Internacional

Homem que dizem ser responsável pelo pior massacre da guerra civil na Libéria tem de “viver e morrer com culpa”

Fotografia tirada em 1996, ano em que a guerra civil na Libéria terminou, mostra os conflitos nas ruas.

Patrick Robert - Corbis

Foi há muitos anos e noutro país, e as provas serão provavelmente insuficientes para haver uma condenação, mas os quatro sobreviventes não vão desistir. Acusam Moses Thomas, ex-coronel da antiga e temida unidade especial antiterrorismo liberiana, de ser responsável pelo maior massacre cometido durante a guerra civil da Libéria e querem que ele seja julgado. Nos EUA ou na Libéria

Helena Bento

Jornalista

As provas são poucas e o que há são sobretudo memórias, mas os quatro sobreviventes, cujos nomes a BBC, que divulgou a notícia, não revelou, têm a certeza de que foi Moses Thomas, ex-coronel da antiga e temida unidade especial antiterrorismo liberiana, um dos homens que em 1990, durante a primeira guerra civil da Libéria, ordenou a vários soldados, munidos de espingardas e facas, para matarem as pessoas que se encontravam dentro de uma igreja luterana no condado de Nimba, a cerca de 300 quilómetros da capital, Monrovia, e localizado no nordeste do país. Cerca de 600 pessoas - homens, mulheres, crianças e bebés - que haviam procurado abrigo na igreja naquela noite para evitarem cruzar-se com os rebeldes nas ruas, morreram desta forma.

Uma médica guineense que vivia naquela zona, e que foi das primeiras a entrar na igreja, logo no dia seguinte, descreveu a Elizabet Blunt, na altura correspondente da BBC na Libéria, um cenário de “horror absoluto”, com “corpos espalhados pelo chão” e “o choro de um bebé ao longe”, que era, de resto, “o único barulho que se ouvia”. Seguindo a pista do barulho, a médica terá finalmente encontrado o bebé, mas assim que pegou nele para o confortar, apercebeu-se de mais barulhos e movimentos em volta. Várias crianças apareceram então, saindo debaixo dos corpos dos seus pais mortos que lhes haviam servido de escudo quando os soldados abriram fogo sobre a igreja.

Uma dessas crianças, agora adulta, está entre o grupo de sobreviventes que deseja agora que Moses Thomas assuma ou seja obrigado a assumir as suas responsabilidades, sendo formalmente acusado e condenado. Depois da guerra civil no país, foi formada uma comissão responsável por investigar as atrocidades cometidas durante os sete anos de guerra (1989-1996) e o nome do ex-coronel até foi mencionado. A comissão recomendou aliás que ele fosse investigado, por recaírem várias acusações sobre ele, mas isso nunca aconteceu.

Moses Thomas, à semelhança de milhares de liberianos fugidos da guerra, vive agora nos EUA (estado norte-americano da Pensilvânia) ao abrigo de um programa de proteção temporário - o mesmo que tem permitido a cidadãos de países como El Salvador, Haiti, Honduras, Sudão, Síria e Iémen, entre outros, viver e trabalhar no país de forma legal - e isso complica quase tudo. Tudo ao ponto de não ser possível, pelo menos por enquanto, mover uma ação judicial contra ele, mas apenas um processo civil, que é precisamente o que está em curso.

Embora na Europa os tribunais tenham começado a ouvir casos relacionados com crimes de guerra ao abrigo da chamada “jurisdição universal”, nos EUA isso será mais difícil. Por outro lado, mesmo que Moses Thomas seja obrigado a regressar à Libéria - e não é improvável que isso aconteça visto que o programa de proteção de que beneficia terminou em maio de 2017 e não foi renovado pelo atual Presidente norte-americano, Donald Trump, tendo aqueles que dele usufruíam sido obrigados a procurar uma via alternativa de regularização para evitar serem deportados - não é certo que vá ser julgado lá. Até porque seria a primeira vez que um tribunal liberiano condenaria alguém por crimes de guerra.

Ainda assim, os sobreviventes não pretendem desistir e aguardam pelo desfecho do processo civil. Hassan Bility, diretor da organização não-governamental Global Justice and Research Project (GJRP), sediada na Libéria, está otimista em relação a isso. “Durante 27 anos, os sobreviventes deste massacre lutaram para ter justiça, mas não conseguiram. Ninguém os ouviu - nem o Governo liberiano, nem dentro nem fora da Libéria. Por isso considero este processo uma pequena vitória”, afirmou o diretor à BBC. Também Bette McCrandall, missionária norte-americana que vivia a uns metros da igreja onde se deu o massacre, em Nimba, que não esquece o barulho e as memórias daquela noite, considera isto um passo importante. “[Moses Thomas] tem de viver e morrer com culpa. O que me descansa no meio disto tudo é que este caso não foi esquecido”.

À BBC, o ex-coronel já negou tudo - disse que as alegações contra si eram “absurdas” e que se recusava a dar-lhes “qualquer crédito”. “Ninguém na minha unidade teve alguma coisa a ver com o ataque à igreja”.