante uma visita oficial a Paris, o então Presidente da República Cavaco Silva convidou Armando Pereira, antigo emigrante e atual chefe do departamento de telecomunicações da Altice, para um pequeno almoço no chiquíssimo Hotel George V, nos Campos Elíseos, em Paris.

Com ele estavam mais 22 grandes empresários franceses ou de origem portuguesa, mas Armando Pereira era um dos mais importantes. Sócio do patrão da Altice, Patrick Drahi, Armando Pereira já era nessa época o patrão da portuguesa PT e foi especialmente acarinhado pela comitiva portuguesa.

O antigo emigrante é um homem discreto, de ar simples e contacto fácil. Os jornalistas portugueses que acompanhavam a visita presidencial não o conheciam e, por esse motivo, o Expresso falou com ele a sós muito facilmente no Grande Hotel. “A reunião ao pequeno almoço correu toda muito bem, pela minha parte é um prazer imenso regressar a Portugal e não estou nada arrependido do investimento que fizemos lá porque, para mim, Portugal é muito importante tanto em termos pessoais como para os negócios”, disse.

As ações do grupo caíram 61 por cento desde o passado mês de junho

Naquela altura, há mais de dois anos e meio, parecia que tudo nadava num mar de rosas para a Altice. Mas já existiam em França muitas dúvidas sobre a viabilidade da empresa, hoje multinacional, que tinha sido construída sobretudo à conta do crédito. Atualmente, a Altice parece estar a tombar numa grande depressão: as ações do grupo caíram 61 por cento desde o passado mês de junho.

A magia das operações da Altice – compras de empresas em catadupa em França e no estrangeiro – já não parece funcionar e o grande patrão, Drahi, teve de descer ao terreno, primeiro para reorganizar a direção (com demissões no topo e o reforço da posição do seu amigo português) e participar em reuniões de crise sucessivas com analistas, investidores e empregados.

Diz-se em Paris que a Altice tem argumentos para relativizar as análises pessimistas sobre a gigantesca dívida de mais de 50 mil milhões de euros porque terá negociado os seus reembolsos a taxas fixas num prazo dilatado, até 2021/22.

Mas isso não impede o impacto negativo das más notícias desde que, a dois de novembro, a empresa publicou resultados (balanços) desastrosos: desde essa data, em menos de 15 dias, a ação perdeu 38% na Bolsa.

Foto Reuters/Philippe Wojazer

Esta terça-feira, Patrick Drahi reuniu com boa parte dos empregados em França, onde a Altice controla a SFR, um dos operadores de telecomunicações mais conhecidos e que recentemente comprou em exclusivo, a preços de ouro, as transmissões TV dos mais importantes jogos de futebol (Liga dos campeões).

A reunião foi de crise porque, apesar do regresso de Drahi ao principal posto de comando da direção, o preço das ações continuava em queda na Europa e igualmente nos Estados Unidos, onde o grupo também investiu nos últimos anos. “Confiem, investimos muito, o cliente vai perceber que tem a melhor rede e, em França, no que respeita aos conteúdos, não temos dúvidas de que os fãs da Liga dos Campeões estarão todos com a SFR”, disse Drahi aos empregados.

No entanto, os funcionários franceses estão angustiados com as más notícias da Bolsa. “Depois desta reunião e das mudanças na direção, as coisas ficaram clarificadas, mas agora chegou a hora da verdade para o senhor Drahi e o seu método, porque a sanção da Bolsa deve ser levada a sério”, declarou Abdlekader Choukrane, do UNSA-SFR, principal sindicado da empresa.
Altice é hoje um grupo de grande relevo no setor das telecomunicações e dos medias (neste último campo, controla designadamente diversos canais de TV de informação permanente e jornais em França).

Em Portugal, a Altice encontra-se em processo de aquisição da televisão TVI, aguardando-se ainda a resposta formal dos reguladores ao negócios.

Na reunião de terça-feira, Drahi dirigiu-se a 10 mil assalariados franceses a quem pediu repetidamente confiança na estratégia do grupo. Tinha a seu lado Armando Pereira, chefe do departamento de telecomunicações, Alain Weil, presidente da SFR, Dexter Goei, diretor geral da Altice, e Dennis Okhijsenn, diretor financeiro.