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Já faltou mais para o caldo de legumes com torresmos, Ake. A crónica do segundo dia de resgate na gruta em Chiang Rai

LILLIAN SUWANRUMPHA

O segundo dia de operações de resgate na gruta Thum Luang trouxe mais quatro crianças para o exterior. Sobram quatro rapazes e o treinador da equipa de futebol na gruta em Chiang Rai, no norte da Tailândia. “Estamos muito felizes”, desabafou o chefe da operação

Sexta-feira, mais ou menos duas semanas depois de terem entrado na gruta Thum Luang, no norte da Tailândia, trocaram-se cartas. Acalmavam-se os dois lados do coração: o que vive lá dentro e o que suspira cá fora. “Neste momento não têm de se preocupar connosco”, escreveu Adul, de 14 anos, aos pais. “Sinto a falta de todos, quero sair daqui rapidamente.”

O dia tão esperado aproxima-se. Esta segunda-feira foram retiradas mais quatro crianças da gruta (a que se juntam as quatro de domingo), ficando a sobrar lá dentro outras quatro e o treinador da equipa de futebol.

Os mergulhadores estão cada vez mais eficazes e conhecedores do terreno. Durante a semana demoraram cerca de 11 horas para chegar ao local onde está a equipa e regressar ao exterior. Esta segunda-feira foram necessárias apenas cinco horas e meia para retirar o primeiro rapaz daquela gruta no norte da Tailândia. Participaram nas operações de hoje 100 pessoas, incluindo 18 mergulhadores internacionais. Nenhum dos mergulhadores é português, confirmou ao Expresso uma fonte da embaixada da Tailândia em Lisboa.

YE AUNG THU

Esta manhã começou com boas notícias: as condições de resgate eram “tão favoráveis” quanto eram no domingo e o nível da água não era “preocupante”, anunciou Narongsak Osatanakorn, o responsável das operações. Os trabalhos começaram às 11h00 da manhã locais (5h00 da manhã em Lisboa). “Esperamos ter boas notícias em breve.”

A operação é delicada. Para além de ser uma prova de resistência, é necessário mergulhar e ultrapassar zonas apertadas e sinuosas. Os quatro rapazes retirados da gruta no domingo estão todos “muito bem” e até pediram para comer pad kra pao, uma iguaria que junta galinha e manjericão ao inseparável arroz, contou Osatanakorn.

Por volta das 11h20 saiu o primeiro rapaz do dia, o quinto desde o arranque das operações no domingo. Mais ou menos uma hora depois, saiu a sexta criança das 12. Entretanto, por essa altura, foi cancelada a visita do primeiro-ministro daquele país para não perturbar os trabalhos. Prayuth Chan-ocha vai manter-se por perto, algures em Chiang Rai.

Lauren DeCicca

Entre as 13h00 e 14hoo de Lisboa saíram mais duas crianças, perfazendo assim oito crianças resgatadas. Os quatro miúdos retirados da gruta estavam com equipamento de mergulho e foram observados e socorridos no local. As máscaras tapavam o rosto todo e apenas eram retiradas por equipas médicas. Ainda não se sabe a identidade dos jovens resgatados.

“Estamos muito felizes por termos resgatado outros quatro [miúdos]”, afirmou a meio da tarde Osatanakorn, numa conferência de imprensa a decorrer a dois quilómetros da gruta. Por essa altura dava-se por encerrado o segundo dia de operações de salvamento. Na Tailândia o relógio conta mais seis horas do que em Portugal Continental.

Linh Pham

A operação é retomada na terça-feira, provavelmente quando forem 5h00 da manhã em Lisboa, se tudo decorrer como nesta segunda-feira. “Não consigo dizer-vos quando é que vamos retirar os próximos jovens”, acautelou Osatanakorn. De acordo com o correspondente do “The Guardian”, o ambiente está mais leve por lá nestes dias. O chefe da operação recebeu aplausos quando terminou a conferência de imprensa, agradecendo depois a alguns jornalistas.

Apesar do otimismo e maior agilidade e velocidade da operação, Osatanakorn espera manter o plano: quatro resgatados por dia, admitindo que os mergulhadores esbocem outro plano. Se tudo se desenrolar como é suposto, alguém ficará para trás, sozinho (ou acompanhado por alguém da equipa de resgate). É provável que, a ser este o cenário, seja o treinador de futebol, o único adulto, a ficar mais uma noite na gruta.

Numa das cartas que enviou para o exterior, o treinador tentou acalmar a sua tia e avó. “Estou bem. Não se preocupem demasiado comigo. Cuidem-se. Tia, por favor diz à avó para fazer caldo de legumes e torresmos (pele de porco). Vou comer assim que sair. Amo-vos", escreveu Ekapol Chanthawong, conhecido por Ake.