Economia

Entrada em bolsa da Sonae MC fracassa

A Sonae MC tem vendas de mais de 4 mil milhões de euros, 30 mil trabalhadores e 1054 lojas

Tiago Miranda

A oferta pública de venda de 21,7 a 33% do capital da subsidiária da Sonae que concentra o negócio da distribuição já não vai acontecer. Falhanço na colocação junto de investidores instituicionais justifica o fracasso

A oferta pública de venda (OPV) da Sonae MC, que estava em curso, foi cancelada.

"A Sonae SGPS informa que, face às condições adversas nos mercados internacionais, a oferta institucional não se concretizará, o que determinará, consequentemente, a não execução da oferta pública de venda de ações da Sonae MC", refere a empresa em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

O período de subscrição terminava a 18 de outubro, mas esta sexta-feira terminava a primeira fase da subscrição das ações da empresa, sendo que os resultados da oferta seriam conhecidos na próxima semana numa sessão especial de bolsa. A negociação das ações na Bolsa estava prevista para 23 de outubro.

Na origem do fracasso da operação está, assim, o facto de a empresa não ter conseguido assegurar o interesse dos investidores institucionais, a quem estava reservada a maior fatia do capital. O momento da subscrição coincidiu com um período de turbulência nos mercados, em Portugal e no mundo. Fatores como a crise em Itália e a subida dos juros da dívida nos EUA penalizaram as bolsas. Na Ásia, os principais índices registaram mínimos de quatro anos, nos Estados Unidos, as principais praças financeiras apresentaram os níveis mais baixos dos últimos oito meses e Lisboa não foi exceção, atingiu o valor mais baixo desde abril de 2017. Hoje, em Portugal, o índice PSI-20 fechou a cair 0,82%, com a Sonae SGPS a registar uma desvalorização de 2,64%.

As ordens que os investidores já tenham dado ficam sem efeito.

Esta prometia ser a OPV do ano em Portugal e deveria permitir à Sonae MC colocar em bolsa 21,7% a 33% do seu capital, num intervalo de preço fixado entre os 1,40 euros e os 1,65 euros por ação, o que apontava para uma capitalização bolsista da empresa entre os 1,4 e os 1,65 mil milhões de euros.

Ainda hoje, numa ronda por balcões de alguns dos principais bancos nacionais na zona da Boavista, no Porto, o Expresso percebeu que a corrida às ações e a proatividade bancária nesta operação estava longe dos anos de ouro da bolsa.

A oferta previa a colocação de 217.360.000 ações ordinárias, com possibilidade de venda de uma tranche suplementar de 32.600.000, consagrando uma fatia de 5% para pequenos investidores. Mas no balcões bancários visitados não havia prospetos para entregar a potenciais investidores, nem resposta imediata a questões simples como prazos e preços da operação. Os clientes interessados na OPV contavam-se, até ao momento, pelos dedos de uma mão, foram repetindo os funcionários bancários.

Já nos sites dos bancos, a OPV aparecia em destaque, apresentada como “a oportunidade única de investir num líder (do retalho alimentar em Portugal) ”, com uma quota de mercado de 22%.

Para os analistas, a entrada da Sonae MC em bolsa , desde logo como candidata a um lugar no PSI 20 numa próxima revisão do índice, dava maior visibilidade e transparência aos negócios do grupo Sonae e permitia agarrar uma janela de oportunidade num momento em que muitos começam a destacar sinais de fim de um ciclo de crescimento económico e em que o negócio do retalho na Europa e no mundo está a mudar, sob pressão crescente das vendas digitais.

Para a Sonae, o regresso à bolsa do retalho alimentar 12 anos depois da Modelo Continente ter abandonado a Bolsa de Lisboa justificava-se pelo interesse dos investidores numa maior exposição desta área de negócio, como referiu Paulo Azevedo, presidente da Sonae SGPS, em março, na apresentação de contas do grupo, quando esta operação foi referida pela primeira vez como uma possibilidade.

Nessa altura, o assunto ia começar a ser estudado. Nove meses depois, em setembro, a Sonae SGPS anunciou a intenção de lançar uma oferta publica inicial e admissão à negociação (IPO) da sua unidade de retalho alimentar no último trimestre do ano, com um free float mínimo de 25%.

Luís Moutinho, presidente executivo da Sonae MC, referia então, em comunicado, o “ objetivo de continuar a seguir uma estratégia centrada no consumidor para sustentar um papel de crescimento e perfil de rentabilidade acima do mercado num período de forte expansão da rede de lojas”.

No dia 4 de outubro chegaram as datas e os números chave da operação, com definição do calendário de subscrição e do intervalo de preço. Mas dois dias antes tinha surgido a notícia do pedido de insolvência da sociedade S2, em Moçambique, detida em 70% pelos moçambicanos da Satya Capital e em 30% pelo grupo Sonae.

A sociedade encerrou os três supermercados que detinha em Maputo e pediu insolvência, alegando “degradação das condições económicas” no país, mas a Sonae fez saber que pelo seu lado estava disponível para financiar a sua quota-parte do negócio.

O negócio de retalho da Sonae MC inclui marcas como o Continente, Well´s, Maxmat e Go Natural entre outras. A empresa tem no seu portfólio 1054 lojas multiformato, 710 das quais são próprias e 344 franquiadas, emprega 30 mil pessoas e registou um volume de negócios de 4,055 mil milhões de euros no ano passado. No programa de fidelização, soma 3,7 milhões de utilizadores ativo. No plano de investimentos, prevê gastar 115 milhões de euros por ano em investimento de manutenção e otimização e um montante cumulativo de 260 a 280 milhões de euros em investimento para expansão entre 2019 e 2020.