Internacional

Pior nem inventado, diz um livro sobre Trump como Presidente

ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/GETTY

Um relato sobre o primeiro ano do milionário na Casa Branca parece confirmar tudo o que já constava sobre caos, incompetência e lutas internas

Luís M. Faria

Jornalista

Melhor publicidade não podia haver. Na perspetiva do autor e da sua editora, a reação de Donald Trump ao livro do jornalista Michael Wolff sobre o primeiro ano do milionário na Casa Branca foi exatamente a ideal. Trump fez os seus advogados enviarem uma carta a exigir que o livro não chegasse às livrarias e que Wolff se abstivesse de publicar extratos do mesmo na imprensa. O único resultado foi a antecipação do lançamento em quatro dias, da próxima terça feira para esta sexta. Mesmo antes de estar oficialmente disponível, o livro já era número um na lista da Amazon.

Entre outros argumentos, os advogados do Presidente invocaram deveres de confidencialidade contratuais. Muitas das pessoas citadas no livro, em especial Steve Bannon, são ou foram empregados de Trump. Mas juristas ouvidos pela imprensa disseram logo que não havia a menor possibilidade de os tribunais proibirem o livro. Jamais aconteceu num caso semelhante, e não há qualquer motivo para pensar que acontecerá agora.

Trump também lembrou que Bannon foi despedido: depois de perder o emprego, perdeu a cabeça, disse o Presidente num tweet. Até recentemente, Bannon foi associado à maioria das ideias mais problemáticas de Trump, a começar pelas que têm a ver com emigração. Além de dirigir a fase final da campanha presidencial, foi o estratega político de Trump durante os meses iniciais da sua presidência, e muita gente achava que era a sua alma negra – o verdadeiro presidente, segundo a imagem transmitida no programa satírico Saturday Night Live.

Sabe-se que esse retrato enfurecia Trump, até porque ele o desmentia expressamente. Várias vezes Trump insistiu em entrevistas que Bannon tinha pouca ou nenhuma influência sobre ele. Finalmente, acabou por o despedir, aquando de uma recomposição do pessoal de topo na Casa Branca. Bannon disse na altura que ia continuar a lutar pela agenda de Trump, voltando a fazê-lo aos comandos da Breibart News. Pelos vistos, ficou mais ressentido com o tratamento recebido do que admitiu na altura.

Hábitos de recluso

“Fire and Fury: Inside the Trump White House” (Fogo e Fúria: Nos Bastidores da Casa Branca de Trump), o livro agora lançado, nasceu em circunstâncias muito particulares. No fundo, só foi possível devido ao próprio caos que descreve. Trump não esperava ganhar as eleições, e não estava minimamente preparado quando isso aconteceu. Embora Michael Wolff seja um jornalista e escritor conhecido (autor de uma importante biografia do magnata de imprensa Rupert Murdoch, por exemplo), Trump tinha uma ideia vaga dele, formada a partir de alguns artigos de opinião contra Hillary Clinton.

Quando Wolff lhe pediu acesso à Casa Branca durante alguns meses, Trump tomou isso como um pedido de emprego. Wolff explicou que a ideia era escrever um livro, mas Trump não entendeu. Na confusão geral, o jornalista acabou por ficar com um passe que lhe dava acesso a muitas áreas normalmente interditas aos membros da sua profissão. Entre elas, uma antecâmara na ala Oeste onde passavam diariamente os colaboradores de Trump, incluindo todos os mais conhecidos e muitos outros que cita anonimamente.

Acabou por passar muitas horas a falar com eles – no total, terá entrevistado cerca de 200 pessoas. O que viu e ouviu confirma o pior que já constava. Funcionários, assessores e até membros do governo e amigos de Trump são lá citados referindo-se a ele como uma pessoa de capacidades limitadas. “Idiot”, “moron” e outros termos afins são usados com liberalidade, com situações concretas frequentemente identificadas (Sean Spicer, a seguir ao seu primeiro briefing como porta-voz, diz que aquilo nem inventado). Trump não lê nada, não se consegue concentrar em nada, conta repetidamente as mesmas histórias, quase não ouve as pessoas que acha terem alguma coisa a dizer – aliás muito poucas, na sua perspetiva.

A acreditar em “Fire and Fury”, Trump não gosta da Casa Branca e dos seus constrangimentos, e não tem o menor cuidado com aquilo que diz. Recolhe-se cedo, por volta das seis e meia da tarde. Fecha-se no seu quarto (foi uma batalha para o organismo encarregue da sua segurança, o Serviço Secreto, conseguir que ele não trancasse a porta), pega num cheeseburger e instala-se em frente a três ecrãs de televisão.

Vê sobretudo a Fox News, um canal de direita que é propriedade de Murdoch, a quem telefona constantemente, como telefona a outros milionários seus amigos. Desabafa sobre as contrariedades do dia, e eles depois contam a outras pessoas. Trump, talvez sem se aperceber do seu próprio papel, queixa-se constantemente das fugas de informação.


Lutas internas... e o segredo da cabeleira

As revelações mais embaraçosas do livro são as que se referem às constantes lutas internas na Casa Branca. Jared Kushner e Ivanka Trum estiveram sempre desavindos com Bannon durante o tempo que os três coincidiram no governo. Ele chama desdenhosamente "Jarvanka" ao casal, criticando fortemente algumas decisões que Trump tomou sob a influência deles; nomeadamente, a de demitir o diretor do FBI, James Comey, por ele não encerrar a investigação sobre as ligações da campanha de Trump à Rússia. A demissão foi contraproducente, levando à nomeação de outro ex-diretor do FBI como investigador especial sobre o assunto – onde a metade masculina de "Jarvanka" poderá estar profundamente envolvido, através de ligações financeiras.

E não é só ele. Quando Trump já era presidente, foi noticiado que o seu filho mais velho, durante a campanha, tinha sido abordado por uma advogada russa que se propôs oferecer-lhe material negativo sobre a candidata democrata, Hillary Clinton. A proposta foi aceite, e Bannon relata a sua própria exasperação quando soube, considerando que, além de constituir uma atitude não patriótica e possivelmente uma traição à pátria, teria sido sensato ter advogados presentes no encontro. E já agora, avisar o FBI.

Conta ainda como o presidente orquestrou as explicações falsas que começaram por ser dadas quando esse encontro comprometedor foi revelado. Trump disse que o objetivo fora unicamente discutir o problema da adoção de crianças russas por cidadãos americanos, e que não se abordara o tema do levantamento das sanções americanas à Rússia por causa da anexação da Crimeia. Ambas as partes da explicação eram falsas, como rapidamente se tornou público. Bannon deplora o amadorismo com que tudo foi tratado pela Casa Branca.

Só isto já bastaria para enfurecer Trump. Outras revelações do livro, não sendo tão graves, hão-de ser igualmente irritantes para o presidente. Por exemplo, a de que a sua filha Ivanka (que terá ambições presidenciais ela própria) goza com o pai, explicando a estranhos como e fabricada a sua estranha cabeleira. Para que conste, o topo da cabeca será completamente calvo. O cabelo que existe nos lados é puxado para o meio, sendo espalhado a partir daí e fixado com um produto, Just for Men, que acaba por lhe dar aquela distintiva cor laranja que se tornou famosa.