Economia

Quem é o próximo unicórnio português?

As startups nacionais estão na mira dos investidores e há várias com potencial e resultados para chegar a unicórnio

getty

Portugal soma duas empresas no grupo restrito dos unicórnios europeus: Farfetch e, desde a passada semana, a Outsystems. Mas há outras startups nacionais na mira dos investidores e bem perto do estatuto de unicórnio.

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Um investimento de 360 milhões de dólares (cerca de 305 milhões euros) em capital de risco, patrocinados pela Goldman Sachs e pelo fundo KKR, permitiu à tecnológica Outsytems alcançar uma valorização acima dos mil milhões de dólares (858 milhões de euros) e a posicionar se como a segunda empresa portuguesa conquistar o estatuto de unicórnio. Qual será a próxima? Não parece existir grande margem para dúvidas: quatro dos cinco especialistas ouvidos pelo Expresso apontam na mesma direção, a Feedzai. Mas há outras startups em Portugal que podem competir pelo estatuto de unicórnio.

Pedro Rocha Vieira, CEO da Beta-i, Carlos Oliveira, presidente da InvestBraga e ex-secretário de Estado do Empreendedorismo, Miguel Fontes, diretor executivo da StartUp Lisboa e Maria Miguel Ferreira, diretora da Startup Portugal, apontam todos na mesma direção: o unicórnio português que se segue, depois da Farfetch (que tem raízes portuguesa mas está sedeada no Reino Unido) e da Outsystems, é a Feedzai. E há até quem questione se a empresa não terá já alcançado esse estatuto. O líder, Nuno Sebastião, não comenta.

Em fevereiro deste ano, a empresa criada há uma década por Nuno Sebastião (atual CEO e o primeiro português a entrar nos quadros da Agência Espacial Europeia), Pedro Bizarro e Paulo Marques – focada num negócio que permite às empresas financeiras combater a fraude nos pagamentos com recurso a soluções de inteligência artificial e machine learning –, estava já avaliada em cerca de 508,5 milhões de euros. Um valor que a colocava acima de quatro cotadas no PSI20 e em igualdade com os CTT. Em dez anos, a Feedzai soma mais de 200 funcionários, já obteve um total de 82 milhões de dólares em financiamento (cerca de 66,5,5 milhões de euros) e está, segundo a Forbes, entre as 50 melhores fintech do mundo. A sua tecnologia, argumenta a Forbes, concorre com sistemas como o IBM Watson, a plataforma de serviços de inteligência artificial da IBM dedicada às empresas. "A Feedzai atua num mercado muito grande e numa indústria em grande crescimento (fraude/fintech). É uma empresa com uma equipa muito boa, um bom CEO, com um produto e uma tecnologia muito forte, e tem conseguido fechar contratos e ganhar uma tração muito relevante nos últimos anos, com vários contratos plurianuais em grandes clientes", explica o líder da Beta-i, Pedro Rocha Vieira para justificar a sua escolha.

Longe do estereótipo do unicórnio

Na verdade, a Feedzai, tal como a Outsystems, não cumpre o estereótipo do típico unicórnio. Nenhuma das duas é uma empresa tecnológica em fase de lançamento (startup), o seu crescimento não foi alucinante nem repentino, mas antes ponderado e sustentado. Se tomarmos como termo de comparação o universo dos atuais 47 unicórnios europeus, em média uma startup demora sete anos a superar a fasquia dos mil milhões de dólares de valorização que lhe confere o estatuto do mítico animal. A Outsystems cnseguiu atingir este patamar 17 anos depois da sua fundação. A Feedzai está há dez anos no mercado.

Uma semelhança que para Carlos Oliveira, presidente da BragaInvest e ex-secretário de Estado do Empreendedorismo beneficia ambas as empresas, pela consistência dos seus projetos. Tal como Pedro Rocha Vieira, também para o ex-secretário de Estado do Empreendedorismo a Feedzai é a próxima na lista de potenciais unicórnios: "é uma empresa que atua numa área crítica e com um percurso muito interessante".

É esse mesmo percurso que leva Maria Miguel Ferreira, diretora da Startup Portugal, a apontar também a Feedzai como o próximo unicórnio com "sangue luso". A especialista recorda que a empresa de Nuno Sebastião já ultrapassou os 500 milhões de valorização de mercado e que "em 2016, foi a primeira empresa portuguesa a entrar no ranking do Tech Tour, índice de referência para empresas com potencial de alcançar uma avaliação de mil milhões de dólares (vulgo, unicórnio) e voltou a integrar este ranking já em 2018". A estes argumentos, Miguel Fontes, o diretor executivo da StartUp Lisboa, acrescenta outro: o líder. "A Feddzai é uma empresa reconhecidamente de referência no seu sector de atividade, com um crescimento consistente e tem uma liderança muito forte e ambiciosa", destaca.

