Economia

RIP Monsanto. Como um gigante engoliu outro gigante

WOLFGANG RATTAY/REUTERS

Uma das marcas mais odiadas de sempre vai desaparecer. A agroquímica Monsanto já se diluiu no universo da Bayer

O fim foi anunciado de forma seca, sem pompa nem circunstância. “O nome da companhia é e continuará a ser Bayer. Monsanto não será mais o nome de uma empresa”, assim sentenciou Werner Baumann, o presidente executivo do grupo farmacêutico alemão que, desde 2016, está enredado num longo processo de compra da agroquímica norte-americana. No início desta semana, para resolver aquele que se espera ser o último passo na concretização do negócio milionário, o grupo Bayer anunciou um aumento de capital de €6 mil milhões para financiar a aquisição da Monsanto, uma operação que representa um investimento de 66 mil milhões de dólares (perto de €56 mil milhões).

Na verdade, não deixa saudades a praticamente ninguém. É um adeus fúnebre sem glória, um RIP (rest in peace) pouco doloroso. Nas últimas décadas, a Monsanto, uma empresa agrícola fundada nos Estados Unidos, no Missouri, em 1901, habituou-se a ser odiada. Especializada em produtos agroquímicos e em biotecnologia, foi sempre alvo de contestação, sobretudo a partir da década de 70, quando lançou no mercado o Roundup, um herbicida à base de glifosato, que passou a ser aplicado das pequenas às grandes explorações agrícolas para matar as ervas daninhas. Potencialmente cancerígeno, passou a ser o ódio de estimação dos ambientalistas. A onda de antipatia contra a Monsanto haveria de crescer ainda mais quando a multinacional norte-americana começou a produzir sementes geneticamente modificadas.

O nome maldito era uma marca com elevados índices de notoriedade, ainda que pelas más razões. Lidar com as consequências do que uma única palavra encerrava seria uma tarefa hercúlea para a Bayer, a nova dona da agroquímica americana, que escolheu assim matá-la. Um gigante engoliu outro gigante.

A última barreira

Mas um nome também é só um nome. E os cientistas vão continuar a desenvolver e a inovar produtos, os marketeers a criar novas insígnias e estratégias, os advogados a trabalhar nos processos contra a agroquímica e os ambientalistas vão continuar a gritar. O rastro da Monsanto, ainda que com outra designação, é para perdurar.

Em 2017, a companhia registou um volume de vendas de 14,6 mil milhões de dólares (€12,4 mil milhões), um valor que, nos últimos anos, tem crescido à razão de mil milhões anuais, à boleia da adoção de novas tecnologias associadas ao cultivo da soja.

Agora, passa para o universo da germânica Bayer que, depois do aumento de capital anunciado, consegue financiar a compra. Esta operação de financiamento segue-se à aprovação, na semana passada, pelo Departamento de Justiça dos EUA, da aquisição da Monsanto pelo Bayer. Era o último obstáculo que faltava ultrapassar, depois de dois anos de imbróglios regulatórios, em que a companhia farmacêutica teve de deixar cair algumas operações. Entre as várias condições impostas para a concretização do negócio, por exemplo, a Bayer teve de ceder negócios no valor de 9 mil milhões de dólares (€7,6 mil milhões) à concorrente, também alemã, BASF. No ano passado, a Bayer registou vendas de €35 mil milhões.

Como lembra o “The Financial Times”, esta é a maior aquisição de um grupo alemão feito em território norte-americano desde 1998, ano em que a Daimler-Benz adquiriu a Chrysler por 38,6 mil milhões de dólares (€32,7 mil milhões, à taxa de câmbio atual).