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Ramaphosa é o sucessor de Zuma no partido e poderá sê-lo na presidência da África do Sul

Cyril Ramaphosa, líder do Congresso Nacional Africano (ANC)

MUJAHID SAFODIEN/AFP/Getty Images

Cyril Ramaphosa é vice-presidente de África do Sul desde 2014 e nas eleições de 2019 pode tornar-se no homem mais poderoso do país. Para já, foi eleito o homem-forte do ANC, o partido histórico que ajudou a reconstruir a nação depois do apartheid

O ativista anti-apartheid Cyril Ramaphosa foi eleito esta segunda-feira o novo líder do Congresso Nacional Africano (ANC), o partido sul-africano de que Nelson Mandela foi símbolo máximo.

Perto de cinco mil delegados votaram nas eleições internas do partido que reuniu entre o passado sábado e segunda-feira. O ANC está no poder desde há 23 anos, porém tem sido abalado pela sucessão de escândalos envolvendo o seu atual líder e Presidente, Jacob Zuma. Ainda com dois anos de mandato pela frente, Zuma perdeu na luta interna do partido pela liderança. Zuma apoiava a candidatura da sua ex-mulher, Nkosazana Dlamini-Zuma, antiga ministra da Saúde do governo Nelson Mandela (1994-1999), que tinha em Cyril Ramaphosa o seu maior rival.

Cyril, 65 anos, é um unionista que se transformou num abastado homem de negócios e que está na melhor posição para vir a ser o próximo Presidente da África do Sul. Atualmente é vice-presidente, cargo que ocupa desde 2014. A experiência adquirida ao ser um dos principais negociadores da transição da África do Sul para a democracia, juntamente com a atual liderança tem da Comissão Nacional de Planeamento e a vice-presidência do país desde 2014 fazem de Ramaphosa o candidato de peso que foi reconhecido na votação. Além disso, o ANC tem interesse em afastar-se dos escândalos protagonizados por Jacob Zuma e que nunca riscaram a reputação do vice-presidente.

“Hoje foi uma vitória para o ANC e para a África do Sul”, afirmou Ramaphosa na sua conta oficial do Twitter. “Iniciámos esta campanha sabendo que o trabalho a sério começa depois deste congresso. Vamos construir, renovar e reunir o ANC para melhorar a vida do nosso povo.”

Ramaphosa venceu Dlamini-Zuma pela margem mínima de 179 votos (2440 contra 2261), na votação que decorreu esta segunda-feira num centro de exposições do Soweto, Joanesburgo.

De ativista a empresário de sucesso

Ramaphosa nasceu em 1952 no Soweto, bairro a sudoeste do centro de Joanesburgo, e licenciou-se em advocacia na Universidade de Turfloop. Mais tarde, integrou e liderou a Associação de Estudantes Africana, acabou detido em várias ocasiões e concluiu a faculdade por correspondência, na Universidade da África do Sul, em Pretória.

Durante nove anos da década de 1980 foi secretário-geral da União Nacional de Mineiros, até ser eleito secretário-geral do ANC, em 1991, onde teve um papel preponderante como negociador na transição do país para a democracia. Antes das primeiras eleições democráticas de 1994, foi deputado e ajudou a redigir a nova Constituição pós-apartheid.

O seu envolvimento com o programa Black Economic Empowerment, criado para apoiar grupos marginalizados nos tempos do apartheid, sobretudo nas áreas da exploração mineira e agrícola, fez dele uma das personalidades mais ricas da África do Sul.

A sua reputação acabaria, em contrapartida, manchada pelas acusações de envolvimento no massacre de Marikana, em 2012, quando 34 mineiros foram mortos pela polícia. Ramaphosa - que à época dirigia a Lonmin, uma empresa que detinha minas de platina - pediu uma forte ação policial contra os protestos dos mineiros. Foi ilibado por uma comissão de inquérito mas não se livrou das acusações de envolvimento no processo, que ainda hoje lhe são imputadas pelo partido da oposição Economic Freedom Fighters (Combatentes pela Liberdade Económica).

No início deste ano, pediu desculpa pelos excessos de linguagem usados naquela época, mas garante que interveio para ajudar a minimizar a perda de vidas.