Economia

Portugueses nunca viajaram tanto em férias: uma explicação, uma surpresa e um top dos destinos mais procurados

A Tunísia, destino em forte recuperação, é um dos mais procurados pelos portugueses este verão

Foto Anis Mili/Reuters

Os portugueses estão a viajar mais para o estrangeiro, havendo destinos cuja procura está a surpreender até os agentes de viagens. Além da acessibilidade dos preços, há outro fator que ajuda a explicar o crescimento

É o pico da época alta, e os operadores turísticos constatam que os portugueses estão a viajar mais para o exterior. A Tunísia, um dos destinos em retoma e que é concorrente do Algarve, foi uma das surpresas dos agentes de viagens pela procura que gerou junto dos portugueses.

Marrocos, Cabo Verde e os chamados destinos das Caraíbas, como República Dominicana, Cuba ou Cancun, no México, são os destinos apontados este verão como os mais vendidos, e também “os mais democráticos e com preços mais apelativos” no seu segmento. Mas também é notório o crescimento nas viagens para cidades europeias, Estados Unidos, Brasil ou Ásia.

O aumento na venda de viagens em 2018 deve-se, segundo os operadores turísticos, à oferta reforçada de 'charters' que está a registar-se nos aeroportos nacionais.

“Este ano, dos que me recordo, destaca-se por ter o maior número de voos especiais à partida de Lisboa e do Porto para uma série de destinos”, salienta Nuno Mateus, vice-presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e de Turismo (APAVT), lembrando que uma maior oferta aérea dá sempre margem aos operadores para criar pacotes turísticos na sua diversidade.

Multiplicam-se os pacotes com preço-base de 500 a 800 euros para Cabo Verde

Multiplicam-se os pacotes com preço-base de 500 a 800 euros para Cabo Verde

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Cabo Verde e Marrocos: os 'best-seller'

São este verão os destinos mais populares, e também os mais económicos na relação qualidade-preço. Têm a vantagem de ser, cada um à sua maneira, exóticos, além de estarem mais próximos comparando com destinos que envolvem viagens de avião mais longas, o que naturalmente se reflete no preço. À partida, dão uma boa base para os operadores poderem trabalhar.

Cabo Verde, há muitos anos no 'top' das viagens dos portugueses, está em 2018 com a procura ainda mais aquecida - o que, segundo os agentes de viagens, se deve a “preços mais competitivos e reforço de voos especiais, sendo também um destino com hotelaria nova e animado pela procura crescente de outros turistas internacionais”.

Para a Abreu, onde se multiplicam as ofertas de viagens para este destino com preços-base na casa dos 500, 600, 700 ou 800 euros, entre quatro e sete noites, “Cabo Verde está na força da sua afirmação”, enquanto destino que responde “ao que as famílias portuguesas procuram”, em particular no período das férias escolares, mas sendo vendido o ano inteiro.

Marrocos, que não é propriamente uma novidade para os portugueses, está a ser este ano um fenómeno de vendas. No verão a tónica são destinos-resort e servidos por 'charters' como Saidia ou Agadir, mas segundo os operadores é um destino que se vende o ano inteiro, destacando-se cidades como Marraquexe, além de uma série de circuitos.

“Marrocos, que parecia um destino mais distante para os portugueses, tem crescido imenso”, nota Nuno Mateus, vice-presidente da associação portuguesa das agências de viagens (APAVT).

Marrocos, este ano com um reforço de 'charters', subiu em flecha na procura dos portugueses

Marrocos, este ano com um reforço de 'charters', subiu em flecha na procura dos portugueses

ana baião

O 'boom' da Tunísia, com pacotes na casa de 400 euros

A Tunísia, um dos destinos que vacilou e voltou este ano ao mercado a todo o gás, está a ser um fenómeno de vendas para os operadores turísticos nacionais. No caso da Soltrópico, é uma das principais apostas em 2018, e figura à cabeça das promoções anunciadas por este operador para setembro, com pacotes de sete noites para Monastir (a partir do Porto) desde 477 euros ou para Djerba (a partir de Lisboa) desde 577 euros.

