Internacional

Esta não é a primeira vez que a Coreia do Norte promete desarmar e não cumpre. Breve história da diplomacia nuclear

Anadolu Agency/Getty

Há várias armadilhas à espera de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, em Singapura, onde vai encontrar-se com o líder norte-coreano, Kim Jong-un. Mas a principal é a História. Houve outras tentativas de aproximação que falharam, algumas vezes por culpa dos norte-coreanos outras porque interesses políticos norte-americanos dinamitaram o processo

Ana França

Ana França

Jornalista

“Em poucos segundos saberei se a nossa conversa vai ou não resultar”. Foi com esta frase que Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, arrumou o capítulo da “preparação” para o encontro com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, com o qual os jornalistas tanto o pressionaram ao longo dos últimos dias. Donald Trump considera-se um negociador nato, um investidor de visão, um analista sagaz dos seus inimigos, um homem com um instinto matemático. Mas se Donald Trump apenas está a chegar agora às maiores mesas de negociações, os vários líderes da Coreia do Norte treinam há quase 30 anos essa muito diplomática arte da dissimulação, do disfarce, da calma budista e das promessas adiadas.

Esta cimeira - a primeira entre chefes de Estado de ambos os países - continua a ser um salto no escuro porque não se conhece o estilo negocial de Kim - apenas alguma da sua impulsividade linguística - e o que se conhece de Trump é que ele podia ser a personificação do ditado português “meia bola e força”. Vários analistas duvidam que o ainda jovem Kim esteja preparado para pôr o seu arsenal nuclear em cima da mesa, à disposição das brigadas de minas e armadilhas da ONU. É possível que Kim exija, em troca de um progressivo desmantelamento do arsenal, ajuda humanitária em grande escala e um pesado travão nas sanções impostas ao reino eremita, algumas das mais pesadas de sempre. Mas este salto no escuro pode ser um salto para um sítio menos movediço do que aquele onde ambos os países estão de momento.

É que já estivemos aqui, à mesa das negociações, outras vezes, e isso não impediu que a Coreia do Norte continuasse a desenvolver armas nucleares até ao ponto de rutura que precipitou a urgência deste encontro: os norte-coreanos, tal como a imprensa sul-coreana, garantem que Kim já tem mísseis capazes de atingir cidades norte-americanas.

As lições a retirar dos outros dois acordos, um assinado em 1994 e outro em 2005, é que o problema não é tanto o de acordar as reuniões, o problema é - ou tem sido - fazer valer o que fica inscrito no papel. Donald Trump e os seus aliados consideram este um passo de gigante para a política externa norte-americana e um que só foi dado com Trump, apesar das tentativas passadas. Mas os seus opositores encontram uma razão para o “falhanço” das anteriores administrações: nenhum presidente quis encontrar-se com líderes norte-coreanos por os considerarem ditadores que durante décadas subjugaram - e subjugam - a sua população à fome e a trabalhos forçados ao jeito feudalista. Os líderes antes de Trump sempre exigiram, em primeiro lugar e sem concessões, o desarmamento. Em 1992 deu-se o primeiro encontro entre representantes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte.

Na altura o isolamento do regime era quase tão grande como o de hoje mas o declínio económico foi rápido e em força: a União Soviética, o grande financiador até então, tinha colapsado. Do outro lado tinham a China a pressionar Kim Jong-il, pai do Jong-un, para que permitisse alguma abertura ao exterior, tal como a China estava a começar a fazer - um processo que desde aí só se intensificou. Confrontados com a possibilidade de que a Coreia do Norte abandonasse o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, os Estados Unidos decidem agir. Nesse mesmo ano, a Coreia do Norte promete autorizar a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, na sigla em inglês) a inspecionar o complexo nuclear de Yongbyon e os Estados Unidos aceitam pôr termo aos exercícios nucleares com a Coreia do Sul.

A aura de confiança rapidamente se dissipou quando se ficou a saber que os agentes da IAEA não tinham tido acesso a toda a central. Pouco tempo antes de Bill Clinton ordenar a retirada de todos os norte-americanos - já que estava a considerar seriamente um ataque - Jimmy Carter deslocou-se à Coreia do Norte e o pior foi evitado. A diplomacia voltava a ser, por agora, um caminho possível.

Em 1994 os dois países assinam finalmente o “Agreed Framework”, um itinerário para a desnuclearização que pressuponha o desmantelamento da central de Yongbyon, a fonte do plutónio enriquecido, em troca de fornecimento de petróleo por parte dos Estados Unidos que continuaria até que a própria Coreia do Norte conseguisse construir as suas centrais de energia para fins civis.

Em Geneva, um brinde ao aparente sucesso das negociações, acabou por se tornar uma espécie de metáfora para as ratoeiras diplomáticas que a Coreia do Norte foi inserindo no processo. Joel Wit, um dos diplomatas presentes na assinatura do acordo contou ao diário britânico “The Guardian” que o brinde oferecido pelos norte-coreanos tinha pequenas cobras no fundo. “Cheirava como se tivesse lá dentro animais mortos, isto porque de facto tinha lá dentro animais mortos. Eu olhei para os meus colegas e toda a gente pousou os copos. Não sei se os norte-coreanos viram”, contou.