O unicórnio que prefere ser coelho

A Feedzai, liderada por Nuno Sebastião, é apontada como o próximo unicórnio nacional

A Feedzai, liderada por Nuno Sebastião, é apontada como o próximo unicórnio nacional

Foto José Carlos Carvalho

Argumentos que não desviam o CEO da Feedzai, Nuno Sebastião do seu foco: a sustentabilidade do projeto e do negócio. O líder da Feedzai preferiu não comentar ao Expresso a sua ascensão a unicórnio, mas tornou recentemente público que não se move por isso. Num artigo de opinião publicado no "Observador", Nuno Sebastião, reconheceu que "no mundo das startups o estatuto de unicórnio vale ouro", mas diz que o que lhe interessa mesmo é ser coelho, rabbit em inglês. Ou, por outras palavras, "um Real Actual Business Building Interesting Technology – algo como um negócio factualmente real que cria tecnologia interessante", resume, destacando o termo "real". É que, na opinião do líder da Feedzai, "muitos unicórnios da tecnologia, tão míticos como o animal epónimo, não chegam a atingir o seu potencial, fazendo-nos questionar se alguma vez existiram mesmo".

Na mesma, Carlos Oliveira relembra que "não é preciso ser unicórnio para ser economicamente relevante e criar emprego". Razão pela qual, o ex-secretário de Estado do Empreendedorismo defende que mais importante do que ser reconhecido como um unicórnio é que as empresas se foquem no essencial: a sua sustentabilidade, relevância económica e criação de emprego. E argumenta: "ser reconhecido como unicórnio é bom , mas não deve ser fundamental".

Um exemplo concreto disto é o da tecnológica Shazam. A startup que permite aos utilizadores identificar conteúdos multimédia foi avaliada em mil milhões de dólares (cerca de 858 milhões de euros), tornando-se um unicórnio. Mas no final do ano passado foi comprada pela Apple por apenas 400 milhões de dólares (cerca de 339 milhões de euros), um valor muito aquém daquele que lhe conferiu o estatuto de unicórnio. A sustentabilidade do seu modelo de negócio terá estado na base das fracas receitas geradas pela Shazam que em 2016 não foi além dos 54 milhões de dólares (45 milhões de euros) de faturação.

Muitos especialistas tem feito soar os alarmes em relação à sobrevalorização das startups unicórnio, decorrente da distância entre os valores das suas avaliações e os indicadores reais de atividade das empresas, em termos de resultados. Muitas destas empresas não divulgam resultados mas, há três anos, a revista "Forbes" já dava conta de que uma boa parte dos unicórnios estavam a perder dinheiro. Um cenário que leva Carlos Oliveira a reconhecer que a Outsytems é o unicórnio com que sonham todos os investidores. Demorou 17 anos a chegar a unicórnio, mas "tem um negócio consistente, sustentável. Não é um unicórnio virtual", conclui.

Outros portugueses na corrida dos mil milhões

Entre os vários especialistas ouvidos pelo Expresso, só Adelino Costa Matos, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), aponta noutra direção que não a Feedzai quando o assunto são unicórnios. O líder da ANJE coloca na corrida a tecnológica Veniam (que desenvolve tecnologias para comunicação entre veículos), a plataforma de arrendamento universitário Uniplaces e a Talkdesk, que permite criar um call center na internet em minutos, como potenciais unicórnios nacionais. E justifica: "segundo relatório ScaleUp Portugal, da Building Global Innovators em conjunto com a EIT Digital, são as três scaleups que mais financiamento atraíram entre 2011 e 2016, recebendo perto de 70% do investimento total em startups portuguesa".

Adelino Costa Matos defende que, independentemente dos números, "são empresas que estão no radar dos investidores internacionais, devido ao seu elevado potencial de crescimento, tem modelos de negócios disruptivos, integram o sector da alta tecnologia e investem consideravelmente em inovação". E há outras. Apotoide (a loja de aplicações), a plataforma de revisão de código Codacy e a produtora de brinquedos científicos Science4you estão, segundo o presidente da ANJE e os restantes especialistas ouvidos pelo Expresso, na lista de potenciais unicórnios nacionais.