O grande crescimento de vendas para a Tunísia surpreendeu os próprios operadores turísticos nacionais, num mercado “que anda numa ebulição muito grande”, como nota Alberto Machado da Abreu.

“É um destino que esteve parado e está a retomar bastante bem”, nota Nuno Mateus, vice-presidente da APAVT, chamando a atenção para os preços mais competitivos também devido ao maior volume de voos especiais à partida de Lisboa ou do Porto.

“Quando há reabertura de mercados como Turquia, Tunísia ou Egito, acaba por haver mais oferta e camas disponíveis” além de uma maior recetividade destes destinos para voos especiais e a preços mais baixos, lembra o responsável da associação das agências de viagens. “A Tunísia, ao retomar, claro que tem preços mais baratos, como Portugal já teve em períodos mais complicados”, salienta.

No caso da Turquia, este efeito não é tão visível. “Há muitos portugueses a procurar a Turquia, para Antalya ou programas com circuitos, mas não à dimensão de outros destinos que temos no mercado”, adianta Nuno Mateus. “E Portugal não tem uma ligação histórica à Turquia como tem a Alemanha, por exemplo. Num ano normal de turismo, a Alemanha emite para a Turquia 6 milhões de pessoas. À nossa escala, não nos podemos comparar”.

República Dominicana, Cuba e México, os 'campeões' a partir de 1000 euros

No campeonato das viagens mais distantes, os programas mais procurados pelos portugueses são os destinos genericamente designados por Caraíbas, como República Dominicana, Cuba ou Cancun (no México). São destinos que sempre foram procurados, mas este ano destacaram-se com crescimentos nas vendas, segundo os operadores turísticos nacionais.

Relativamente aos preços, os operadores turísticos chamam a atenção para o facto de estes poderem ter grandes variações no mesmo programa de viagens - em função da categoria do hotel escolhido, da opção por voar numa companhia regular ou em 'charter', optar pelo regime de tudo incluído, ou querer fazer passeios e circuitos a somar ao preço-base dos pacotes. É algo que no geral se aplica a todos os programas de viagens, mas tem uma expressão particular nos programas para as Caraíbas.

“No verão, em destinos a partir de 1000 euros, o cliente português gosta de ficar bem alojado. Na sua maioria prefere hotéis de quatro e cinco estrelas, e a procura das ofertas mais económicas é feita nessa perspetiva”, esclarece o responsável da APAVT, adiantando que “os portugueses quando vão para destinos de praia, e em família, preferem hotéis em regime de tudo incluído”.

Porto Santo, Açores e outros destinos nacionais em alta

Com a procura a crescer estão também destinos portugueses que envolvem deslocações de avião, à cabeça o Porto Santo, com a sua extensa praia e bem servida de resorts nas proximidades, além da envolvente natural propícia a passeios, e a hora e meia de distância do continente.

Além da praia, a envolvente natural é outro trunfo do Porto Santo

Além da praia, a envolvente natural é outro trunfo do Porto Santo

d.r.

O Porto Santo também é, para a Abreu, um dos programas mais vendidos, de forma isolada ou combinando viagens para a Madeira, que faz parte do mesmo arquipélago. Também os Açores têm tido este ano nas vendas do operador turístico “um grande crescimento, tendência que no verão se veio a consolidar”.

No caso da Soltrópico, Porto Santo é destacado entre as propostas de viagens para setembro com pacotes de sete dias a partir de 439 euros, preços promocionais aplicáveis em determinados dias (3, 7 e 10). E em julho já tinha anunciado descontos até €150 para “acompanhante”, em programas a partir de €519 por pessoa em quarto duplo, e num pacote de sete noites.

A associação portuguesa das agências de viagens reitera que o Porto Santo está a ter uma procura forte a par da Madeira e dos Açores, estando também em crescimento a venda de programas para todos os destinos nacionais, desde “o Algarve, que é um clássico”, até às regiões do Alentejo, do Centro ou do Norte, que já assumem “uma grande expressão”.

