Internacional

Trump comparado a autocratas por estar a preparar parada militar em Washington

Trump quer organizar uma parada militar em Washington desde que assistiu a um evento desses em Paris no Dia da Bastilha em julho de 2017

Chesnot

Impressionado com a marcha que Emmanuel Macron organizou em julho para comemorarem juntos o Dia da Bastilha e a entrada dos EUA na I Guerra Mundial, o Presidente norte-americano deu ordens ao Pentágono para organizar um evento semelhante, sob fortes críticas da oposição e de associações de veteranos

Donald Trump deu ordens ao Pentágono para que organize uma parada militar em Washington D.C., possivelmente a 4 de julho, o feriado nacional dos EUA, confirmou a Casa Branca na terça-feira.

"O Presidente Trump é um apoiante incrível dos grandes soldados da América que todos os dias arriscam as suas vidas para manterem este país seguro", declarou na terça-feira a porta-voz da presidência, Sarah Sanders. "Ele pediu ao Departamento de Defesa que explore uma celebração na qual todos os americanos possam demonstrar o seu apreço [pelo Exército]."

O pedido, originalmente noticiado pelo "Washington Post", foi endereçado ao Pentágono em janeiro, meio ano depois de Trump ter ficado inspirado pela marcha militar organizada em França durante a sua visita oficial ao país para celebrar o Dia da Bastilha, o feriado nacional do país, que no ano passado coincidiu com os 100 anos da entrada dos EUA na I Guerra Mundial.

Paradas desta natureza só costumam ser organizadas na capital norte-americana para assinalar a vitória dos Estados Unidos em guerras. Desta vez, e segundo fontes oficiais citadas pelo "Washington Post", "as ordens foram: 'Quero uma parada como aquela de França'", um evento que, segundo uma delas, "já está a ser preparado aos mais altos níveis do Exército".

Confirmado o desejo do Presidente, não tardaram críticas e comparações entre a sua administração e regimes autocráticos. "Fixe, é como na Coreia do Norte e na Rússia", escreveu no Twitter Richard Painter, republicano que foi conselheiro de ética do Presidente George W. Bush.

"O que vamos fazer quanto aos traidores que não aplaudirem o discurso do nosso Querido Líder?", questionou ainda, referindo-se ao facto de o Presidente ter criticado os democratas do Congresso que não aplaudiram o seu discurso sobre o Estado da União há duas semanas. "Oh meu deus, ele quer ser o Kim Jong-un", acrescentou na mesma rede social a jornalista Joy Reid.

Contexto e críticas

Em setembro, dois meses depois da sua visita a Paris, Trump já tinha sublinhado que, "em larga medida" por causa da parada a que assistiu na capital francesa, os EUA poderiam "vir a fazer alguma coisa assim no 4 de julho em Washington, na avenida Pensilvânia", uma possibilidade que, referiu à data, já estava então a ser "analisada" pelo seu governo.

Entre os que condenam os planos do Presidente contam-se associações de veteranos do Exército como a VoteYes, uma plataforma de ação política progressista criada por militares na reserva.

"Donald Trump tem demonstrado de forma consistente tendências de autoritarismo e este é só mais um exemplo preocupante disso", delcarou na terça-feira o general na reforma Paul Eaton, um dos conselheiros da VoteYes, sublinhando que, no passado, o Presidente não se coibiu de elogiar ditadores e autocratas como Saddam Hussein e Vladimir Putin. "O Exército não existe para Donald Trump usar e abusar dele. Infelizmente, neste momento não temos um comandante das tropas, temos mais um aspirante a homem forte de uma república das bananas."

Os planos de Trump estão ainda a angariar críticas por causa da quantia avultada de dólares dos contribuintes norte-americanos que terão de ser investidos na organização do evento. "Que desperdício absurdo de dinheiro!", tweetou ontem Jim McGovern, legislador democrata da Câmara dos Representantes. "Trump age mais como um ditador do que como um Presidente. Os americanos merecem melhor que isto."

À CNN, a democrata Jackie Speier, que integra a comissão de serviços armados da câmara baixa do Congresso, acrescentou: "Fiquei muito espantada com isto, para dizer a verdade. Temos um Napoleão a ser criado aqui. É mesmo um desperdício de dinheiro e penso que toda a gente devia ficar ofendida com a constante necessidade [de Trump] em mostrar-se. Não é o nosso estilo, não é a forma como fazemos as coisas."

Centenas de tropas francesas marcharam pelos Campos Elísios acompanhadas de dezenas de veículos de combate, cavalaria montada e demonstrações da Força Aérea

Centenas de tropas francesas marcharam pelos Campos Elísios acompanhadas de dezenas de veículos de combate, cavalaria montada e demonstrações da Força Aérea

Thierry Chesnot

Recorde-se que, no rescaldo da parada militar de 14 de julho nos Campos Elísios em Paris, Trump disse aos jornalistas: "Foi uma das melhores paradas a que já assisti. Vamos ter de tentar fazer melhor que isto."

Quando e quanto?

Segundo uma fonte da Casa Branca, o Pentágono ainda está numa fase de debate de ideias para organizar o evento pouco comum em países do Ocidente (Bush pai foi o último Presidente americano a convocar uma parada militar em Washington, em junho de 1991, para marcar o fim da Guerra do Golfo).

"Não conheço muitos soldados que gostem de Trump", declarou ontem o tenente-general Mark Hertling à CNN. "O Exército vai fazer o que quer que o Presidente lhe peça mas esta não é uma boa ideia para o nosso Exército. Não está na cultura do Exército dos EUA, não é isto que nós somos. A meu ver, não devia haver tanto bater no peito e excessos para mostrar o quão fortes somos."

Ainda não foi escolhida uma data para a parada, incluindo-se entre as alternativas o Memorial Day em maio, o Dia da Independência a 4 de julho ou o 11 de novembro, Dia dos Veteranos que, em 2018, vai coincidir com o 100.º aniversário do fim da I Guerra Mundial.

Segundo o "Washington Post", "o custo de destacar veículos de combate Abrams e equipamento de tecnologia de ponta para Washington pode vir a ascender aos milhões de dólares e os oficiais militares ainda não sabem como vão pagar isso". Citado pelo jornal, o porta-voz do Pentágono, Thomas Crosson, referiu ontem: "Estamos cientes do pedido [de Trump] e estamos a analisar detalhes específicos. Partilharemos mais informação ao longo do processo de planeamento."