Internacional

Tchernobyl chegou a Nápoles

Viatura do exército vigia um incêndio de resíduos acabado de atear

Angelo Ferrillo

Disparam os casos de crianças com cancro na área metropolitana napolitana. A Camorra (máfia local) trafica e enterra resíduos tóxicos que, quando pode, incendeia de noite

Mónica Barnabé

A pequena Giada finge entreter-se com o telemóvel, mas na verdade segue a conversa pelo canto do olho. “Saímos do hospital em dezembro e agora fazemos quimioterapia uma vez por mês”, conta a mãe, Rita Cappiello. Fala do tratamento da filha como se ela própria também o fizesse.

Giada, de seis anos, tenta resistir à doença. Outros não tiveram igual sorte: uma dezena de crianças morreu de cancro em mês e meio. E muitos mais nos últimos anos. Viviam todos na área metropolitana de Nápoles, no sul de Itália.

“Em 1991 comprámos casa em Giuliano, porque queríamos que os miúdos crescessem no campo, longe da poluição”, explica a mãe. Nessa altura ninguém imaginava que o lugar se iria converter na “terra dei fuochi”, como lhe chamam os italianos. Significa “terra dos fogos”. Outros chamam-lhe o Tchernobyl italiano.

Desde os anos 90 a Camorra [máfia napolitana] começou a depositar ali, ilegalmente, toneladas de resíduos tóxicos, procedentes de indústrias siderúrgicas, de tintas, fertilizantes, coiro e plásticos do norte de Itália. Os criminosos recolhiam os resíduos, cobrando apenas o equivalente a dez por cento do custo da respetiva eliminação pela via legal. Depois desfaziam-se desse lixo tóxico enterrando-o na província de Nápoles e na vizinha Caserta, ou queimando-o.

Daí que a zona passasse a ser denominada Terra dos Fogos. Entre os resíduos havia substâncias tão perigosas como amianto (sal mineral cancerígeno), arsénico (metaloide tóxico) ou chumbo e cádmio (metais pesados tóxicos).

Foram precisas mais de duas décadas para que o Governo reconhecesse que na área metropolitana de Nápoles, havia um grave problema. Em fevereiro de 2014 o Executivo de Matteo Renzi aprovou uma lei que estabelecia, pela primeira vez, medidas especiais para aquela zona. Atualmente há 200 militares mobilizados para Nápoles e Caserta, para tentar evitar novos incêndios de resíduos perigosos. É uma insignificância para duas províncias extensas: 80 municípios e um milhão de habitantes.

O Instituto Superior de Saúde realizou um estudo que confirma o que já era um segredo de Polichinelo: a hospitalização e mortalidade por cancro na Terra dos Fogos é 7 a 10% superior à do resto da região meridional da Campânia. A incidência de tumores disparou: mais 51% até ao ano de idade e mais 42% até aos 14.

Ainda assim, a médica Loredana Musmeci, uma das autoras do estudo, assegura que nada está demonstrado. “Os resíduos podem ser uma causa do aumento do número de tumores, mas pode haver outros fatores”. Enumera alguns: estilo de vida, hábitos alimentares... “Há que ter em conta que se trata de uma zona de baixo desenvolvimento económico, pouco emprego e escassa prevenção da parte das pessoas”.

Que maus hábitos pode ter adquirido um bebé de colo? Nesses casos, a médica admite que “a hipótese de causa-efeito” poderá ser maior, mas repete que “não há provas científicas”.

“É-me indiferente que digam que não existe qualquer relação com os resíduos. É evidente que há”, afirma categoricamente Anna Magri, que vive no município de Afragola, também na maldita Terra dos Fogos. Perdeu o seu filho Ricardo, de 22 meses. O pequeno teve leucemia com seis meses, quando Anna ainda o amamentava.

