Internacional

“Ou o Presidente está mal informado ou não foi bem educado”: países ofendidos reagem à alegada ofensa de Trump

Chip Somodevilla/Getty Images

O Governo do Haiti considerou tão ofensivas as palavras de Donald Trump que até já pediu esclarecimentos ao executivo norte-americano. Já o Governo de El Salvador assumiu uma postura mais contida. Só haverá reação - e eventualmente uma condenção - se se confirmar que Trump usou mesmo a expressão “países de merda”

Helena Bento

Jornalista

Para o embaixador do Haiti nos EUA, Paul Altidor, só há duas hipóteses: “ou o Presidente [Trump] está mal informado ou não foi bem educado”. Paul Altidor comentava assim as alegadas declarações de Donald Trump esta sexta-feira, durante uma reunião com legisladores na Casa Branca, em que terá usado a expressão “países de merda” para se referir a El Salvador, Haiti e várias nações africanas. A sete dias de cumprir o primeiro ano enquanto Presidente dos EUA, Trump voltou assim a chocar o mundo e, em específico, aqueles países, que começam agora a reagir às suas palavras.

Em declarações à cadeia televisiva norte-americana MSNBC, o embaixador do Haiti condenou “veementemente” as declarações “baseadas em estereótipos” de Trump, que considerou uma “agressão”, e garantiu que o seu Governo já apresentou uma petição formal ao executivo norte-americano para que explique os comentários do Presidente. Também o ex-presidente haitiano Laurent Lamothe considerou os comentários “totalmente inaceitáveis” e reveladores de “uma falta de respeito e ignorância nunca antes vistas na história recente dos EUA”.

De El Salvador, país sobre o qual se tem falado bastante nos últimos dias devido ao anúncio do fim do programa de proteção especial de que têm beneficiado perto de 200 mil cidadãos salvadorenhos, também já chegou uma reação, embora mais contida. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros salvadorenho, Hugo Martínez, é importante que se confirme se Trump proferiu ou não aquelas palavras. Isto porque terá sido um dos delegados presentes na reunião desta sexta-feira que revelou as alegadas declarações do Presidente à imprensa norte-america.

Trump, de resto, continua a negar tudo. “Nunca disse nada depreciativo sobre os haitianos, além de que o Haiti é obviamente um país pobre e com muitos problemas. Nunca disse que era preciso expulsar os haitianos do país, até porque tenho uma relação ótima com eles. Isso são invenções dos democratas”, escreveu Trump numa mensagem que partilhou no Twitter. Admitindo ter usado “uma linguagem dura” na reunião, o Presidente norte-americano reforçou: “Não usei essas palavras”.

Apesar do desmentido, tudo indica que Trump terá de facto usado a expressão referida. O próprio Raj Shah, porta-voz da Casa Branca, não desmentiu isso, num comunicado que enviou ao “New York Times”. “Enquanto alguns políticos de Washington optam por lutar por outros países, Trump optará sempre por lutar pelo povo americano. Assim como outros países têm modelos de imigração baseados no mérito, também Trump quer lutar por soluções permanentes que tornem o nosso país mais forte, acolhendo aqueles que podem contribuir para a nossa sociedade”. Durante a reunião, onde se pretendia encontrar uma alternativa aos programas de proteção especial vigentes a que Trump tem posto fim (no ano passado foi posto um ponto final nos programas de proteção para cidadãos do Haiti e de Nicarágua) - o Presidente norte-americano deu a entender que os cidadãos da Noruega, por outro lado, seriam bem-vindos no seu país.

Além de assumir uma postura mais reservada face à ausência de uma confirmação, Hugo Martínez, o ministro salvadorenho, afirmou que sempre foi “prioridade” do seu país “lutar pelo respeito e a dignidade dos nossos compatriotas, que são gente lutadora”. O ministro lembrou ainda que o responsável máximo pela obra de reconstrução do Pentágono era salvadorenho, assim como “foram os salvadorenhos que, em grande medida, ajudaram a reconstruir Nova Orleães depois do Katrina”.

Também o governo do Nepal, cujos cidadãos nos EUA beneficiam de um programa de proteção especial desde o violento terramoto que destruiu o país em 2015, optou por adiar a resposta, que disse estar ainda a ser “discutida”, explicou o ministro das Relações Externas do país, Bharat Raj Paudyal, à CNN. Da Somália, que também consta da lista de países que beneficiam de proteção, chegou uma resposta semelhante - os comentários de Trump “não são dignos de resposta”. Não porque são demasiado ofensivos, mas porque “parecem falsos”, referiu o ministro da Informação do país, Abdirahman Omar Osman, também à CNN. “Se não são reais, não precisam de resposta.”

Já a Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos (CNUDH) classificou as alegadas declarações de Trump como “racistas”. “Não há outra palavra para as descrever”, referiu um porta-voz da comissão, Rupert Colville, para quem “chamar país de merda a uma qualquer nação significa que toda a população que não seja branca não é bem-vinda”.

O porta-voz saiu também em defesa dos mexicanos e dos muçulmanos e lembrou os acontecimentos de há uns meses em Charlottesville. “As propostas políticas dirigidas a grupos inteiros por motivos religiosos ou de nacionalidade e a renúncia em condenar claramente ações antissemitas e racistas dos supremacistas brancos vão contra os valores universais do mundo.”

Também o ex-presidente do México Vicent Fox não poupou nas críticas a Trump. “A boca do presidente norte-americano é a merda mais horrível do mundo.” “Com que autoridade é que ele decide quem é ou não bem-vindo nos EUA? A grandeza dos EUA tem que ver com a diversidade”, afirmou o antigo líder mexicano no Twitter, perguntando ainda a Trump se ele “já se esqueceu das suas origens imigrantes”.