Internacional

Memorando do FBI. Cinco dias para Trump autorizar democratas a publicarem refutação

O legislador Adam Schiff é, para Donald Trump, o novo alvo democrata a abater

Win McNamee

Está a adensar-se a guerra da presidência norte-americana com as agências federais e os democratas do Congresso por causa de escutas autorizadas por um tribunal de espionagem a um ex-assessor da campanha de Donald Trump durante a corrida à Casa Branca

Os membros da comissão de serviços de informação da Câmara dos Representantes votaram na segunda-feira a favor da divulgação de um memorando da oposição que refuta formalmente as alegações dos republicanos sobre o FBI e o Departamento da Justiça terem abusado do seu poder de espionagem para vigiar um ex-assessor da campanha de Donald Trump.

O voto por unanimidade na segunda-feira teve lugar dias depois de a mesma comissão ter divulgado, com o aval do Presidente, o chamado memorando do FBI, um documento de quatro páginas compilado por Devin Nunes, legislador republicano de ascendência portuguesa que lidera a comissão, para nas suas palavras "provar" que há um preconceito anti-Trump nas agências federais norte-americanas.

Com a nova votação esta semana, Trump tem cinco dias para rever o memorando dos democratas e determinar se autoriza ou não que este seja divulgado. Antevê-se uma guerra de palavras renovada entre o Presidente e os homens que escolheu para chefiarem essas agências, a par dos democratas, caso o Presidente impeça a publicação do documento.

Ao longo das duas últimas semanas, Trump apoiou a divulgação do memorando republicano sobre o FBI, que chegou a público na sexta-feira contra as objeções da agência, do Departamento de Justiça e da oposição no Congresso. Num raro comunicado, o FBI manifestou "graves preocupações" quanto ao rigor e à veracidade do memorando Nunes imediatamente antes da sua publicação.

No sábado, ignorando novamente todas as críticas e avisos e sem uma base factual para o afirmar, Trump garantiu no Twitter que o documento republicano o "vinga totalmente", leia-se, que o iliba nas investigações à interferência da Rússia nas presidenciais de 2016 e ao alegado conluio entre a sua equipa de campanha e o Kremlin, tanto nos inquéritos a cargo do Congresso como nos que estão a ser liderados pelo conselheiro especial Robert Mueller.

Desde o início desta saga, os democratas têm acusado os aliados do Presidente de estarem a tentar minar estas investigações com um relatório questionável e que, segundo um legislador da oposição, foi alterado por Nunes já depois de ter sido aprovado na comissão. O documento de 10 páginas que os democratas pretendem agora tornar público é, sem surpresas, menos abonatório para o Presidente que o primeiro memorando.

Nele, e segundo fontes do partido minoritário, acrescenta-se contexto ao caso e são corrigidas as representações erróneas apresentadas pelos republicanos no seu memorando para criticar a decisão do FBI e do Departamento de Justiça em obter um mandado do FISA para monitorizar um ex-assessor de Trump, Carter Page, em outubro de 2016, um mês antes das eleições, já depois de Page ter viajado até à Rússia enquanto membro da campanha republicana.

Se Trump tentar bloquear a refutação democrata, as regras da Câmara dos Representantes preveem a possibilidade de o partido decidir, à porta fechada, contrariar a decisão do Presidente. Com alguns republicanos agora alinhados com os democratas a favor da segunda publicação, existe a possibilidade de este passo raro ser concretizado, o que ameaça pôr ainda mais em causa a autoridade do líder norte-americano.

"Penso que vai ser muito difícil para a Casa Branca, como foi muito difícil para os republicanos desta comissão, bloquear a publicação" do segundo memorando, sublinhou na segunda-feira Adam B. Schiff, o principal democrata da comissão de serviços de informação. Aos jornalistas, Schiff disse ainda que está "mais preocupado" com a possibilidade de Trump autorizar a divulgação do documento mas exigindo que partes do seu conteúdo sejam censuradas, algo que não fez no caso do memorando republicano.

Na segunda-feira, a Casa Branca disse que está a preparar uma revisão do documento para tomar uma decisão. "Vamos considerá-lo da mesma forma que considerámos o memorando Nunes, ou seja, vamos autorizar uma revisão legal, uma revisão de segurança nacional, pelo gabinete de aconselhamento da Casa Branca", avançou o porta-voz Raj Shah.

Também na segunda-feira, numa postura de desafio face ao pedido da comissão e de antevisão da potencial medição de forças que se aproxima, Trump lançou ataques a Schiff — e a ex-chefes das agências federais nomeados por Barack Obama — e defendeu que o legislador democrata "deve ser travado".

"O pequeno Adam Schiff, que está desesperado para se candidatar a cargos mais importantes, é um dos maiores mentirosos e delatores de Washington, ao lado de [James] Comey [ex-diretor do FBI despedido por Trump], de [Mark] Warner [outro democrata da comissão], [John] Brennan [ex-diretor da CIA na presidência Obama] e [James] Clapper [ex-diretor da Agência de Segurança Nacional]! O Adam sai de audiências da comissão à porta fechada para passar informação confidencial ilegalmente. Deve ser travado!"

Num outro tweet, também na segunda-feira de manhã, Trump elogiou Nunes, nas suas palavras um "Grande Herói Americano pelo que expôs e pelo que teve de aguentar" por causa disso. Note-se que, em março do ano passado, foi Nunes e não Schiff que foi acusado de passar informações privilegiadas do Congresso aos jornalistas, na aparente tentativa de proteger o Presidente Trump.

O "New York Times" denota que, imediatamente a seguir ao tweet de Trump sobre Schiff, houve bots — contas automáticas de Twitter como as que espalharam notícias falsas e extremaram a opinião pública nos EUA durante a campanha presidencial — a espalhar a hashtag "Pequeno Adam Schiff" na rede social.