Internacional

Chegou, viu e venceu: Emmanuel Macron, a figura internacional de 2017

Líder Travou a dinâmica populista e juntou-se a Bloomberg e Schwarzenegger para manter os EUA no Acordo do Clima

Trata-se de um caso raríssimo na política. É jovem — fez 40 anos no passado dia 21 — e chega ao fim do ano em alta nas sondagens (52% de opiniões favoráveis).

Em apenas sete meses no Eliseu, parece muito mais coerente do que o seu predecessor, François Hollande, que o lançou na política. O antigo Presidente era demasiado contraditório: chegou ao poder a dizer que o seu inimigo era a finança. Mas fez logo a seguir o contrário: foi a um grande banco internacional de negócios (Rothschild) contratar Emmanuel Macron, primeiro para seu conselheiro, depois para seu ministro da Economia.

Era então virgem na política, mas aprendeu depressa. Em apenas dois anos, chegou ao topo do poder depois de se ter distanciado de Hollande, o que muitos viram como uma traição a quem muito devia.

Fundou a partir do nada um novo movimento político (A República em Marcha) e destruiu a oposição nas presidenciais e, semanas depois, nas legislativas. A sua vitória nas presidenciais de maio deste ano não teve apenas um significado francês: representou a inversão do ciclo até aí triunfante de vitórias de forças populistas, xenófobas e ultranacionalistas que ocorrera, quer na Europa (‘Brexit’, Polónia, Hungria) quer nos EUA (eleição de Trump).

Mostrou que era possível voltar a mobilizar o eleitorado jovem e fazer um corte com o clientelismo e os favoritismos que tinham ensombrado a carreira de Sarkozy ou de Fillon. E, uma vez eleito, revelou habilidade política para aparecer como alternativa a Trump em questões como o clima e mesmo como a nova figura de referência da reconstrução europeia.

Com a eleição de Macron e a vitória do seu partido nas legislativas, os socialistas franceses caíram nas ruas da amargura, da falência política e até financeira (andam agora a vender os palácios dourados que lhes serviam de sedes); a direita está completamente despedaçada e a crise é profunda n’Os Republicanos, onde ninguém se entende; a líder nacionalista e populista, Marine Le Pen, foi arrasada na segunda volta das presidenciais e enfrenta grandes dificuldades no seu partido, a Frente Nacional; mesmo o chefe da esquerda radical (França Insubmissa), Jean-Luc Mélenchon, foi obrigado a reconhecer que Macron tem por agora a faca e o queijo nas mãos — os apelos de Mélenchon à “resistência” não funcionaram e foi obrigado a constatar que as manifestações políticas e sindicais, contra a reforma liberalizante do Código do Trabalho ou contra o fim do Imposto sobre a Fortuna, fracassaram.

AFP

Amigo da Finança

Ao invés de Hollande, Emmanuel Macron é amigo da finança e assume-o. Diz que esta, tal como o dinheiro, não conhece fronteiras mas pode ser aliada das aspirações dos povos francês e do mundo inteiro, designadamente nos seus grandes projetos transversais para o clima.

Pretende ultrapassar desse modo os problemas que alguns governos, como o norte-americano, levantam ao Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. “Há dinheiro para novos investimentos não poluentes, a finança pode ajudar, temos de a saber utilizar”, disse, há dias. Esta afirmação levou o jornal “Libération” a fazer uma manchete com ele na capa a dizer: “Minha querida finança”.

Até há pouco tempo, afirmar alto e bom som este tipo de coisas seria visto como uma blasfémia em França, mas com Emmanuel Macron tudo parece natural e quem o ousou atacar nesse ponto não foi ouvido. Acha que a globalização veio para ficar e que a França e o mundo mudaram. Sabe, por exemplo, que até o jornal “Libération”, antigo farol do esquerdismo libertário e da esquerda não alinhada, é hoje propriedade de homens de negócios, designadamente de Patrick Drahi, patrão da Altice.

Macron não tem oposição digna desse nome em França e afirma-se também no mundo. Está a saber aproveitar bem o vazio de liderança que a Europa atravessa devido aos problemas de Angela Merkel na Alemanha e ao ‘Brexit’. Quer afirmar-se como líder europeu e também como principal contestatário de Donald Trump. Contudo, é cuidadoso: critica o Presidente norte-americano, mas ao mesmo tempo chama-o “meu amigo”; tenta ocupar o lugar de Merkel, mas fala com ela dia sim, dia não.

Trunfo da juventude

Há pouco mais de dois anos, não tinha nada, apenas um nome. Não tinha partido nem quadros e quase ninguém acreditava nele. Audaz, por vezes insolente, muito ambicioso e instintivo, lançou-se na campanha para a presidência acreditando na sua boa estrela.

Apresentou-se como o Messias que melhor podia fazer sair a França da crise e salvar a Europa do perigo do nacionalismo e do chauvinismo. Ganhou a aposta depois de ter cilindrado Marine Le Pen num espetacular debate televisivo, na segunda volta da campanha eleitoral para o Eliseu. Partiu para esta aventura dizendo “assumo o risco” e ganhou.

Um dos seus grandes trunfos é a juventude. Um exemplo: a 28 de novembro proferiu um discurso numa assembleia de estudantes na Universidade de Ouagadougou, no Burkina Faso. Iniciou-o com estas palavras: “Sou, como vocês, de uma geração que pode pronunciar discursos importantes sem, no entanto, se tomar por alguém importante”. Repetiu esta ideia da nova geração várias vezes, para se distanciar dos seus predecessores que, sem exceções, tinham conhecido a colonização africana. Para ele, referiu, a África é a liberdade, é Nelson Mandela. Poucos dias depois, voltou a martelar na mesma tecla, em Argel, onde pediu à assistência para não lhe fazer “perguntas de há vinte anos”.

Já lhe tentaram colar diversos sobrenomes, mas nenhum pegou, ao contrário de François Mitterrand, que ficou para sempre como o Presidente da esquerda caviar (adorava esta iguaria) ou de Nicolas Sarkozy que era conhecido por “bling-bling” devido à sua paixão por relógios de luxo e pelo convívio com a jet-set.

Macron já foi apelidado de Presidente dos ricos, Júpiter, Presidente-manager, Presidente-startupper, Presidente-monarca e até Presidente-filósofo, por ter escrito sobre Hegel e ter assistido o filósofo francês, Paul Ricoeur. Nenhuma alcunha o caracteriza bem e os analistas continuam à procura de um cognome que lhe cole à pele.

Até agora, deve ser sublinhado, sobretudo, que os seus passos revelam a procura de uma coerência estratégica em termos políticos e económicos, e também diplomática. Em França, está a aplicar as suas promessas eleitorais e, a nível internacional, marcou pontos no Líbano, na União Europeia, em África e na defesa do Acordo de Paris sobre o clima. Tenta também encontrar uma via que lhe permita alguma margem de manobra no Médio Oriente e na Síria.
Nestes dois últimos temas enfrenta as grandes potências e obstáculos gigantescos.

O Presidente Assad, da Síria, acusou-o de aliado do Daesh. Macron enervou-se com este ataque. No entanto, parece um homem calmo. Casado com uma mulher 24 anos mais velha, é um Presidente original que entrar no ano novo com ventos favoráveis. Em sete meses no Eliseu, conseguiu fazer passar por ultrapassados todos os partidos políticos franceses.