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Trump propõe oferecer cidadania a 1,8 milhões de imigrantes em troca de medidas anti-imigração e de $25 mil milhões para muro no México

Chip Somodevilla/Getty Images

União Americana para as Liberdades Civis acusa a Casa Branca de apresentar um programa “abominável que vai reduzir a imigração para níveis nunca vistos desde as quotas raciais dos anos 1920, eliminar os canais de legalização de imigrantes africanos e gastar 25 mil milhões de dólares numa barreira fronteiriça que é um desperdício”

O Presidente norte-americano apresentou na quinta-feira uma proposta para regularizar a situação de 1,8 milhões de jovens imigrantes que vivem nos Estados Unidos sem documentos, exigindo em troca disso que os legisladores do Congresso aprovem um pacote de outras medidas para limitar a imigração para o país e para obter 25 mil milhões de dólares (cerca de 20 mil milhões de euros) para financiar o muro que quer erguer na fronteira com o México.

No que a Casa Branca alegou ser uma "dramática concessão" às exigências dos democratas e um "compromisso" com o partido da oposição, Donald Trump disse estar disposto a aceitar abrir caminho à atribuição de cidadania não só aos cerca de 700 mil jovens imigrantes conhecidos como 'sonhadores' que estão abrangidos pelo programa DACA como aos restantes que podem vir a estar cobertos por esse mesmo programa — um que foi implementado por Barack Obama e que Trump prometeu anular em março deste ano; as proteções a imigrantes nele incluídas expiram já no dia 5 de fevereiro.

Em troca disso, a Casa Branca pede um investimento de 25 mil milhões para infraestruturas e tecnologia de ponta na fronteira sul dos EUA, bem como mais fundos para reforçar as equipas de agentes de imigração e de patrulhamento dessa fronteira e para acabar com o acolhimento de familiares de imigrantes legais que não sejam os seus cônjugues ou filhos menores.

A proposta também prevê a abolição do sistema de lotaria de vistos, passando a responsabilidade de atribuição de vistos a imigrantes altamente qualificados e a esses familiares mais próximos para outro departamento do governo federal.

A par disso, no que a CNN diz ser "o ponto mais contencioso" do programa de Trump, a Casa Branca pretende acabar com todas as "lacunas legais" para poder deportar mais imigrantes clandestinos, nomeadamente todos os que são oriundos de países que não fazem fronteira com os EUA. Isto deverá incluir alterações ao espectro de ação das agências de imigração, algo que os democratas dificilmente aceitarão, aponta o canal.

"Esta legislação representa um consenso bipartidário e é extremamente generosa no que toca ao DACA, cumprindo ao mesmo tempo as quatro prioridades do Presidente", disse uma fonte da Casa Branca aos jornalistas. "Este projeto-lei vai ao centro do que é a opinião pública."

A proposta surge numa altura em que está prestes a expirar o prazo para os legisladores dos dois partidos e a Casa Branca chegarem a um acordo para garantir o contínuo financiamento do governo federal, depois de este ter sido encerrado durante três dias por não haver acordo quanto ao DACA e a outros tópicos de imigração.

O programa foi imediatamente rejeitado pelos democratas e por ativistas pró-imigração, para além de ter sido criticado por republicanos que querem medidas de combate à imigração ainda mais duras. Os primeiros dizem que a administração pretende selar completamente as fronteiras do país; os segundos acusam Trump de estar a conceder "amnistia" a jovens que não merecem estar no país, pessoas hoje adultas que foram levadas para os EUA em crianças.

"É altura de queimarem os vossos chapéus #MAGA", tweetou David Krikorian, diretor-executivo do Centro de Estudos de Imigração, um think tank anti-imigração, em referência ao slogan de campanha do Presidente Trump, "Make America Great Again".

Do lado oposto, o senador democrata Dick Durbin, que tem estado no centro das disputas sobre imigração no Congresso, acusou a administração de estar a manter os 'sonhadores' "reféns" numa "cruzada para partir famílias ao meio e para desperdiçar milhares de milhões de dólares dos contribuintes americanos num muro ineficaz".

A isto, o Caucus Hispânico do Congresso, que representa a comunidade hispânica de onde é oriunda a maior parte dos imigrantes abrangidos pelo DACA, acrescentou em comunicado: "A Casa Branca está a usar os 'sonhadores' para mascarar as suas políticas xenófobas, isolacionistas e não-americanas."

Luis Gutierrez, democrata da Câmara dos Representantes, sublinhou que "os 25 mil milhões de dólares" para o muro são "um resgate em troca da libertação dos 'sonhadores'" que "não passa no teste". "Seria mais barato erguer uma estátua de cimento com 15 metros de um dedo do meio a apontar para a América Latina", acrescentou o legislador.

Em comunicado, a União Americana para as Liberdades Civis (ACLU) acusou a administração Trump de apresentar um "programa abominável para reduzir a imigração para níveis nunca vistos desde as quotas raciais dos anos 1920, para eliminar os canais de legalização de imigrantes africanos e para gastar 25 mil milhões de dólares numa barreira fronteiriça que é um desperdício".

A Casa Branca e os legisladores das duas câmaras do Congresso têm até ao início de fevereiro para alcançar um acordo sobre imigração e assim garantirem o financiamento do governo federal para impedir uma nova suspensão dos serviços públicos.