Economia

“Estamos a trazer pessoas que estavam inativas para o mercado de trabalho, como os “inativos desencorajados”

Nuno Botelho

No dia em que o Instituto Nacional de Estatística revelou que a taxa de desemprego foi de 8,1% em 2017, Miguel Cabrita, secretário de Estado do Emprego, lembra ao Expresso que “há apenas dois anos, a Comissão Europeia e o FMI apontavam para taxas de desemprego em 2017 de 12% e 14%”

Em 2017, segundo o Instituto Nacional de Estatística, a taxa de desemprego diminuiu de 10,5% para 8,1%, o número de desempregados encolheu em 121,2 mil pessoas e a população empregada aumentou em 161,3 mil pessoas. O Expresso falou com o secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, sobre esta evolução positiva.

Os números do mercado de trabalho são a maior vitória deste governo?
São dados extremamente positivos. Basta pensar que todas as previsões que foram sendo feitas, quer pelo governo, quer por entidades internacionais, foram sendo sucessivamente revistas em favor da descida do desemprego e do aumento do emprego. Há apenas dois anos, as previsões que a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) faziam para 2017 apontavam para taxas de desemprego na ordem dos 12% e dos 14%. É bem visível o trajeto que o país fez. Temos ainda uma taxa de desemprego significativa e há muitas pessoas que procuram trabalho, há todo um caminho por fazer. Mas, quando fechamos o ano com uma taxa média anual de 8,9% e que no último trimestre já é de 8,1%, o que indicia que a trajetória ao longo do ano foi muito positiva, quando o emprego jovem cresceu no último trimestre três vezes mais do que o emprego global e, olhando para os dados anuais, mais do dobro, e o desemprego de longa duração teve também uma evolução muito positiva, são dados que nos fazem encarar com otimismo a evolução do mercado de trabalho em Portugal. E que dão razão de maneira muito expressiva às opções que foram tomadas em relação às políticas públicas. Políticas de restabelecimento da confiança, de um clima de diálogo social, de estabilidade política e de reposição de rendimentos. Também o dinamismo da economia e das empresas. Há um conjunto de fatores que, alinhados, produzem estes resultados.

A que se devem números tão favoráveis?
A este alinhamento de fatores que referia. Há evidentemente, uma enorme importância do clima de confiança e de estabilidade que se instalou na sociedade portuguesa. Ao contrário do que muitos vaticinaram. Anunciou-se o diabo, a catástrofe, o erro nas opções estratégicas que estavam a ser tomadas. Afinal, quando olhamos para os índices de confiança de empresários, de investidores e de consumidores, estão todos em máximos históricos. E houve também políticas públicas que ajudaram a criar as condições para esta evolução, para que os empresários tenham tomado decisões de investir, e para que as pessoas tenham margem para melhores rendimentos, portanto, para um comportamento do lado do consumo que também é distinto. Também nas empresas exportadoras está a crescer o emprego. Sectores como o têxtil e o calçado, para dar apenas dois exemplos, têm crescimentos significativos do emprego.

Certo é que o aumento do emprego na economia portuguesa está a bater recordes…
É o maior aumento do emprego da série estatística que temos. Um aumento anual de 3,3%, mais 150 mil pessoas só neste ano. E se olharmos para o início da legislatura, são mais 243 mil empregos. Um aumento que é superior à redução do desemprego, sinal que estamos a ter mais pessoas na população ativa, o que é importantíssimo para criar massa crítica na economia. Estamos a trazer pessoas que estavam inativas para o mercado de trabalho, como os “inativos desencorajados” (desempregados que deixaram de procurar emprego). Ainda assim, ainda estamos muito longe dos níveis pré-crise em termos de emprego global. Em 2017 ultrapassámos a fasquia dos 4 milhões e 800 mil pessoas empregadas, mas estamos ainda longe do máximo de emprego, em 2008, com cerca de 5 milhões e 100 mil pessoas.

E é possível alcançar de novo esses valores?
Por razões demográficas há uma tendência estrutural que limita o potencial de crescimento da população ativa e da população empregada, mas não há dúvida que os anos da crise foram dramáticos deste ponto de vista. Em termos de previsão era uma tendência muito lenta e os anos da crise impuseram uma descida de várias centenas de milhares de pessoas em termos de emprego. Saída de muitos jovens, saída de pessoas qualificadas, promoção da inatividade. Uma parte está a ser recuperada.