Internacional

“O mundo viu e saúda a vossa coragem”: a história de um resgate que não se sabe se foi “milagre ou ciência”

Linh Pham/Getty Images

Chegou a temer-se o pior, mas as expectativas inverteram-se a dada altura e 10 de julho é um dia que ficará na memória de todos. Aquela caverna na Tailândia tornou-se um lugar de esperança

Helena Bento

É a dúvida primordial e certamente não será esclarecida agora, mas se há momento em que ela ocorre com mais força é precisamente este. Doze crianças e um jovem de 25 anos foram resgatados depois de terem passado 17 dias debaixo da terra, com água, comida e cobertores a partir de certa altura, mas ainda assim em condições adversas. “Milagre ou ciência?”, perguntou a Marinha tailandesa na sua página de Facebook, embora numa formulação um pouco diferente (“não sabemos se foi um milagre ou se foi a ciência”). E se a Marinha, que os resgatou, não tem resposta para isso, nenhum de nós terá também.

Depois do sucesso das missões de resgate de domingo e segunda-feira, que permitiram retirar da gruta Tham Luang, na província de Chiang Rai, no norte da Tailândia, oito rapazes (quatro em cada dia, segundo um plano estipulado que viria a ser cumprido à risca), já praticamente ninguém duvidava ou queria duvidar de que esta terça-feira também correria bem. O responsável pelas operações de salvamento, Narongsak Osottanakorn, expressou logo pela manhã essa mesma esperança, durante uma conferência de imprensa num local improvisado a poucos quilómetros da gruta: “Se tudo correr bem, iremos ver quatro rapazes, um médico, um treinador e três marinheiros a sair daquela gruta”, afirmou.

Enquanto a equipa de resgate, formada por 19 mergulhadores, abria caminho na gruta, o multimilionário Elon Musk anunciava no Twitter ter visitado o local e oferecido o seu submarino para o caso de vir a ser útil - a proposta acabaria por ser recusada pelas autoridades, por não se tratar de uma ferramenta “prática” para este tipo de missões. O método de resgate viria a ser igual àquele que foi usado nas missões nos dois dias anteriores - uma corda instalada pelas equipas de salvamento na gruta para ajudar os mergulhadores, mas sobretudo as crianças, a percorrer as passagens estreitas e escuras, muitas delas cobertas de água, que separavam a rocha gigante onde tinham encontrado refúgio da superfície.

Quase seis horas depois de a equipa ter entrado na gruta, chegava a primeira boa notícia - um dos rapazes tinha sido já retirado. A informação foi avançada por agências de notícias e correspondentes no local - foi através deles, aliás, que se foi tendo conhecimento da maioria dos resgates, depois de os jornalistas terem sido impedidos de se aproximar da gruta para não perturbar as operações - e confirmada, minutos depois, pela Marinha tailandesa. Assim se repetiu nas horas seguintes, com um intervalo de cerca de uma hora entre cada resgate.

Perto das 19h00 (hora local, 13h00 em Lisboa), a Marinha tailandesa recorria ao Facebook para anunciar que os 12 rapazes, assim como o seu treinador, de 25 anos, já tinham sido retirados da gruta. “Não sabemos se foi um milagre ou se foi a ciência”, escreveu então a Marinha. Pelo menos no local a alegria era visível. Dezenas de pessoas guardavam os smartphones de que se tinham servido para acompanhar as operações durante as horas e dias anteriores para poderem acenar e bater palmas à passagem dos helicópteros que iam descolando com destino ao hospital em Chiang Rai, conforme se viu nas imagens e vídeos divulgados nas redes sociais.

Mas a missão não estava ainda terminada. Permaneciam na gruta um médico e quatro mergulhadores que haviam estado com os rapazes nos dias anteriores e foi preciso esperar quase duas horas até ter notícias deles. “Deem-lhes coragem”, pediu a Marinha tailandesa. E, ao vermos a foto dos quatro, ainda na gruta mas já a salvo, de polegares erguidos, repetimos para dentro que, de facto, esta missão de sobrevivência num país de que pouco se sabe e numa gruta de que se sabe ainda menos não passou ao lado de quase ninguém. “Fizemos coisas que não achávamos que fôssemos capazes de fazer. Sinto-me orgulhoso por termos conseguido concretizar esta missão impossível”, afirmou Narongsak Osottanakorn já no final de tudo.

Como seria de esperar, foram vários os líderes políticos a manifestar alívio. “Estou muito satisfeita por ver o resgate bem-sucedido nas grutas da Tailândia. O mundo estava a ver e vai saudar a coragem de todos os envolvidos”, escreveu a primeira-ministra britânica, Theresa May. “Há tanto para admirar: a perseverança dos rapazes corajosos e do seu treinador e a capacidade e determinação dos socorristas”, escreveu por sua vez Steffen Seibert, o porta-voz da chanceler alemã Angela Merkel, no Twitter. Donald Trump também não quis ficar de fora e, numa publicação partilhada na mesma rede social, deu os “parabéns à Marinha tailandesa, em nome dos EUA”. “Que momento bonito. Todos livres, bom trabalho!”. Um coro raro de vozes que não deixa esquecer, porém, a morte de Saman Kunan, um antigo membro da Marinha tailandesa que se voluntariou para ajudar, mas que acabou por morrer na gruta depois de ter ficado sem oxigénio. Ele é o “verdadeiro herói”, disse Narongsak Osottanakorn.

Para os quatro rapazes resgatados esta terça-feira, assim como para o treinador, está reservado um período de isolamento no hospital para onde foram transportados, à semelhança daquilo que aconteceu com os jovens resgatados no domingo e na segunda-feira. Sobre estes, sabemos que “estão bem”, ou não tivesse sido essa a garantia dada esta terça-feira de manhã pelo diretor do hospital Chiang Rai Prachanukroh - onde está internada a equipa. Devem permanecer no hospital nos próximos sete dias para evitar infeções e, nas próximas horas, vão ser submetidos a novas avaliações. As autoridades estão sobretudo preocupadas com a possibilidade de os jovens terem contraído Histoplasmose, também chamada “doença da gruta”, uma infeção causada pela inalação de esporos (célula resistente, que, isoladamente, pode germinar e originar um novo indivíduo) encontrados em excrementos de pássaros e morcegos. Dois dos jovens resgatados na segunda-feira deram entrada no hospital com uma infeção pulmonar, que já estará a ser tratada. Pais e filhos continuam sem poder aproximar-se, vendo-se apenas através de uma janela de vidro.

Não vai ser possível às 12 crianças viajar para a Rússia para assistir à final do Mundial de Futebol de 2018 que se disputa a 15 de julho, como lhes tinha sido proposto pelo presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), um entre diversos convites do género que foram surgindo nas últimas horas, como o de Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, para que as crianças assistam à 'final four' da Taça da Liga. Foi Thongchai Lertwilairatanapong, do Ministério da Saúde tailandês, que recusou o convite da FIFA, alegando que os jovens “têm de ficar no hospital durante algum tempo”. Mas o que para qualquer outra criança qualquer seria uma decepção, para estas não o será tanto assim. A maior viagem já eles fizeram. E saberem que não podem fazer esta significa, antes de mais e para cada um deles, que estão vivos.