Economia

Licenciados ainda esperam mais de um ano para voltar a trabalhar

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Duração média do desemprego nas pessoas com curso superior caiu de 20 para 15 meses em dois anos

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Apesar da descida do desemprego e de um curso superior facilitar o acesso ao mercado de trabalho, os licenciados desempregados ainda esperam mais de um ano para voltar a trabalhar. Mais concretamente, 15 meses, no mínimo. Era esse, no primeiro trimestre, o tempo de espera dos 69,5 mil desempregados com formação superior, segundo dados fornecidos ao Expresso pelo Instituto Nacional de Estatística a partir do inquérito ao emprego do primeiro trimestre. Estes desempregados com ‘canudo’ representavam, nos primeiros três meses do ano, 16,9% do total dos desempregados. Há dois anos, a duração média do desemprego nos licenciados era de 20 meses. Mesmo assim, o atual tempo de espera é bem menor do que o verificado em desempregados com qualificações inferiores: quem tem o ensino básico (197,9 mil) espera 29 meses e quem foi até ao secundário (142,7 mil) permanece nessa situação 19 meses. Em 2016, estes dois grupos tinham tempos de desemprego de, respetivamente, 33 meses e 24 meses.

Os dados mostram que o número de desempregados qualificados, que atingiu o seu pico em 2013 (no auge da crise), tem vindo a diminuir (ver gráfico). E que o tempo médio necessário para um qualificado regressar ao mercado de trabalho também está em queda desde 2016. Os dados do INE não pode ser dissociado do período de recessão entre 2011 e 2013 e que impulsionou a subida do desemprego nos anos que se seguiram, mas é muito diferente dos cálculos apresentados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), a pedido do Expresso, para o tempo médio de colocação de um licenciado no mercado de trabalho.

Quem são os licenciados 
desempregados?

No IEFP estavam inscritos, no primeiro trimestre do ano, apenas 53.460 desempregados. Desses, o organismo público de emprego só conseguiu colocar 2747. Um número que está em linha com a percentagem de colocações realizadas pelo IEFP em anos anteriores. Nos últimos sete anos, no balanço final de cada ano, o instituto só conseguiu uma solução de emprego para cerca de 15,8% do total de desempregados com qualificação superior que tinha inscritos.

A maior fatia dos desempregados nacionais continua a ser a dos indivíduos com qualificações até ao ensino básico e idade entre os 25 e os 34 anos, que procuram um novo emprego. Entre os desempregados qualificados, a idade e o propósito são comuns. Desde 2011, o perfil tem-se mantido constante. Variam os números. Varia a dimensão do desemprego (ver gráfico). Os dados do INE revelam que o desemprego atinge os qualificados, maioritariamente, em duas franjas etárias, a dos 25 aos 34 anos e a seguinte, dos 35 aos 44 anos. Curiosamente, os perfis qualificados, acima dos 45 anos, registam menores taxas de desemprego.

A área de qualificação dos profissionais fornece também pistas para ajudar a compreender porque demora um licenciado tanto tempo a encontrar uma nova colocação, num mercado em que as empresas até se queixam de escassez de profissionais qualificados. “A maioria destes licenciados desempregados provém de áreas mais resistentes à empregabilidade”, diz Francisco Madelino, economista e ex-presidente do Instituto Nacional de Estatística. Os números confirmam-no. Ciências sociais, comércio e direito foram até 2015 as áreas que mais desempregados qualificados concentraram, uma média anual de 35,8 mil indivíduos. Desde esse ano, são as ciências empresariais e o direito quem mais alimenta as estatísticas do desemprego qualificado, com uma média de 20,5 mil profissionais anualmente.

O economista e docente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, João Cerejeira, relembra que o cenário pode estar a mudar, já que as últimas estatísticas do INE demonstram que “a recuperação do emprego se está a fazer sobretudo à custa da diminuição do desemprego de longa duração” — que sofreu uma quebra de 6,2% desde o auge da crise — e “onde o emprego está a crescer mais é nos profissionais com qualificações acima do ensino secundário”. Desde 2013 que o efeito de substituição de indivíduos menos escolarizados por outros mais qualificados se tem acentuado, em muito devido ao custos associados ao trabalho. Contratar um profissional com mais qualificações é hoje mais barato, devido à redução progressiva dos salários à entrada.

Para Francisco Madelino, a progressiva diminuição do desemprego ajudará, naturalmente, a diminuir os tempos médios de recolocação dos desempregados licenciados no mercado de trabalho. “É de prever que a taxa de desemprego continue a descer, mas o que é realista é que não desça além dos 5% ou 6,5%”, explica o economista. Esta é a taxa de desemprego estrutural ou “natural”, a fasquia a partir da qual será difícil continuar a diminuir o desemprego. Há, contudo, mecanismos que podem ‘forçar’ uma diminuição da taxa além destes níveis, como as medidas ativas de apoio à contratação de desempregados de longa duração.

Apoios 
à contratação

O IEFP fechou a 31 de março a primeira fase de candidaturas à medida Contrato Emprego deste ano. O programa garante apoio financeiro a empregadores que celebrem contratos de trabalho sem termo ou a termo certo, por prazo igual ou superior a 12 meses, com desempregados inscritos no IEFP, com a obrigação de proporcionarem formação profissional aos trabalhadores contratados. A dotação orçamental disponível é de €15 milhões e prevê-se que a medida possa chegar a quatro mil pessoas.

O seu impacto é positivo, reconhecem os economistas. Mas com um plano de políticas ativas de emprego muito centrado na criação de oportunidades de primeiro emprego e no combate ao desemprego de longa duração, João Cerejeira teme que não se atribua a devida relevância a um aspeto muito determinante da promoção do emprego e da capacitação dos profissionais para a empregabilidade: a formação profissional. “As políticas ativas de emprego que temos são adequadas e positivas, mas é preciso fazer muito mais no campo da formação profissional”, defende.

Formar para a reconversão é para o economista vital, “numa altura em que as competências disponíveis entre os profissionais nem sempre são as que as empresas necessitam”. Francisco Madelino concorda que o combate ao desemprego também se faz por essa via e acredita que esta é uma das áreas onde o IEFP pode dar um grande contributo.