O 'boom' dos cruzeiros - no Mediterrâneo ou para ver os fiordes

A Abreu chama a atenção para o 'boom' que está a ter lugar nas viagens de cruzeiros. “Não se fala muito em cruzeiros, mas está a haver aqui um grande crescimento e temos muitos portugueses este verão a fazer viagens de cruzeiros, sobretudo no Mediterrâneo ou no norte da Europa, e neste último caso destacando dois circuitos: o Báltico e os fiordes”, adianta Alberto Machado.

O responsável da Abreu frisa que os cruzeiros “são o típico produto de reserva antecipada”. A panóplia de preços é muito vasta, e nesta altura a oferta de cruzeiros de inverno inclui programas na casa dos 300, 400 ou 500 euros.

A oferta de cruzeiros com partida e chegada a Lisboa vai ser reforçada a curto prazo com o novo terminal em Santa Apolónia, mas habitualmente envolve uma tarifa aérea (à partida de Barcelona, por exemplo) “e quanto mais cedo fizer a reserva do cruzeiro, mais barato é o preço”, enfatiza Alberto Machado, garantindo que “a venda antecipada é uma tendência que se está a alargar a outras viagens além dos cruzeiros, embora haja portugueses a fazer reservas à última hora”. O grosso das viagens de verão na Abreu é vendido na feira que promove em março (a Mundo Abreu), onde há “500 páginas de produto, com viagens em todo o mundo” e a preços promocionais.

A Disneyland Paris está com um grande crescimento até outubro nas viagens dos portugueses, segundo os operadores

A Disneyland Paris está com um grande crescimento até outubro nas viagens dos portugueses, segundo os operadores

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Europa, Brasil, São Tomé, Estados Unidos ou Ásia - tudo a subir

Além dos 'best sellers', as agências nacionais também constatam o crescimento das vendas de viagens em várias frentes. É o caso de circuitos na Europa, ou viagens isoladas para cidades europeias, como Londres, Paris, Barcelona, entre outras. “O maior mercado para os portugueses é sempre Espanha e França, o que por vezes não passa tanto pelas agências de viagens, à exceção de Canárias e Baleares”, adianta Nuno Mateus da APAVT, dando o exemplo da “Disneyland Paris, que está com um grande crescimento até outubro”.

Mas também é o caso dos Estados Unidos, onde tem havido promoções das tarifas aéreas com a oferta de voos mais alargada da TAP, ou ainda do Brasil, que já foi dos destinos mais vendidos nas férias dos portugueses e há alguns anos sofreu uma queda, coincidindo na altura em que ficou mais caro com a valorização do real face ao euro.

“O português não deixa de viajar para o Brasil, e os destinos do Nordeste continuam a ser dos seus preferidos”, nota Alberto Machado da Abreu.

O responsável da APAVT dá ainda “um grande destaque a São Tomé, que apesar de não ser um destino de grande quantidade, está com um crescimento notável e nos últimos anos no 'top 10', também pela melhoria da oferta hoteleira e já com uma série de bons hotéis no Príncipe”.

A maior procura dos portugueses por viagens para a Ásia também é enfatizada pelos operadores turísticos, em particular por a Emirates ter passado a ter dois voos diários de Lisboa para o Dubai, o que tem permitido às agências ter mais programas disponíveis para uma série de destinos como Maldivas, Tailândia ou Maurícias, além do próprio Dubai.

Embora ainda sem números consolidados, pois o verão ainda não terminou, os operadores turísticos constatam que em 2018 está a haver um aumento nas viagens dos portugueses, reforçando a tendência que já vem dos últimos anos. No primeiro trimestre as deslocações turísticas dos portugueses subiram 12,1%, para 4,5 milhões, e 10,5% destas referiram-se a viagens ao exterior, segmento que teve um crescimento mais expressivo, de 14,9%, segundo os últimos dados neste campo apurados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

“O português habituou-se a viajar”, resume Alberto Machado, da Abreu Viagens. “Se não pode viajar duas semanas viaja só uma, se o orçamento não dá para ficar num hotel de cinco estrelas vai para um de quatro. Mas viajar é, sem dúvida, um verbo cada vez mais utilizado pelos portugueses”.