Internacional

Senado norte-americano conclui que Putin quis mesmo ajudar Trump a vencer as eleições

Carlos Barria / Reuters

Comité de Investigação do Senado norte-americano libertou esta quarta-feira mais de 2.000 páginas de documentos que parecem dar força à tese que a CIA e o FBI vêm defendendo desde 2017: os russos interferiram nas eleições norte-americanas de forma a ajudar Donald Trump a tornar-se Presidente dos Estados Unidos. Agora quem o diz é também é o Senado, onde os republicanos de Trump estão em maioria. A percepção de que os russos podem mesmo ter sido determinantes para o resultado das presidenciais pode prejudicar o voto republicano nas intercalares de novembro

Ana França

Ana França

Jornalista

O Comité de Investigações Secretas do Senado norte-americano, onde os republicanos estão em maioria, concluiu esta quarta-feira que os serviços de informações norte-americanos (nomeadamente a CIA e o FBI) estavam certos quando determinaram, ainda em 2017, que a Rússia de facto interferiu nas eleições presidenciais norte-americanas de forma a ajudar Donald Trump, atual Presidente dos Estados Unidos, a vencer essa eleição. O relatório está a desestabilizar o Partido Republicano, na medida em deixa clara a divisão entre "as duas câmaras". É que, em abril, os republicanos da Câmara dos Representantes tinham publicado um relatório em que diziam precisamente o contrário, que os russos não tinham tido uma interferência significativa e que a investigação à alegada ingerência deveria terminar, dado que o vice-presidente, Mike Pence, já usou para "pressionar" Robert Mueller, investigador especial do caso, a "arrumar com o assunto".

"Os nossos representantes concluíram que os serviços de informações apresentaram informação fidedigna e correta. O esforço da Rússia [para interferir nas eleições] foi extenso, sofisticado e encomendado pelo próprio presidente Putin de forma a ajudar Donald Trump e a prejudicar Hillary Clinton", disse o senador Mark Warner (democrata) numa comunicação conjunta com Richard Burr (republicano) apresentada aos jornalistas esta quarta-feira.

Seis meses depois da agora infame reunião da Torre Trump, em junho de 2016, entre membros da campanha do agora presidente e um informador russo, ficaram esta quarta-feira conhecidos outros pormenores. O intermediário entre as duas partes, que organizou a reunião, contactou o escritório de Trump já perto da data das eleições, pedindo informação sobre a reunião, sobre como tinha corrido e sobre o que se seguiria nas reuniões entre os homens de Trump e os enviados russos.

Esta é uma das provas principais utilizadas pelos senadores para apresentarem agora uma conclusão diferente dos seus colegas na Câmara dos Representantes - e está aberta a guerra sobre qual dos grupos teve acesso a fontes mais respeitáveis. O intermediário, Rob Goldstone, disse ao Comité, de acordo com as mais de 2000 páginas de documentos publicados esta quarta-feira, que tinha proposto um segundo encontro entre a advogada russa Natalia Veselnitskaya e membros da equipa de Trump e que o fez mediante pedido de Aras Agalarov, um multimilionário russo próximo do presidente Putin. Essa reunião nunca aconteceu mas a primeira foi organizada sob a premissa que Veselnitskaya teria informações incriminatórias sobre Hillary Clinton. A segunda reunião nunca aconteceu mas dados agora revelados mostram a determinação dos russos em convencer a equipa de Trump que a chamada "lei Magnitsky", que impunha sanções a alguns russos por causa de ataques aos Direitos Humanos, era um erro.

Estas revelações podem prejudicar a imagem dos republicanos quando faltam cerca de seis meses para as eleições intercalares de novembro, onde todos os assentos da Câmara de Representantes vão a votos, tal como um terço do Senado.