Economia

Juros da dívida portuguesa acima de 2% devido a contágio italiano

As taxas das Obrigações do Tesouro a 10 anos voltaram a galgar esta sexta-feira os 2% no mercado secundário depois dos juros italianos abrirem acima de 3,1% em máximos de mais de quatro anos. Líder do 5 Estrelas, vice-presidente do governo em Roma, afirmou querer negociar algumas “condições” do quadro da União Europeia e que dirá “não” a algumas exigências

Jorge Nascimento Rodrigues

Ao final da manhã desta sexta-feira, os juros (yields) das Obrigações do Tesouro (OT) português registavam 2,06% no mercado secundário da dívida soberana, depois das taxas para os títulos italianos terem aberto acima de 3,1%, em máximos desde abril de 2014.

O regresso a níveis acima de 2% nos juros da dívida portuguesa a 10 anos marcam um distanciamento claro em relação à trajetória descendente no custo de financiamento que levou ao pagamento a 9 de maio de 1,67%, a taxa mais baixa de sempre em leilões de OT naquele prazo.

Os juros no mercado secundário, naquele prazo, chegaram a atingir 2,18% a 29 de maio, registando um máximo desde outubro de 2017, em virtude do contágio italiano num momento em que a crise política italiana apontava para um governo de iniciativa presidencial, depois do veto do presidente Sergio Mattarella ao nome avançado para o ministério das Finanças pelo primeiro-ministro indigitado Giuseppe Conte.

A coligação entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga (ex-Liga Norte) acabou por recuar na indicação do economista eurocético Paolo Savona para as Finanças, indicando-o para o Ministério dos Assuntos Europeus, e Conte formou governo. O contágio italiano abrandou de seguida, mas a perceção dos investidores sobre a situação em Itália está sujeita ao impacto das declarações diárias dos líderes da coligação e das próximas posições nas reuniões europeias, nomeadamente a 21 de junho na reunião do Eurogrupo e na cimeira de 28 e 29 de junho.

Entretanto, o contágio espanhol reduziu-se depois da formação do governo minoritário de Pedro Sánchez ter garantido manter a política de ajustamento orçamental. As expetativas estão, agora, centradas na atuação da ministra das Finanças María Jesús Montero e na negociação da crise catalã por parte dos ministros do Interior, Negócios Estrangeiros e Administrações Territoriais.

Itália poderá “imitar” Portugal

O mercado da dívida do euro foi esta sexta-feira pressionado negativamente pelo impacto de declarações de Luigi di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas e vice-presidente do governo italiano liderado por Conte, de que tinha a intenção de renegociar com a União Europeia algumas das “condições” do quadro de regras e avançou que dirá “não” a algumas exigências.

No entanto, o jornal Wall Street Italia, na sua edição online, sublinha que o governo de Roma poderá “imitar” a estratégia “mista” (ajustamento orçamental com concessões sociais) de Mário Centeno no governo de António Costa em Lisboa. Segundo analistas da Bloomberg, Roma deverá sofrer, também, a pressão do Banco Central Europeu (BCE) que detém €345 mil milhões de obrigações italianas, adquiridas desde março de 2015, e mais €49 mil milhões em títulos comprados através do programa SMP que vigorou de 2010 a 2012.

Procurando tranquilizar os mercados, Gerry Rice, o porta-voz do Fundo Monetário Internacional declarou na quinta-feira que “em geral, estamos confiantes de que Itália implementará políticas que preservem a estabilidade, pois é do interesse do país” e recomenda “que seria importante salvaguardar as finanças públicas e aproveitar as reformas já feitas, em vez de as liquidar".

BCE deverá dar indicação do futuro do QE na próxima semana

Os investidores na zona euro estão, também, na expetativa de que o BCE dê indicações sobre o fecho do programa de compra de dívida, vulgo quantitative easing (QE, no acrónimo), na reunião de política monetária na próxima semana, a 14 de junho.

Uma sondagem da Reuters junto de 80 economistas, divulgada esta sexta-feira, indica que os especialistas se inclinam para que o QE seja descontinuado no final deste ano e que, na reunião da próxima quinta-feira, apesar da “cautela” que deverá ser mantida, o conselho dê sinais sobre o que se vai passar depois do prolongamento do programa terminar no final de setembro.

Os analistas não esperam uma paragem súbita do programa no final de setembro, apostando numa redução gradual até final do ano. Uma primeira mexida no quadro das taxas do BCE só deverá ocorrer no segundo trimestre de 2019, com uma subida da taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos de -0,4% para -0,25%. Uma alteração da taxa diretora que está em 0% só deverá acontecer no terceiro trimestre do próximo ano, com uma primeira subida para 0,1%.

As “cautelas” do BCE, e em particular o tom das intervenções de Mario Draghi na conferência de imprensa da próxima quinta-feira, são motivadas pela incerteza sobre a evolução da situação política em Itália e em Espanha e pelo risco de uma guerra comercial com os EUA.