O acordo havia de durar quase nove anos, mas os republicanos no Congresso atrasaram sempre as transferências de combustível para os norte-coreanos e mais tarde descobriu-se que o regime continuava a tentar fazer uma bomba, desta vez com urânio. George Bush não precisou de mais para cancelar o acordo mas quem apoiava o acordo defendeu na altura que, com atrasos na entrega de combustível seria apenas natural que a Coreia do Norte se quisesse proteger com uma eventual torneira fechada e que ambos os países se tivessem sentado de novo à mesa, também o enriquecimento de urânio teria parado.

Durante dois anos nada se falou, nada de acordou. Nesse tempo, a Coreia do Norte perseguia, embora sem grande alarido, o seu programa nuclear. Christopher Hill, negociador-chefe de George Bush e que na altura disse publicamente ser contra o fim dos acordos de 1994 foi nomeado para pegar na meada e voltar a tentar controlar a produção de armas nucleares por parte da Coreia do Norte. Em 2003, a Coreia do Norte de facto abandona o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em 2005 volta a haver acordo - e no acordo havia coisas que já estavam no “Agreed Framework” de 1994 e que possivelmente estarão também no documento que sair desta cimeira de Singapura. Coisas como “ processo de desnuclearização verificável por agentes internacionais”, por exemplo, deverão estar no acordo de princípio mas resta saber se desta vez será respeitado.

Poucas semanas depois, para fúria de Christopher Hill, o Tesouro norte-americano congelou 23 milhões de dólares de bens norte-coreanos depositados num banco em Macau o que fez os norte-coreanos duvidar das intenções dos Estados Unidos em manterem-se fiéis ao acordo. “Havia uma parte do governo norte-americano que estava desligada do outra e isso não foi a primeira vez que aconteceu nem será a última. Foi um ato de sabotagem dos abutres de Bush, entre eles [John] Bolton (atual conselheiro para a segurança nacional de Trump) porque tudo o que eles queriam era acabar com as negociações”, disse ao "The Guardian". Em outubro de 2006 a Coreia do Norte conduz o primeiro teste nuclear.

Em 2012, já com Barack Obama na Casa Branca, dá-se nova tentativa. Kim Jong-un aceita assinar os chamados “Acordos do Ano Bisexto” e mais uma vez a ideia era suspender o enriquecimento de material a nível nuclear, sob supervisão da IAEA E, em retorno, os Estados Unidos enviariam ajuda humanitária, comida e combustível. Mas os testes balísticos continuaram.

Apesar de o regime garantir que essa atividade não passava de desenvolvimento de satélites para exploração espacial, a Administração de Obama considerou esta uma quebra do acordo e cessou o envio de ajuda. Os problemas não foram unilateralmente criados pela Coreia do Norte. Não faltam episódios, desde 1992, que provam que os Estados Unidos, ou alguns dos seus atores políticos, conseguiram criar um clima de desconfiança que levou a Coreia do Norte a preferir optar pelo seguro - que, num paradoxo, é ter plena força nuclear para o caso de ter que se defender.

Em 2017 a Coreia do Norte aumenta significativamente o número de testes nucleares. O primeiro é logo em fevereiro e haverá pelo menos um teste todos os meses até ao fim do ano. Alguns deles sobrevoam o Japão e a temperatura das relações com os vizinhos próximos da Coreia do Norte, o Japão e a Coreia do Sul, atinge níveis gélidos. Os Estados Unidos estão presentes em ambos os países, com uma força militar de milhares de homens, e é aqui que as retaliações económicas atingem níveis incapacitantes para a já débil economia norte-coreana. E eis que chegamos a meio de 2018, no centro de um furacão de ofensas mútuas que só cessou há uma semana quando um enviado do regime norte-coreano à Casa Branca foi recebido por Donald Trump trazendo consigo uma carta de Kim Jong-un.

Parece certo que os dois homens vão de facto encontrar-se mas a fé de Donald Trump na sua arte negocial de improviso - “é uma questão de atitude” disse Trump sobre as consequências necessárias para uma negociação deste tipo - pode colocar em risco toda a negociação já que estas não são negociações simples e envolvem não só a Coreia do Norte e os Estados Unidos mas também aliados de ambos. Esse terreno movediço afeta, por exemplo, a China que, apesar de ter sido quase sempre um aliado ainda que relutante da Coreia do Norte não deve estar muito entusiasmada com a ideia da união das Coreias sob batuta dos Estados Unidos. e his nuclear arsenal is seen in Pyongyang as the guarantor of his dynastic rule.

Há uma vantagem. Trump vai de facto encontrar-se com quem decide. Evans Revere, que serviu como um dos especialistas em assuntos relacionados com a Coreia do Norte na Administração anterior disse ao “The Guardian” que muitas vezes se sentiu “frustrado” porque as pessoas que se sentavam à sua frente a negociar “não tinham poder para decidir os assuntos que estávamos a discutir”. Nos dias que antecederam a conferência, a Administração de Trump passou de exigir a completa e imediata desnuclearização para falar de um processo de negociação que pode demorar mais tempo e que o mais importante “é haver uma ponto de contacto”. O que isto quer dizer é que é impossível prever se esta cimeira será um sucesso imediato ou um caminho tortuoso como aquele pelo qual já passaram Clinton, Bush e Obama.