Internacional

Ministro alemão gabou-se de que 69 afegãos tinham sido deportados no seu 69.º aniversário. Agora um deles matou-se

TOBIAS SCHWARZ

A observação de mau gosto de Horst Seehofer, que tem pressionado Angela Merkel a endurecer as políticas em relação aos refugiados, não podia ter vindo em pior altura

O ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, está a resistir à exigência feita por vários partidos de que se demita, após ter sido noticiado que um jovem afegão deportado há uma semana da Alemanha se suicidou no hotel onde o tinham instalado em Cabul. O ministro tinha-se referido a essa deportação em termos quase trocistas.

Seehofer, que é o líder da CSU (o partido bávaro equivalente ao CDU, de Ângela Merkel), vem defendendo uma linha dura em matéria de emigração, e recentemente quase fez cair o Governo por causa disso. As suas pressões –que por sua vez são uma resposta à concorrência eleitoral da Alternativ fur Deutschland, o partido de extrema-direita e antiemigração – têm levado à adoção de posições cada vez mais agressivas em relação aos candidatos a asilo.

Terça-feira, o ministro gabou-se publicamente das 69 deportações efetuadas num único dia, 4 de julho. "Foi no meu 69.º aniversário – e nem sequer por ordem minha – que 69 pessoas foram devolvidas ao Afeganistão. Bastantes mais do que é costume", disse numa conferência de imprensa durante uma cimeira com outros ministros do Interior antiemigração em Innsbruck.

Ministro descarta responsabilidades

Já na altura políticos de esquerda, e não só, consideraram a observação "repugnante" e "vergonhosa", dizendo que mostrava falta de humanidade. Mas a notícia de que um dos deportados, um homem de 23 anos que vivia na Alemanha há oito (portanto, que foi para lá ainda menor), se tinha enforcado no hotel de onde ia ser transferido para a cidade de Herat causou indignação na Alemanha.

O ministro defendeu-se, lembrando que tinham sido as autoridades de Hamburgo a pôr o jovem na lista. Quanto à sua graça sobre a coincidência numérica, negou-se a fazer comentários, como não os fez sobre os apelos à sua demissão. "Não tenho nada a dizer sobre isso", explicou.

Merkel, que em 2015 anunciou a intenção de acolher refugiados sírios, pagou um elevado preço político por isso e foi obrigada a arrepiar caminho – até certo ponto. O ano passado, depois de uma bomba matar 80 pessoas em Cabul, tinha dito que só seriam deportados os refugiados que tivessem cometido crimes. Mas também essa política não resistiu muito tempo às pressões.

"Está no cargo errado", diz uma deputada

A Organização Internacional das Migrações, que utiliza o hotel onde o jovem deportado se encontrava, pediu que em vez de deportações se tente conseguir repatriamentos voluntários com assistência na reintegração, explicando que "os retornos forçados carregam o estima do fracasso, encorajam a reemigração insegura e aumentam os riscos e as dificuldades do retornado".

O ministro do Interior austríaco, presente na cimeira com Seehofer, defendeu o seu colega: "Não há nenhum modelo que nos permita excluir que alguém tire a sua própria vida em desespero". Mas uma deputada dos Democratas Livres insistiu na demissão de Seehofer: "Alguém que celebra 69 deportações no seu 69.º aniversário está no cargo errado".

Outro deputado, dos Social-Democratas (parceiros de Merkel no Governo), escreveu mais sinteticamente no Twitter: "A demissão dele já está atrasada. Olá, coligação?!?"