Economia

Administração considera que chineses querem pagar pouco pelo controlo da EDP

Gestores da EDP vêem mérito na tentativa de controlo da empresa pela China Three Gorges, mas o preço proposto na oferta pública de aquisição é considerado insuficiente. Recomendação aos acionistas: não vendam

O preço oferecido "não reflecte adequadamente o valor" da empresa e "o prémio implícito na oferta é baixo" em comparação com "a prática seguida no mercado Europeu das utilities nas situações onde existiu aquisição de controlo". Este é o veredicto do conselho de administração da EDP sobre a oferta pública de aquisição lançada a 11 de maio passado pela China Three Gorges (CTG), que visa a obtenção do controlo da empresa a partir de uma posição atual correspondente a 23,27% do respetivo capital social.

No relatório do órgão de gestão da EDP comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários ao início da madrugada deste sábado, a administração liderada por António Mexia analisa as condições propostas pelos investidores chineses e conclui não poder recomendar "que os acionistas vendam as suas ações ao preço atualmente oferecido". As condições da operação prevêem uma contrapartida de 3,26 euros por cada título da empresa, "correspondendo a um prémio de 4,8% em relação ao preço de fecho da acção da EDP na data do Anúncio Preliminar" e a um "prémio de 10,8% e 7,9% sobre o preço médio ponderado pelo volume das acções nos 6 e 12 meses, respectivamente", assinala o documento.

Perante estes dados, os gestores são da opinião que o preço proposto pela CTG "subavalia a EDP tendo em conta os prémios pagos em ofertas públicas precedentes em dinheiro para aquisição de controlo", além de que "o prémio implícito no preço oferecido encontra-se significativamente abaixo do que é a prática em transacções em dinheiro no sector europeu das utilities". O relatório sublinha, também, que a contrapartida oferecida é inferior ao preço que a China Three Gorges comprou uma posição minoritária no capital da empresa durante a operação de privatização realizada em 2011, embora tenha havido, entretanto, "uma melhoria significativa do contexto macroeconómico e de mercado".

Apesar das reservas manifestadas quanto aos valores que a CTG está disposta a pagar para alcançar 50% dos direitos de voto na EDP acrescidos de um, o conselho de administração diz constatar que "há mérito nas intenções estratégicas" dos investidores chineses. Mas adianta que existem incertezas "em relação à implementação das intenções do oferente e do potencial impacto na EDP", pelo que "procurará obter mais informação (...) para estar em condições de formar uma opinião mais fundamentada sobre a qualidade do projecto".

EDP Renováveis. Chineses querem desconto

O eventual sucesso da CTG na corrida ao controlo da EDP terá como consequência a mudança de acionista dominante na participada EDP Renováveis (EDPR). Esta circunstância torna obrigatório, por lei, o lançamento de uma oferta pública de aquisição sobre a empresa de energias renováveis em que a casa-mãe do grupo detém 82,6% do capital. Também neste caso, o conselho de administração é crítico sobre a contrapartida que foi colocada sobre a mesa, no valor de 7,33 euros por ação.

O relatório do órgão de gestão da EDPR refere que o preço representa "um desconto de 6,6% em vez de um prémio relativamente ao preço de fecho da ação antes do Anúncio Preliminar", que estava em 7,85 euros, e "um desconto de 6,5% em relação aos preços alvo dos analistas de Equity Research". A administração argumenta, ainda, existir "um desconto relativamente aos múltiplos de empresas cotadas comparáveis" e um desconto, também, "relativamente a ofertas comparáveis no setor das renováveis na Europa, para aquisição de participação minoritária".

O documento assinala que a EDP Renováveis "é o ativo mais representativo da EDP, representando 39% do EBITDA recorrente de 2017" do grupo energético e que "um desfecho positivo tanto no caso da oferta [sobre a EDPR] como no caso da oferta EDP envolveria a aquisição da EDP Renováveis sem a incorporação de um prémio" para os seus acionistas minoritários.

  • O processo 184/12

    Ao inaugurar a nova sede da EDP, em 2015, António Mexia ganhou um gabinete com vista para o Tejo. Do seu sétimo andar, respirando sobre Lisboa, o gestor nem imaginaria que dois anos depois o seu escritório seria invadido por quatro inspetores da Polícia Judiciária