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Milhares voltam às ruas da Nicarágua: já conseguiram recuo nos cortes nas pensões mas agora exigem mudanças

INTI OCON

O desassossego no país começou sensivelmente há um mês quando Ortega anunciou os cortes nas contribuições sociais. Os manifestantes ganharam a batalha e exigem agora justiça para os mortos, liberdade de expressão e acesso à informação e que o sistema eleitoral seja fiável. Grupos no terreno falam em mais de 40 mortos

Daniel Ortega queria reformar o sistema de pensões e mexer na segurança social mas acabou a comprar um guerra com o povo. É o período mais negro desde que se sentou na cadeira de Presidente da Nicarágua, em 2007. Nas últimas horas dezenas de milhares de manifestantes voltaram às ruas de Manágua, Matagalpa e Chinandega, conta a BBC.

O desassossego no país começou sensivelmente há um mês quando Ortega anunciou os cortes nas contribuições sociais. A violência tem subido de tom desde então. No dia 22 de abril o “Guardian” dava conta de 25 mortes na sequência dos protestos, incluindo a do jornalista Ángel Gahona, que foi morto enquanto fazia um direto na TV. Sensivelmente uma semana depois, o “Washington Post”, citando uma ONG direcionada para os Direitos Humanos, falava em 63 mortos - outros grupos no terreno registam “mais de 40 mortos”.

Esta quarta-feira os protestos voltaram às ruas da Nicarágua. De azul e branco, as cores da bandeira do país, os manifestantes concentraram-se em Manágua, Matagalpa e Chinandega. Um grupo reduzido de apoiantes do Governo juntou-se noutra zona da capital. Segundo o jornal local “El Nuevo Diário”, o protesto estava agendado para as duas da tarde, mas as pessoas - que se deslocaram a pé, de táxi, em camionetas e autocarros - começaram a chegar por volta do meio-dia.

“É incrível, a gente que se concentrou aqui e que continua a chegar”, disse ao jornal “El Nuevo Diário” Cándida Argüello, de 56 anos, que levava na cabeça um lenço branco e azul. “Nunca tinha visto tanta gente e algo assim sem que se deem incidentes lamentáveis.”

Quatro polícias foram baleados na quarta-feira, mas o diretor-adjunto da entidade diz que o episódio nada tem a ver com os protestos. Na quarta-feira, conta o mesmo diário, ao cair da noite registaram-se alguns incidentes menores: árvores metálicas, um símbolo do Governo, foram incendiadas. Mas não terá passado daí.

Ortega até recuou nas intenções, mas a temperatura não arrefeceu. Está por acontecer um prometido encontro entre Governo e manifestantes. A insatisfação arrancou com a segurança social e os cortes nas pensões, mas está agora a ganhar outra dimensão: os manifestantes exigem justiça para os que morreram a gritar na rua, liberdade de expressão e acesso à informação e que o sistema eleitoral seja fiável, nomeadamente o sistema de contagem de votos.

Este é o terceiro mandato de Daniel Ortega na presidência da Nicarágua.

  • Uma onda de raiva

    Começou por ser um protesto contra uma revisão no esquema de Segurança Social em vigência mas acabou por se tornar um protesto generalizado que já fez 25 mortos. Os feridos podem ser mais de uma centena. Desde que começaram os protestos na Nicarágua, há menos de uma semana, cerca 43 pessoas “desapareceram”. As pilhagens e a violência tomaram conta de algumas das principais cidades do país

  • Presidente da Nicarágua abandona mudanças na Segurança Social para conter violência no país

    Daniel Ortega voltou este domingo a falar na televisão nacional para dizer que a resolução anterior “está a ser revogada, cancelada, deixada de lado”. A legislação da discórdia, aprovada na quarta-feira, aumenta as contribuições de trabalhadores e empregadores para as pensões e reduz os benefícios gerais em 5%. Pelo menos 25 pessoas morreram e mais de 100 pessoas ficaram feridas desde que pensionistas e estudantes foram para as ruas a meio da semana passada