Internacional

Colômbia. Derrota estrondosa das FARC na primeira vez que foi a votos

Uma colombiana deposita o seu voto, numa urna em Medellin

JOAQUIN SARMIENTO / AFP / Getty Images

A antiga guerrilha colombiana, com que o Governo de Bogotá celebrou o acordo de paz de 2016, participou, este domingo, nas eleições para o congresso. Os eleitores mostraram que não esquecem os seus crimes

Margarida Mota

Jornalista

Os colombianos foram a votos, este domingo, pela primeira vez desde a assinatura do acordo de paz entre o Governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a 24 de novembro de 2016, e deram a sua preferência às forças críticas a essa conquista histórica.

Em causa esteve a eleição de um novo Congresso (108 senadores e 166 deputados para a Câmara dos Representantes), num escrutínio que assinalou a participação inédita das FARC, transformadas em partido político após a conclusão do processo de desarmamento, conservando o mesmo acrónimo — Forças Alternativas Revolucionárias Comuns (FARC).

Com mais de 90% dos votos contados — os resultados finais são esperados esta segunda-feira —, os partidos conservadores de direita concentram as preferências de voto. O Centro Democrático, do ex-Presidente Álvaro Uribe — um feroz opositor ao acordo de paz —, foi o mais votado, com um total de 51 congressistas: 19 senadores e 32 deputados na câmara baixa. Álvaro Uribe foi reeleito senador.

Por força dos termos do acordo de paz, as FARC têm, à partida, 10 assentos garantidos — cinco em cada câmara legislativa —, qualquer que seja o resultado. Os parciais dizem que não deverão ir além dos 0,4% para o Senado e 0,3% para a Câmara dos Representantes.

A escassa confiança dada às FARC pelo eleitorado decorre de um sentimento predominante na sociedade colombiana segundo o qual, antes de poder ir a votos, a antiga guerrilha deveria pagar pelos crimes praticados durante 52 anos de guerra civil.

Em entrevista à BBC, publicada no domingo, o Presidente Juan Manuel Santos — que recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo acordo alcançado — reafirmou a vantagem desse histórico entendimento: “É melhor ter as FARC a fazer campanha do que a matar, a sequestrar ou a colocar bombas”.

Sem o Nobel da Paz nem “Timochenko”

Estas eleições para o Congresso são vistas como um barómetro das presidenciais que se aproximam, agendadas para 27 de maio (primeira volta) e 17 de junho (segunda volta, se necessário), e que não contará com a participação dos dois grandes protagonistas do acordo de paz.

Juan Manuel Santos, o atual Presidente, está constitucionalmente impedido de concorrer a um terceiro mandato. Já o líder das FARC, Rodrigo Londoño, o ex-guerrilheiro “Timochenko”, renunciou à corrida na quinta-feira passada, dia em que foi hospitalizado, com problemas cardíacos e pulmonares.

Num processo paralelo, este domingo, os colombianos votaram também numa espécie de primárias partidárias para escolherem os candidatos das coligações da direita e da esquerda às presidenciais de maio. À direita, o vencedor foi o “uribista” Iván Duque; à esquerda o ex-guerrilheiro e ex-presidente da Câmara de Bogotá, Gustavo Petro.

Se, como aconteceu nas eleições deste domingo para o Congresso, o “uribismo” sair vitorioso nas presidenciais de maio, o acordo de paz para a Colômbia poderá estar em causa.