Internacional

Regresso dos rohingya a Myanmar ainda é uma miragem

Uma refugiada rohingya com o filho ao colo, em Cox`s Bazar, no Bangladesh

Susana Vera/Reuters

No fim de semana circularam notícias de que uma família rohingya já teria regressado a sua casa, no estado birmanês de Rakhine. Ativistas pró-rohingya dizem que o episódio com direito a anúncio no Facebook não passou de uma encenação e que não estão reunidas as condições necessárias para regressos seguros a Myanmar

As notícias começaram a circular no sábado, depois de o Governo de Myanmar (antiga Birmânia) anunciar no Facebook que a primeira família rohingya tinha sido repatriada. Estas cinco pessoas teriam regressado ao país, vindas de Cox`s Bazar, cidade na fronteira do Bangladesh, onde estiveram refugiadas durante os últimos meses.

O único problema é que poucos acreditam na veracidade deste repatriamento, e várias ONG acreditam mesmo que não passou de uma “encenação” para levar outras famílias rohingya a regressarem voluntariamente às suas aldeias no estado de Rakhine.

A publicação naquela rede social exibia imagens da família, enquanto recebia cartões de identificação das autoridades de Myanmar, ajuda médica e alimentos. A legenda referia-se-lhes como “muçulmanos” e não como rohingya, uma vez que o país não lhes reconhece cidadania. Um líder da comunidade rohingya terá, então, confirmado à AFP o regresso da família a Myanmar.

“É uma deceção”, escreveu no domingo o Rohingya Blogger, um grupo para os direitos dos rohingya dirigido por ativistas na Europa. Segundo esta organização, os indivíduos que aparecem nas imagens divulgadas pelo Governo de Myanmar são membros da família de um dos dirigentes da aldeia de Taung Pyo Katya, um dos pontos de reentrada de refugiados no país, e não elementos da comunidade rohingya.

São perto de 700 mil os rohingya que escaparam para o Bangladesh desde o ataque do Exército de Myanmar sobre aquela minoria, queimando aldeias inteiras à sua passagem pelo estado de Rakhine, em agosto de 2017. Em dezembro do mesmo ano, o alto comissário da ONU para os direitos humanos Zeid Ra'ad al-Hussein reconheceu estes atos como “um exemplo clássico de limpeza étnica”, num discurso perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Alegações que até hoje têm sido negadas pelas autoridades de Myanmar.

Grupos de direitos humanos denunciam falta de segurança

Andrea Giorgettam, da Federação Internacional para os Direitos Humanos, disse à AFP que “antes de avançar com o repatriamento dos rohingya, o Governo de Myanmar tem de lhes reconhecer e garantir todos os direitos fundamentais”, assumindo que este anúncio de repatriamento não passou de “um exercício de relações públicas na tentativa de desviar as atenções da necessidade de se encontrarem os responsáveis pelos crimes no estado de Rakhine”.

Os refugiados que se encontram no campo de Cox`s Bazar receberam, há algumas semanas, a visita do ministro birmanês para as questões sociais, Win Myat Aye, que garantiu que o país está preparado para iniciar a repatriação.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados não concorda com o Governo birmanês e garante que “as condições em Myanmar ainda não oferecem a segurança necessária para regressos seguros, dignos e sustentáveis”, acrescentando que “a responsabilidade de criar estas condições é das autoridades birmanesas, e que estas têm de ir além da preparação de infraestruturas físicas para facilitar melhorias logísticas”.

Bill Frelick, diretor da Human Rights Watch (HRW), disse recentemente que o plano de Myanmar não poderá concretizar-se enquanto não forem estabelecidos “pré-requisitos para o regresso”, que passam pela recuperação das casas e propriedades dos rohingya, mas também pelo reconhecimento dos “crimes que os levaram a fugir” do país.

Em fevereiro, o Bangladesh publicou uma lista de mais 8000 rohingya que seriam sujeitos à repatriação, e uma segunda lista de 10 mil pessoas estará a ser preparada pelas autoridades do país. Até 1 de abril, dos 8000 referenciados apenas 600 indivíduos foram identificados pelas autoridades de Myanmar, informou a HRW.

Os rohingya, uma das minorias mais perseguidas do mundo, continuam a viver em condições sub-humanas na fronteira entre Myanmar e o Bangladesh. Ao longo de décadas, e com maior incidência em agosto passado, foram alvo de ataques dos militares birmaneses - assassínios, violações, incêndios criminosos e roubos. Os Médicos Sem Fronteiras estimam que só em agosto de 2017, 6700 rohingya terão perdido a vida.

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