O calvário das crianças

Ricardo esteve internado mais de um ano. Fizeram-lhe um transplante de medula óssea aos 16 meses, mas acabou por falecer a 17 de novembro de 2009, depois de um calvário que Anna garante que ninguém conseguiria imaginar. Com outras mães, fundou a associação Noi Genitori di Tutti (Nós, Pais de Todos). “Quero ajudar outras famílias que agora sofrem o que eu sofri”, afirma.

“Sinto-me uma cretina”, responde Rita quando se lhe pergunta porque não leva a família e seus pertences para longe do lugar que dá cabo da saúde da sua filha Giada. “Gostava de sair, mas para onde? Aqui tenho a ajuda da minha mãe, dos amigos que tratam dos meus outros filhos enquanto estou com a Giada no hospital. O meu marido também tem aqui emprego e ninguém quereria a nossa casa nem dada. Somos prisioneiros”.

Em 2013 o Governo italiano nomeou um encarregado para o fenómeno dos resíduos na região de Campânia. “Os incêndios reduziram-se 63% na província de Caserta e 41% na de Nápoles”, indicam dados da administração regional. Não obstante, Angelo Ferrillo, ativista ambiental em Giuliano, pensa que se trata de uma cortina de fumo, literalmente falando: “Na verdade o Governo nada fez”.

Anna Magri com o retrato de Ricardo, vítima de leucemia aos seis meses

Anna Magri com o retrato de Ricardo, vítima de leucemia aos seis meses

Mónica Bernabé

Fogos fogem à estatística

Ferrillo criou o blogue ‘La Terra dei Fuochi’ em 2008, e aí regista, através de um mapa interativo, os incêndios e descargas de resíduos, a partir de alertas que recebe dos moradores. “O tráfico de resíduos do norte para o sul de Itália parou, mas agora são as empresas locais que trabalham no mercado paralelo que contaminam. Desembaraçam-se dos resíduos de forma ilegal”.

Ferrillo conta que os incêndios passaram a ser ateados de noite. “Como as pessoas estão a dormir, ninguém avisa os bombeiros. Se estes não intervêm, o fogo não fica registado em nenhuma estatística. Por isso é que dizem que diminuíram”, lastima Ferrillo.

Uma visita mostra que o perímetro municipal de Giuliano é uma autêntica lixeira. Não há apenas resíduos industriais, mas também desperdícios de todo o tipo: colchões, restos de comida, pneus... é possível encontrá-los por toda a parte.

O epidemiologista Maurizio Montella, do Instituto de Oncologia de Nápoles da Fundação Giovanni Pascale, alerta que se trata também de “um problema de educação cívica”. Esta fundação pretende recolher amostras de sangue e líquido seminal de um mínimo de 5000 habitantes da Terra dos Fogos, para verificar eventuais teores de metais pesados, arsénico ou outras substâncias cancerígenas. Assim poderá comprovar se há realmente relação entre a deposição ilegal de resíduos e o aumento dos tumores. O problema é que o resultado deste estudo só ficará disponível dentro de dois anos. E até lá? “Prevenção! A população deve sujeitar-se a exames médicos”, responde Montella. Se é que isso serve para alguma coisa.

Perder um filho aos 8 anos

“Adoeceu e partiu aos 8 anos”, resume Raffaella Arena, para explicar a rapidez com que tudo aconteceu. Também vive em Giuliano. O seu filho Francesco começou a sentir-se mal em julho de 2012 e a 21 de fevereiro de 2013 já o tinham sepultado. “Este miúdo bebe demasiada Coca-Cola”, diziam-lhe os médicos. Mas não era a Coca-Cola que provocava dores de barriga ao rapaz, antes um tumor no fígado que já era demasiado grande quando lho detetaram. Depois teve metástases nos pulmões e não se pôde fazer nada.

“O Governo não vai devolver-me o meu filho, mas quero que reconheça a sua culpa”, revolta-se outra mãe, Marzia Caccioppoli, que perdeu o pequeno Antonio, de 9 anos. “O Governo é culpado, porque sabia que estavam a depositar resíduos. Se não sabia, é culpado na mesma, porque isso mostra que não tem controlo sobre o território”, conclui Marzia.