Economia

Juros em queda antecipam leilão na quarta-feira com taxa mais baixa de sempre

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam esta semana em 1,85%, um nível muito abaixo dos mais de 2% que Portugal pagou no leilão de fevereiro. Choque político em Itália não provocou contágio no mercado da dívida. BCE não antecipa o que vai fazer a partir de outubro

Jorge Nascimento Rodrigues

O cataclismo eleitoral em Itália no domingo passado não provocou uma onda de contágio negativo no mercado da dívida soberana da zona euro. Pelo contrário, no mercado secundário, os juros (yields) desceram para a maioria dos periféricos, e nomeadamente para Portugal, que anunciou para quarta-feira um leilão de dívida nas linhas de obrigações de referência a 10 e 30 anos.

Os juros das Obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos fecharam na sexta-feira em 1,851%, muito abaixo das taxas acima de 2% que o Estado teve de pagar no lançamento em janeiro daquela linha de obrigações e no primeiro leilão em fevereiro.

A manter-se a trajetória desta semana no mercado secundário, Portugal poderá fixar, no leilão de 14 de março, novos mínimos históricos nas taxas pagas aos investidores, nomeadamente na OT que vence em 2028, que serve atualmente de referência a 10 anos. Na operação sindicada de janeiro dessa linha obrigacionista, o Tesouro pagou 2,137% e no leilão de fevereiro a taxa de colocação ficou em 2,046%. O mínimo histórico nos juros em leilões de dívida a 10 anos está em 1,939% na operação realizada em novembro do ano passado.

O próprio efeito do terramoto político italiano nos juros da dívida do país foi muito limitado. Os juros subiram, apenas, dois pontos base ao longo da semana, de 2,04% para 2,06%, tendo chegado a descer numa sessão para 1,98%. Um dos traços que se mantém – em virtude do aumento do risco italiano – é um nível de juros acima dos portugueses.

Os analistas vão estar atentos aos resultados na próxima semana não só do leilão em Lisboa de obrigações na referência a 10 e 30 anos (neste caso vencem em 2045) com o objetivo de colocar entre 1000 e 1250 milhões de euros, como também das operações em Madrid (meta de €5 mil milhões) e Roma (meta de €7 mil milhões).

Draghi desvaloriza corte de frase no comunicado oficial

Um outro evento que poderia ter agitado os mercados da dívida era a reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) para discutir e decidir sobre política monetária. A reunião em Frankfurt na quinta-feira acabou por não introduzir nenhum elemento de perturbação no mercado da dívida, apesar de uma reação imediata negativa, que se revelou passageira, logo depois do presidente do banco, Mario Draghi, garantir que nada de substancial mudara.

O italiano desvalorizou a eliminação no texto do comunicado oficial de uma frase que garantia que o BCE poderia prolongar o programa de compra de ativos ou aumentar o volume mensal de aquisições, no caso de “as perspetivas passarem a ser menos favoráveis ou se as condições financeiras deixarem de ser consistentes com uma evolução no sentido de um ajustamento sustentado da trajetória de inflação”. A frase, introduzida em 2016, foi considerada obsoleta no quadro macroeconómico atual de crescimento económico na zona euro e de afastamento do risco de deflação.

O BCE não deu sinais ainda do que vai fazer a partir do final de setembro, quando termina o atual prolongamento do programa de compras (vulgo QE, do inglês quantitative easing), nem de como pensa ‘normalizar’ as taxas diretoras de juro que estão em mínimos históricos. Os analistas apontam a reunião de junho como decisiva no que toca ao futuro do QE.

BCE a caminho de deter 1/3 da dívida obrigacionista italiana e portuguesa

O QE tem sido decisivo para manter a trajetória de descida dos juros das obrigações para níveis historicamente muito baixos ou para travar qualquer subida excessiva face a eventos disruptivos (como, por exemplo, os provenientes da esfera política ou geopolítica), nomeadamente para Portugal e Itália.

No final de fevereiro, o BCE tinha adquirido, ao abrigo do QE em vigor, mais de €32 mil milhões de obrigações soberanas portuguesas e quase €334 mil milhões de títulos públicos italianos.

Em carteira, o BCE detinha, no final do ano passado, 26% da dívida direta portuguesa e 28% das obrigações italianas. Este peso inclui o stock ainda existente de títulos adquiridos pelo BCE num programa anterior conhecido pela sigla inglesa SMP, que durou entre 2010 e 2012. No caso de Portugal, o stock do SMP é ainda de €7,3 mil milhões. Para Itália é de €49,5 mil milhões, uma fatia de 54% no total de €91 mil milhões que o BCE tem em carteira herdado das compras do SMP em dívida espanhola, grega, irlandesa, italiana e portuguesa.

  • No balanço da semana, o índice mundial dos mercados de ações subiu 2,8%. Apesar do bom desempenho, ainda não recuperou da semana negra de fevereiro. Os ganhos mais elevados registaram-se esta semana para o conjunto da zona euro e em Nova Iorque. Bolsa italiana liderou subidas na zona euro. PSI 20 em Lisboa sobe 1%