Internacional

Uma missão humanitária, uma casa transformada num bordel e “orgias dignas de Calígula”

Missão da ONG Oxfam esteve no Haiti em 2011, na sequência do terramoto que abalou Port-au-Prince e que matou entre 220 mil a 300 mil pessoas

Jonathan Torgovnik / getty

Foram em missão para o Haiti mas a dada altura resolveram pagar a prostitutas para os entreter e transformar a casa numa espécie de bordel improvisado. A ONG para a qual trabalhavam, a Oxfam, que depende em grande medida dos fundos do governo britânico, soube de tudo, tal como sabia de comportamentos semelhantes em missões anteriores, mas preferiu manter o caso em segredo. “Julgávamos que não era do interesse de ninguém divulgar detalhes que só iriam atrair as atenções de uma forma extrema”, justificou Mark Goldring, diretor-executivo da organização

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Uma casa alugada no Haiti e transformada num bordel e prostitutas jovens - algumas delas alegadamente menores de idades - a quem se pedia, durante as festas que mais pareciam “orgias dignas de Calígula”, em referência ao imperador romano de quem se dizia muito apreciar ajuntamentos dessa natureza, que usassem t-shirts da organização não-governamental. Eis os pormenores do escândalo revelado este fim de semana pelo jornal britânico “The Times” e que levou à demissão, esta segunda-feira, de Penny Lawrence, diretora-geral adjunta da Oxfam, organização para a qual trabalhavam os funcionários que pagaram a prostitutas durante uma missão no Haiti em 2011, na sequência do terramoto que abalou Port-au-Prince e que matou entre 220 mil a 300 mil pessoas (os números variam).

Segundo o jornal britânico, a organização não-governamental, que recebe em fundos do Governo britânico cerca de 31 milhões de libras por ano (cerca de 35 milhões de euros) - ou seja, um quarto da percentagem do que o governo gasta por ano em ajuda externa - sabia que dois dos trabalhadores envolvidos no escândalo agora descoberto (um deles era Van Hauwermeiren, chefe de missão no Haiti) tinham já revelado uma “conduta imprópria” noutra missão da Oxfam, no Chade, em 2006. No entanto, nada fez para penalizar os funcionários, permitindo-lhes participar noutra missão humanitária. Do mesmo modo que soube o que se passou no Chade, a organização também também soube o que se passou no Haiti e até abriu uma investigação interna que levou a que quatro trabalhadores fossem despedidos e a que três apresentassem a sua demissão, entre os quais Van Hauwermeiren, de 68 anos. Este viria a arranjar emprego noutra organização similar, tendo a Oxfam garantido, porém, que não transmitiu uma avaliação positiva do antigo chefe de missão ao novo empregador.

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, Penny Lawrence, diretora-geral adjunta da ONG britânica, assumiu a sua demissão e confessou que, de facto, a organização estava a par do que acontecera no Chade, não tendo tomado as medidas adequadas. “Tenho vergonha de que isso tenho acontecido sob a minha supervisão e assumo toda a responsabilidade”, disse ainda a diretora, pedindo desculpas pelos “danos e angústia causados a quem apoia a Oxfam” e às “pessoas vulneráveis” que foram afetadas. Também Mark Goldring, diretor-executivo da ONG, admitiu à BBC que a organização deveria ter sido clara quanto às alegações de má conduta por parte dos seus trabalhadores no Haiti, especificando que se tratava de assuntos de cariz sexual. Para justificar o facto de não o ter feito, Mark Goldring disse ter julgado que “não era do interesse de ninguém” divulgar detalhes que só iriam “atrair a atenção de uma forma extrema”. O responsável manifestou ainda o seu “profundo respeito pela decisão de Penny Lawrence”, que “está destroçada e determinada a fazer o que é melhor para a Oxfam” e para as pessoas que a organização ajuda desde 1942.

Oli Scarff / getty

Comissão Europeia exige “máxima transparência e clareza”

A ONG está agora em vias de perder o financiamento do Governo britânico e das instituições públicas e empresas privadas de que depende inteiramente. No total, a organização recebe por ano cerca de 408 milhões de euros (cerca de 459 milhões de euros). A Comissão Europeia disse já esperar “máxima transparência e clareza” da organização, dizendo-se preparada para “cortar o financiamento de qualquer parceiro que não cumpra os princípios éticos estipulados”.

Também o Governo britânico já ameaçou retirar os apoios públicos a todas as organizações não-governamentais que não colaborem com as autoridades para evitar abusos sexuais por parte dos seus colaboradores. Em entrevista à BBC, Penny Mordaunt, ministra da Cooperação Internacional britânica, acusou a Oxfam de “falta de liderança moral” e sublinhou que toda a informação que a ONG tenha sobre o caso do Haiti deve ser entregue às autoridades. “Se não o fizerem, não poderei continuar a trabalhar com eles.” Uma das empresas privadas que colabora com a organização também já ameaçou cortar o financiamento caso “não sejam apresentadas garantias de que isto não voltará a acontecer”.

Michelle Russel, diretora de investigação da Comissão de Caridades britânica, organismo que regula as instituições de caridade no país, pediu uma investigação “completa” e garantiu que a comissão que dirige não estava a par “dos detalhes da investigação” interna aberta pela Oxfam após o sucedido no Haiti. “Se soubéssemos esses detalhes, teríamos lidado com isto de forma muito diferente”, afirmou em entrevista ao programa “Today”, da BBC Radio 4. A Oxfam, por sua vez, já se disse disponível para cooperar, tendo anunciado esta semana a adoção de medidas (como exames e treino mais rigoroso para novos funcionários) para evitar que casos como este voltem a acontecer - e para saber lidar melhor com eles quando ou se voltarem a acontecer. Também para mostrar que a Oxfam não compactua e não quer compactuar com atos destes, Caroline Thomson, presidente do conselho de administração da ONG, anunciou que as funções do consultor contratado no início para avaliar e rever as práticas de trabalho da organização vão agora ser alargadas.

  • Depois de noticiados vários casos de abusos sexuais e contratação de prostitutas por parte de responsáveis e trabalhadores de organizações não governamentais (ONG), a ministra da Cooperação Internacional britânica afirmou este domingo que as organizações devem colaborar “plenamente” com as autoridades, sob pena de lhes cortar o financiamento