Internacional

“Qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa”

Fergus Bell, Coordenador do Conselho Global para a Restauração da Confiança nas Notícias

Ana França

Ana França

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Jornalista

Nuno Fox

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Fotógrafo

Em Portugal, 60% das pessoas confiam naquilo que é transmitido nas notícias, mas isso faz de nós a exceção num mundo onde cada vez menos pessoas dizem confiar no jornalismo. Para lutar contra o fenómeno das fake news, que antecede em muitos anos a chegada do ‘Brexit’ ou de Donald Trump à Casa Branca, Fergus Bell, jornalista especialista em processos de verificação de notícias, criou o Conselho Global para a Restauração da Confiança nas Notícias e considera que só em colaboração com os rivais é que os meios de comunicação se conseguirão manter relevantes.

O que é que o fez pensar que havia alguma coisa errada na perceção que o público tem da veracidade das notícias?
Eu comecei a trabalhar com verificação de notícias e desinformação durante a Primavera Árabe. Desde 2010 que trabalho nesta área, mas na altura éramos um grupo de nicho, agora toda a gente fala das ‘notícias falsas’ e da sua influência e da sua disseminação supersónica. A quantidade de informação nas redes sociais em 2010 era muito mais pequena e era servida às pessoas de forma diferente. Agora, os níveis de desconfiança estão a prejudicar todo o trabalho dos jornalistas e também a formação educacional de milhões de pessoas.

As notícias que se escreviam sobre a Síria assustaram-no particularmente?
Sim. Na Síria circulavam notícias inacreditáveis, muito danosas para ambos os lados. Escrevia-se que soldados vestiam civis com a roupa dos soldados mortos e vice-versa, que milhares de pessoas eram atiradas aos rios. Outras histórias eram apenas mirabolantes, como a de uma águia que alegadamente teria salvo um bebé dos escombros. Essas histórias têm um potencial viral incrível e temos de conseguir parar a sua progressão tanto quanto possível.

Como é que isto se tornou um fenómeno tão preponderante? As pessoas aperceberam-se de que podiam ganhar dinheiro com o conteúdo viral? É um legado da onda de populismo que se está a espalhar pelo mundo? O que é?
Acho muito perigoso atribuir o fenómeno da proliferação de conteúdos falsos ao resultado de uma eleição, em particular porque depois acabamos por tentar resolver o problema mudando o governo, e isso não resulta. As notícias falsas ficam lá na mesma. O que se passa é que hoje temos muitas plataformas que vivem da partilha constante e imediata de conteúdos e quanto mais chocantes mais lucros geram. É este o modelo de negócio das redes sociais e que muitos meios de comunicação tradicionais já adotaram. Se não há tempo de verificar, é lógico que vai circular muito conteúdo falso.

Pode fazer-se muito dinheiro com a difusão de conteúdos falsos.
Pode. Faz-se muito dinheiro com clickbaits, com ‘visualizações’, com likes e ‘partilhas’. A economia por trás do jornalismo contribuiu para isto tanto quanto a democratização do acesso aos meios de produção e difusão dos conteúdos. Qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa, isso sem dúvida é um facto disruptivo, mas as nossas responsabilidades continuam a ser as mesmas.

Podemos reverter o modelo de negócio dos clicks?
Não é possível retroceder no modelo de negócio. O que é possível é desenvolvermos cada vez mais projetos de verificação de notícias que envolvam a maioria dos meios de comunicação de determinado país, como faz o “Verificado” no México ou o “Faktisk” na Noruega.

Os meios de comunicação têm culpa em sucumbir tão facilmente a esta pressão das redes sociais ou a culpa é das redes que não verificam a veracidade dos conteúdos que publicam?
Os meios de comunicação têm o dever de resolver o problema, tenham ou não sido a sua causa primeira. Depois há o outro lado. Lá porque as plataformas sociais dizem que não são ‘empresas de comunicação social’, não quer dizer que não o sejam. Aqui temos de usar as nossas competências de fact-checking [risos]: se alguém diz que não é uma empresa de comunicação social mas caminha como uma empresa de comunicação social e veste-se como uma empresa de comunicação social, se calhar devia partilhar a responsabilidade na luta contra os conteúdos falsos, tal como fazem as empresas de comunicação social.

Afinal, como restituímos a confiança das pessoas nas notícias?
São tudo coisas difíceis de fazer, mas temos de as fazer todas, ou tudo ou nada. As redações têm de instituir rotinas que nos impeçam de cair nas armadilhas das fontes que nos tentam vender informação duvidosa. Os ‘erros honestos’ são remediáveis e não afetam muito a perceção das pessoas em relação à marca, mas quando é sistemático torna-se uma mancha na reputação. Temos de olhar para o processo de produção da notícia e incluir mais níveis de verificação a cada momento. O outro ponto é a literacia em relação aos meios de comunicação social. É preciso encorajar os jornalistas a consultar ainda mais fontes e a pesquisar ainda mais, e tens de dizer isso aos leitores também, que não acreditem em tudo, que verifiquem sempre noutro meio de informação se a informação que está a ser dada está a ser dada por vários meios.